"Marvada" que nada

Brasileiríssima, cachaça rebate preconceito e cresce como bebida gourmet

Pedro Marques Em colaboração para Nossa

Muitos países são famosos por suas bebidas: é assim com o uísque escocês, o gim inglês e a tequila mexicana, por exemplo. Em outros lugares, porém, nem sempre se dá a importância devida às suas bebidas, como o Brasil faz com a cachaça.

Apesar de o destilado feito com cana-de-açúcar ser reconhecido como produto genuinamente nacional (com padronização definida por decreto presidencial, inclusive) e ser associado no mundo inteiro com o Brasil, até hoje existe muito preconceito em torno da "marvada".

Para profissionais envolvidos até o gargalo com a bebida, a visão pouco simpática do "cachaceiro" ou "pé-de-cana" tem relação com nossa história e o fato de, geralmente, acharmos que tudo o que vem de fora é melhor.

Essa situação, felizmente, está mudando nos últimos anos, com a valorização dos ingredientes nacionais. Há um projeto bem encaminhado para distinguir cachaças artesanais das industriais e, nos bares, a cachaça mostra sua versatilidade em coquetéis que vão além da caipirinha.

Segundo os especialistas ouvidos por Nossa, o caminho ainda é longo - mas é melhor do que já foi.

UMA DOSE DE HISTÓRIA

O que pouca gente sabe ou lembra é que a cachaça é um dos destilados mais antigos do mundo e que sua história se confunde com aquela que aprendemos desde o colégio. Já em 1504, os portugueses plantaram as primeiras mudas de cana-de-açúcar no Brasil em 1504 e, ainda que pela falta de registros seja impossível afirmar quando e onde a primeira pinga foi feita, com certeza foi produzida nos primeiros engenhos erguidos para processar cana-de-açúcar, entre 1516 e 1532.

Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, autor de a "História da Alimentação no Brasil", ela surgiu em São Vicente, hoje litoral do estado de São Paulo. Outras versões falam que isso aconteceu em Pernambuco.

Existem várias lendas sobre sua origem, como a de que escravos inventaram a caninha por acidente, que pingava dos tetos do engenho - daí o nome pinga. Apesar de simpática, essa história ignora que os portugueses já sabiam destilar bebidas alcoólicas, como a bagaceira, feita com sobras das uvas usadas na produção do vinho.

Durante a Inconfidência Mineira, que pregava a independência da colônia, a cachaça passou a ser usada pelos separatistas como símbolo de brasilidade. Com o movimento interrompido, a percepção da bebida voltou àquela de destilado pouco nobre - o que foi reforçado com a vinda da corte imperial portuguesa ao Brasil no começo do século 19.

Essa visão só foi contestada durante a Semana de Arte Moderna de 1922, que elegeu a cachaça e a feijoada como símbolos nacionais. A oficialização deste status, porém, só ocorreu em 1997, quando um decreto presidencial de Fernando Henrique Cardoso aprovou um regulamento de lei instituindo a cachaça como produto tipicamente brasileiro.

DANDO NOME AOS BOIS

"Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38% a 48%". O decreto cravava a "paternidade" da bebida e regulamentava as normas para a fabricação e venda do destilado

Porém, como nossa legislação é um tanto quanto complicada, tanto esse decreto quanto o que veio a substituí-lo, assinado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2009, consideram apenas que existem mais dois tipos de "marvadas": as adoçadas e as envelhecidas. Todas as outras denominações são definidas pela Instrução Normativa nº13, de 2005.

Para ser chamada de "envelhecida", por exemplo, a bebida tem que ter, no mínimo, 50% de aguardente envelhecida. No caso da "premium", 100% do destilado tem que ser envelhecido em recipiente de madeira por pelo menos um ano. Já a "extra premium" tem que ser maturada por três anos, no mínimo.

