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Sem Olimpíadas, Japão quer incentivar turismo, apesar de retomada da Covid-19

Pessoas passam pelo relógio que faz contagem regressiva para as Olímíadas de Tóquio - Getty Images
Pessoas passam pelo relógio que faz contagem regressiva para as Olímíadas de Tóquio Imagem: Getty Images

Juliana Sayuri, correspondente da RFI no Japão

24/07/2020 10h08

Desde o fim de junho, o arquipélago registra mais de 100 novos diagnósticos coronavírus. No fim de julho, apesar do recorde de infecções, o governo japonês lançou o programa "Go To Travel" para impulsionar viagens domésticas, criando o temor de uma para nova onda de contaminação nas províncias.

Antes da epidemia, Tóquio esperava receber 40 milhões de turistas a partir desta sexta-feira (24), data de início dos Jogos Olímpicos de Tóquio no calendário original. Entretanto, a realidade da pandemia global de Covid-19 frustrou todas as expectativas: os jogos foram adiados para 2021, as fronteiras foram fechadas para 129 países e a capital japonesa atravessa mais uma onda de infecções do novo coronavírus.

A retomada epidêmica era esperada por especialistas até a descoberta de uma vacina ou de um medicamento eficaz. No entanto, teme-se que as novas ondas sejam maiores e mais abrangentes, alastrando o vírus para áreas onde o surto estava sob controle. O temor cresce agora: no dia 22, o governo japonês lançou um programa para impulsionar o turismo dentro do arquipélago, a campanha "Go To Travel".

Para aquecer o mercado, o governo federal investiu 1,35 trilhão de ienes (o equivalente a R$ 65 milhões) para incentivar o turismo doméstico, subsidiando descontos de cerca de 35% nas despesas dos viajantes em julho e agosto, além de prever vales e cupons para atrações turísticas em setembro - ao todo, os descontos podem chegar a 50%. A iniciativa federal despertou discussões entre governadores, que pediram para adiá-la ou restringi-la a certas regiões, e críticas sobre o timing da campanha - na internet, a ação foi apelidada de "Go To Trouble".

Tóquio fora

Tóquio ficou de fora da campanha devido à alta de novos casos de Covid-19: foram 366 novos casos de Covid-19 no dia 23, um recorde desde o início do surto no Japão. Foram confirmados 981 casos nas províncias japonesas nas últimas 24 horas. Ao todo, o país contabiliza 28 mil casos e 1.005 mortes.

O arquipélago ficou sob estado de emergência nacional entre abril e maio e declarou o surto sob controle em junho. Agora as autoridades voltaram a acender o sinal de alerta. A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, pediu para a população evitar saídas desnecessárias de casa e elevou o alerta da pandemia para o nível 4, o mais alto: dos 6 mil deles ativos, cerca de 2,3 mil estão na capital e região metropolitana. "A campanha já começou [nas outras províncias], mas peço aos residentes de Tóquio que evitem sair o máximo possível", declarou.

Há contradições, portanto, nas diretrizes e discursos: de um lado, a campanha nacional "vá viajar"; de outro, a mensagem internacional "fique em casa". O governador de Aichi, Hideaki Omura, por exemplo, se pronunciou pedindo para a população evitar viagens para Tóquio. Aichi registrou 53 novos casos no dia 21, um número "chocante", segundo sua expressão. "A segunda onda chegou", definiu.

Neste verão, às vésperas dos festivais de agosto, um feriado prolongado em que é esperado um alto fluxo de viajantes das capitais ao interior, também se discute o risco de disseminação do vírus em áreas rurais, que não têm estrutura equivalente às das metrópoles, como Tóquio e Osaka.

Tóquio-2021

O próximo verão já traz outras preocupações. Ainda há dúvidas e incertezas sobre a realização das Olimpíadas, oficialmente remarcada para 23 de julho a 8 de agosto de 2021. A Paraolimpíada, por sua vez, ficou para 24 de agosto a 5 de setembro de 2021.

"Imagine o mundo daqui um ano", propôs a nadadora japonesa Rikako Ikee, em uma cerimônia simbólica, breve e discreta, no Estádio Olímpico, em uma mensagem para marcar a contagem regressiva de um ano para o início dos Jogos.

A expectativa é realizar "um festival de esperança, resiliência e solidariedade", definiu o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach. A expectativa entre japoneses é diferente. Segundo uma enquete do diário japonês Asahi Shimbun de fins de junho, 59% dos entrevistados disseram desejar que os jogos fossem adiados de novo ou de fato cancelados.

Outra pesquisa, publicada neste mês pela agência japonesa Kyodo, apenas 23,9% dos entrevistados endossam a realização dos Jogos; 36,4% defendem outro adiamento e 33,7% declararam que seria melhor cancelá-los de vez, pois a pandemia não seria controlada a tempo.

A realidade ainda é incerta: os organizadores olímpicos sinalizaram que um novo adiamento não é uma opção no momento, isto é, se a Olimpíada não acontecer em julho de 2021, talvez não aconteça mais.

"É difícil esperar que a pandemia seja contida. Se conseguirmos realizar os Jogos apesar da Covid-19, Tóquio será um modelo para as próximas edições. Espero fortemente que isso deixe uma marca. Isso se tornará um legado para a história da humanidade", disse o diretor-executivo do comitê de Tóquio, Toshiro Muto