NOVA YORK

NÃO É MAIS A MESMA



Texto: Carolina Camargo
Fotos: Érika Garrido

Ao pensar na Big Apple, fica difícil não vir à mente a imagem da Times Square lotada, das filas no icônico Rockfeller Center ou do ir e vir de pessoas com sacolas de compras na 5ª Avenida, uma das vias mais famosas Manhattan. Porém, a pandemia mudou o cenário de uma das cidades mais visitadas do mundo.

A fervilhante Midtown, área da cidade com o maior número de atrações, hotéis e restaurantes, com calçadas lotadas e o caos ininterrupto de turistas, transformou-se em cenário digno de faroeste. Ou, como Donald Trump fez questão de esbravejar durante a campanha presidencial, uma ghost town (cidade fantasma).

A sensação de filme pós-apocalíptico no auge do lockdown foi amplificada pela falta do contingente de profissionais que, agora em home office, deixaram de somar-se à multidão: a região concentra os escritórios de multinacionais e as principais emissoras de TV dos Estados Unidos.

Com a reabertura gradativa da cidade a partir de junho, o movimento voltou aos poucos, mas nada comparado a o que era antes. "A cidade está quieta. diferente. As ruas estão tranquilas e o metrô, limpo e vazio", diz o empresário Renzo Orellana, que encontramos passeando por Midtown durante a tarde que realizamos as fotografias e entrevistas desta reportagem.

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ANA SAPHIRO

81 anos, norte-americana, artista plástica



"É triste ver Nova York vazia. Essa cidade é feita de turistas. A única coisa boa é poder andar pelas calçadas sem ter de ficar desviando das pessoas para não esbarrar. Vim pela primeira vez ao MoMA desde que reabriu. Como sou artista plástica, sempre foi um dos meus passeios favoritos. Foi muito fácil conseguir ingressos, que agora são com dia e horário pré-agendados. Estava tão vazio! Me senti segura e até acho que poderiam permitir um número maior de pessoas por vez".

"Moro em NYC há 30 anos e estava na cidade na época do furacão Sandy, em 2012. Não posso reclamar porque a única coisa que me aconteceu foi ficar sem energia elétrica por cinco dias. Mas eu sabia que, assim que a luz voltasse, minha vida retornaria ao normal também. Agora, é uma incógnita. Eu só sei que Nova York voltará a ser o que era".

No final de agosto, os museus reabriram com 25% da capacidade. As visitas têm de ser agendadas e o tickets devem ser adquiridos online. Atrações famosas como o Empire State Building e o Top of the Rock também abriram com restrições de horário e número de visitantes.

No final de setembro, restaurantes foram autorizados a voltar a servir nos salões. Até então, só atendiam em mesas montadas nas calçadas e na rua - o que continua, apesar de o clima já estar esfriando. Além de checagem de temperatura na entrada e do uso obrigatório de máscara até o momento de sentar-se, o cliente tem de informar nome, endereço e telefone para fins de rastreamento caso o restaurante seja identificado como um foco de covid-19.

RICARDO OLIVEIRA

44 anos, brasileiro, gerente-geral da churrascaria Fogo de Chão de Manhattan



"Eu já vivia em Nova York na época do atentado terrorista de 11 de setembro. Claro que é complicado fazer comparações, mas NYC se adapta muito rápido às situações. Apesar de todas as dificuldades, é uma cidade que se reinventa e volta cada vez mais forte. A resiliência é uma característica muito forte".

"Em bairros mais turísticos, como Midtown, a cidade está vazia. Ver a Times Square sem ninguém entristece, mas creio que é só um momento. Já no Upper East Side, um bairro de residentes, o tráfego voltou ao normal. A verdade é que são 8 milhões de habitantes em NYC, e a cidade caminha sozinha sem o turismo. Mas sentimos muito a falta dos brasileiros por aqui".

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No início de outubro, regiões do Brooklyn e do Queens voltaram a ter negócios e escolas fechadas por conta do aumento dos casos de covid-19 na cidade de Nova York. Cerca de meio milhão de moradores foram afetados pela decisão. Demais áreas estão sob observação. O uso de máscara é obrigatório, mesmo ao ar livre. A multa por descumprir a determinação pode chegar a US$ 1 mil.

Para que a reabertura de Nova York permaneça, a taxa de casos positivos tem de estar abaixo de 3% por dez dias consecutivos. Até então, nenhuma área de Manhattan voltou para o lockdown. No entanto, isso pode mudar em breve. Na última quarta-feira (18), com a taxa no limite, o prefeito Bill de Blasio fechou novamente as escolas públicas.

Para conter uma possível segunda onda do vírus, novas diretrizes foram impostas na semana passada em NYC. Bares, restaurantes e academias devem fechar às 22 horas e reuniões (mesmo familiares) podem ter, no máximo, dez pessoas. O governo também pede que os moradores não viajem nos próximos feriados. O receio se aplica especialmente ao Dia de Ação de Graças, 26 de novembro, a data festiva mais importante dos EUA.

OSSAMA ELSAYED

43 anos, egípcio, vendedor de cachorro-quente na Times Square



"A Times Square é o melhor lugar de Nova York para se trabalhar. Moro nos Estados Unidos há 18 anos e comecei a vender cachorro-quente nessa região há 4. Antes da pandemia, eu trabalhava à noite. Com os teatros da Broadway abertos, muitas pessoas compravam bebidas, hot dogs e pretzels para aguardar nas filas. No verão, o movimento era ainda maior. Eu recebia um salário e mais porcentagem nos itens vendidos. Com muitas lojas e os teatros ainda fechados, esse público não existe mais"

"Antes, eu usava cerca de 2,5 quilos de salsicha por noite e vendia pelo menos 100 lanches. Agora, fico no carrinho das 7 às 15 horas e não chegam a sair nem dez hot dogs. O dono do carrinho até me ajuda como pode, mas o negócio está muito mal. Essa área está vazia, mas tenho esperança de que as coisas vão voltar aos poucos. Quem sabe no ano que vem...".

MAI NAGASE

21 anos, japonesa, estudante de ciência política



"Vim do Japão há dois meses para visitar meu namorado. Estava com mais medo da imigração do que preocupada com a covid-19. Mas só me fizeram duas perguntas: onde eu ia ficar e por quanto tempo. Foi tão fácil que eu fiquei surpresa. Foram legais comigo".

RENZO ORELLANA

26 anos, peruano, proprietário de um e-commerce de joias


"Moro em Connecticut há 15 anos e, como é perto, estou sempre em NY. A cidade está quieta, diferente. As ruas estão tranquilas e o metrô, limpo e vazio. Dá para comer em restaurantes conhecidos sem ter reserva e ir a museus sem esperar em filas. Porém, as pessoas estão tratando os asiáticos de um jeito diferente. Andamos na rua e elas ficam olhando com cara feia para minha namorada".

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Mesmo sem previsão de fim para as restrições aos turistas, Nova York está vivendo uma antecipação dos preparativos para o Natal - em anos anteriores, a tradição mandava esperar a passagem do feriado de Ação de Graças. A loja Saks, na 5ª Avenida, começou a preparar sua tradicional decoração da fachada, parada obrigatória dos visitantes em dezembro. Vinda do norte do estado, a famosa árvore de Natal do Rockfeller Center chegou no último sábado, dia 14. A inauguração acontecerá no dia 2 de dezembro trazendo aquele lampejo de normalidade para uma Nova York que, não, não é a mesma.

Publicado em 20 de novembro de 2020


Reportagem: Carolina Camargo
Fotos: Érika Garrido
Edição: Eduardo Burckhardt
Direção de arte: René Cardillo