Por outro lado, são proibidos os usos de termos como "artesanal" ou "de alambique", diferenciação que os pequenos produtores estão tentando conquistar, como explica Paulo Leite, ex-proprietário do bar Sagarana, que fez fama com sua carta de cachaças.

Praticamente toda a cachaça industrial é feita por coluna. São produtos feitos com extrema qualidade técnica, mas costumam ser sensorialmente mais simples, Já as de alambique, são mais variadas e trazem características dos lugares em que foram produzidas", explica Leite

Para o especialista, ter essa separação vai ajudar os produtores menores e dar um novo gás para o setor. "Se está no rótulo que a cachaça é de alambique, o consumidor já sabe que é uma caninha diferente", afirma.

Segundo Leite, ainda não há prazo para que essa mudança seja aprovada pelo governo - a expectativa é para 2021. Enquanto isso não acontece, o jeito é descobrir se uma caninha é boa do jeito "old school": bebendo.

A gente tem tantas madeiras e tantos produtores, que, por mais que a gente tente, é impossível colocar a cachaça em uma caixinha. Cada produtor tem um resultado diferente"

consultora de bebidas Isadora Bello Fornari

PARA TODO MUNDO

Uma das belezas da cachaça é sua variedade de sabores. Quem está começando a se aventurar nesse universo, porém, pode se sentir intimidado diante de tantos rótulos. Veja algumas dicas básicas para se iniciar neste mundo.

Garrafão, não

Para Paulo Leite, a primeira regra é deixar o romantismo de lado e procurar bebidas registradas no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). "Essa história de que foi pro interior e trouxe uma cachaça boa no garrafão PET, direto do alambique, é roubada", ensina.

Narigada

Usar o nariz antes da boca sempre. Uma "marvada" de qualidade precisa ter aromas florais e que remetam à cana-de-açúcar, mas outras características podem aparecer de acordo com a região em que a bebida é produzida. Aguardentes do litoral podem ter notas mais salgadas, por exemplo.

Branquinha primeiro

Mesmo que você prefira as amarelinhas, vale provar primeiro a versão prata da caninha feita pela destilaria, se tiver essa oportunidade. "Quando vou comprar uma cachaça que não conheço, busco a branca. Até porque ela vai ser a base das pingas envelhecidas do mesmo produtor", orienta Paulo.

Às cegas

Se não dá para tomar um golinho antes de levar a pinga para casa, vale fazer uma pesquisa sobre os rótulos. Depois, é escolher entre uma caninha prata, mais seca e potente, ou uma amarelinha, lembrando que o envelhecimento em madeira ajuda a suavizar a bebida.

MAESTRINA DA CACHAÇA: A MADEIRA

Guardar cachaça em barril ou tonéis de madeira não é novidade entre os produtores da bebida. Reza a lenda que a técnica foi descoberta quando a bebida começou a ser transportada em barris de outros estados para Minas Gerais, durante a corrida do ouro. Ao ver que a birita mudava de cor e ganhava outro gosto, o processo foi adotado de vez.

Antigamente, porém, o tempo em barril era menor, "porque o sabor e a suavidade que o envelhecimento traz não eram tão importantes", afirma o especialista Paulo Leite. Só recentemente que essas qualidades passaram a ser valorizadas:

O envelhecimento deixou de ser uma conveniência para ser uma ciência.

A maioria das madeiras utilizadas hoje é brasileira, varia de acordo com a região onde a pinguinha é feita e, como era de se esperar, cada uma delas tem suas características, como aponta a consultora Isadora Bello Fornari

A amburana, popular em Minas, tem canela, mel e frutas passas. Já o bálsamo, também querido dos mineiros, acrescenta um toque de ervas mais seco. Já o amendoim traz um gosto mais vegetal, um pouquinho mais de picância, enquanto o jequitibá vai para um caminho mais floral e amendoado. Estas duas últimas, as favoritas dos alambiques do Rio de Janeiro.

