Mocotó made in Vila Medeiros

Do entorno de São Paulo para o mundo: a história do chef Rodrigo Oliveira, curador da 1ª temporada de Nossa

Juliana Simon De Nossa Ricardo D'Angelo

Em conversas alimentadas pelos já míticos dadinhos de tapioca, o chef Rodrigo Oliveira nos recebe no Mocotó, na Vila Medeiros, Zona Norte de São Paulo. À mesa, um bate-papo sobre o tema que elegeu para a sua temporada em Nossa: Entornos - retratos do que acontece longe dos grandes centros.

"É preciso colocar foco sobre a diversidade e riqueza do que é feito nas beiradas de metrópoles, transpor essa fronteira". Entre as ideias que vão rechear nossas reportagens, seções e webséries, Rodrigo sempre volta à sua máxima inspiração para o tema: o próprio Mocotó, casa que propôs o inédito contra fluxo do centro de São Paulo para a periferia. Conheça essa história.

Ricardo D'Angelo

Sabor de Brasil

Não faltam referências à persistência do sertanejo e força do Sertão. Da obra de Euclides da Cunha, ao mandacaru - que supera a seca nordestina e insiste em florescer - à batalha do migrante que cruza o Brasil e o mundo em busca de um trabalho e daquele grande sonho.

Filho de pernambucanos e fruto do entornos de São Paulo (salve, Vila Medeiros), Rodrigo Oliveira, o primeiro curador de Nossa, cravou seu nome na história culinária brasileira e demonstrou que, se o sertanejo é antes de tudo um forte, quem descende dele carrega aquele "quê" de rebeldia e resistência por onde for.

Foi por esse espírito de teimar, insistir e apostar que nasceu o Mocotó, restaurante que atrai entendidos, curiosos, de paulistanos da gema a gringos atrás de "comida com sabor de Brasil".

Rodrigo Oliveira apresenta sua curadoria em Nossa

Ricardo D'Angelo Ricardo D'Angelo

Tudo em família

A história do Mocotó começa pouco antes de 1980, ano em que nasceu Rodrigo. Foi no bairro da Zona Norte da capital paulista que, em 1974, o patriarca Zé Almeida estabeleceu sua casa do Norte ao lado dos irmãos Gercino e Gilvan e, cinco anos depois, já em "carreira solo", começou o Bar e Lanches Alcino - dez mesas e um balcão servidos com as criações de uma modesta cozinha.

Com o "caldinho" como carro chefe, nascia na boca dos clientes o "Bar do Mocotó" e, ao longo dos anos, o interesse de Rodrigo pela alquimia dos quatro únicos pratos servidos por lá: feijão de corda, favada, sarapatel, e, claro, do famoso caldo de mocotó.

Após se aventurar pela Engenharia e Gestão Ambiental e com resistência e desconfiança do pai, Rodrigo promoveu mudanças físicas no comércio e anunciou seu novo desejo de carreira e o ingresso no curso de gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi.

Com uma bagagem de imersão na cozinha familiar e viagens de norte a sul do país, se criou o chef Rodrigo que, em 2001, deu o pontapé inicial no "Mocotó da Vila Medeiros" que conhecemos hoje.

Felipe Gombossy Felipe Gombossy
Divulgação

Primeiro e eterno prato: caldo de mocotó

Criado em Portugal e incorporado à cultura das cozinhas carioca e nordestina, o "caldo de mão de vaca" (como os patrícios o batizaram) é símbolo do que se denomina "comida com 'sustança'".

No Rio, o "esquenta" de boteco. No Nordeste, o que dá forças ao sertanejo. Na Vila Medeiros, foi o que deu fama ao bar de Seu Zé e nome ao restaurante que de lá nasceria em 2001.

Após muitas e muitas porções do caldo, sempre servidas no copo americano, a receita ainda segue o roteiro criado por seu Zé ainda nos anos 1970.

Confira a receita completa.

Lailson dos Santos Lailson dos Santos

Do entorno para o mundo

Em minutos de bate-papo com Rodrigo, os limites do que se entende como a São Paulo gastronômica extrapolam: os orgânicos da Cooperapas de Parelheiros ou da Sabor de Fazenda na Vila Maria, o Bar do Jô no Pari, o Bar do Luiz Fernandes no Mandaqui e a sua casa, na amada Vila Medeiros.

Não foi sem surpresa que o Rodrigo de 20 anos atrás começou a receber gente que vinha de longe conhecer inserção da culinária do nordeste na alta gastronomia.

Uma das primeiras visitas ilustres foi a de Mara Salles, do Tordesilhas, sua professora no curso de gastronomia, que levou mais dez pessoas para ver o que seu aluno fazia.

Em junho de 2008, outro encontro de titãs da gastronomia brasileira, quando Rodrigo recebe o prêmio de Chef Revelação da revista Prazeres da Mesa das mãos do colega Alex Atala.

Em quase 20 anos de restaurante, coleciona uma série de prêmios como chef e personalidade que exporta a panela periférica do Brasil para o mundo, além de espalhar a marca com Mocotó Café no Mercado de Pinheiros e no Shopping D e o Balaio IMS, dentro do Instituto Moreira Salles.

De chefs para chef

Iara Venanzi/Divulgação

Mara Salles

"Fiquei curiosa para conhecer o 'modesto restaurante' na distante Vila Medeiros. O lugar de então era acanhado, mas o trabalho era tão instigante que ficamos amigos e nunca mais nos largamos"

Reinaldo Canato/UOL

Alex Atalla

"A experiência ali não se resume em sentar e comer. É uma conexão com um país, uma gente, uma cultura, uma paleta de cores, sabores e valores que você não encontrará em outro lugar"

Divulgação

Laurent Suaudeau

"O que mais me impressiona é que ele decidiu investir no próprio endereço da família, sem se deixar levar pelos convites, às vezes gananciosos, para estar em uma região mais nobre de São Paulo?"

Ricardo D'Angelo Ricardo D'Angelo

Sem reservas, sem parar

Em quase vinte anos de história, o Mocotó funciona todos os dias - segunda à sexta das 12 às 23h, sábados das 11h30 às 23h e domingos e feriados, das 11h30 às 17h.

A casa no número 1100 da Avenida Nossa Sra do Loreto, porém, recebe os primeiros funcionários 8 horas e baixa as portas somente por volta da uma da manhã do dia seguinte.

Em um sábado de grande movimento, 240 dadinhos de tapioca já foram servidos até 13 horas. Em um ano, saem mais de 15 toneladas de carne-seca, cinco toneladas de feijões e favas e 20 toneladas de mandioca.

Neste mesmo período, são servidos 55 mil porções de baião de dois e 60 mil torresmos.

E não, Mocotó não aceita reservas. É sentar, provar as famosas porções, bebericar uma caipirinha e ver o tempo passar frenético dentro da cozinha e devagar na avenida em frente.

Entornos

Retratos do que acontece longe dos grandes centros. Curadoria: Rodrigo Oliveira

Divulgação

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