E as combinações não param por aí. Fornari destaca que os produtores agora combinam aguardentes envelhecidas em diferentes madeiras, o famoso blend. "Isso faz que as possibilidades sejam infinitas, afirma.

VAI BEM COM TUDO

A caninha, seja ela branca ou prata, oferece diversas oportunidades de harmonização com comidas, tanto as do dia a dia quanto as preparadas em ocasiões especiais.

Para Isadora, os casamentos mais certeiros são com sobremesas. "Como a cachaça é naturalmente doce, ela harmoniza com esses pratos", afirma.

Mas nada impede que seja servida junto a outras receitas. Por ser mais alcoólica, ela costuma ir bem com comidas bem untuosas, como cremes, ou pratos mais ácidos, criando um contraste e ressaltando esses elementos. Ceviche é um bom exemplo.

Em linhas gerais, as branquinhas fazem par com frutos do mar com temperos leves, enquanto as envelhecidas casam com carnes vermelhas em geral e os cortes mais escuros de porco, de preferência assadas ou cozidas lentamente.

Ainda existe aquela marginalização da cachaça e um grande preconceito. As pessoas preferem outras bebidas porque acham que dá mais glamour

Carlos Lima, diretor-executivo do Ibrac, à época do lançamento do Anuário da Cachaça 2019

QUERIDA DESCONHECIDA?

Diante de tanta história e variedade, não dá para alegar que a cachaça não é altamente popular: há mais de 400 sinônimos para a birita, que também é inspiração para músicas, contos e poemas de norte a sul, como Felipe Jannuzzi e Gabriela Barreto, criadores do site Mapa da Cachaça, já descobriram.

Especialistas, porém, ainda sofrem para convencer o público de que cachaça é tão nobre quanto qualquer destilado importado e vendido a altas cifras.

À frente do "Molhando a Palavra", o barman e consultor Laércio Zulu tem uma visão um pouco mais otimista.

Esse comportamento vira-lata que a gente tem de bajular o gim (e o que vem de fora) não vai acabar tão cedo. Isso acontece desde o tempo em que a gente era colônia. Mas as fronteiras estão cada vez mais se abrindo para quem quer conhecer uma boa caninha", afirma.

Paulo Leite, enfatiza a chance do brasileiro (e do mundo) conhecer o produto artesanal: "Falta mostrar ao mundo o que é uma cachaça de verdade, isso nunca aconteceu".

CACHAÇA NÃO É SÓ CAIPIRINHA

Famosa como drinque tipicamente brasileiro, a verdadeira caipirinha é feita com cachaça - reconhecida por IBA (Associação Internacional de Bartenders) e até regulamentada pode decreto presidencial. Tem horas, porém, que a fama do coquetel atrapalha a própria cachaça, que é mais versátil do que muitos podem imaginar.

Para uma combinação certeira, Zulu recomenda "drinques que seguem uma linha mais tropical, com sucos". Mas a "água-que-passarinho-não-bebe" pode aparecer em diversos coquetéis autorais e também brilhar em coquetéis mais encorpados e até trocar o gim de um Negroni pelo destilado brasileiro. "A cachaça se comporta muito bem, especialmente as envelhecidas", explica.

Quem quer ficar apenas na caipirinha, também pode experimentar preparar o drinque com uma amarelinha.

A cachaça ouro também vai muito bem na caipirinha tradicional e com outras frutas, pois é mais suave", garante.

MAIS POSSIBILIDADES DO "MÉ"

Zulu ensina a preparar três coquetéis autorais

La Casa de Caña

Com cachaça envelhecida em amendoim e gotas de chocolate, este coquetel é para quem quer ousar.

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Sour da Terrinha

Rapadura, cachaça envelhecida em bálsamo e toques cítricos para mexer com todos os sentidos.

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Banzeiro

Drinque com a "marvada" cheio de sofisticação: cachaça maturada em amburana e espuma de gengibre.

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