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Pai do espiritismo, Kardec deixou discreta herança na cidade natal Lyon

Memorial de Allan Kardec em Lyon Imagem: Creative Commons

Beatriz Prieto

Colaboração para Nossa, de Lyon (França)

17/06/2024 04h00

"Se Paris é a cabeça do espiritismo, Lyon será o coração", bradou Allan Kardec, ainda no século 19, época em que havia grande interesse pela hipnose e pelas ciências ocultas na Europa.

Ele, que deu o nome de "espiritismo" à doutrina e escreveu o famoso "Livro dos Espíritos" em 1857, nasceu em Lyon, a renomada capital gastronômica da França e antiga capital galo-romana.

Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido como Allan Kardec (nome de uma de suas encarnações anteriores), codificou o espiritismo e o transformou em uma filosofia que aborda as relações entre o homem, a ciência e a religião.

O teólogo do espiritismo mal poderia imaginar que seu legado alcançaria uma popularidade fora da curva no Brasil, onde hoje conta com 2,2% da população declarando-se adepta — a maior taxa de praticantes no mundo — além de aproximadamente 30 milhões de simpatizantes.

Essa vasta aceitação, porém, contrasta com a discrição do espiritismo na Europa, onde a doutrina viu um declínio após a morte de Kardec, em 1869, e a de vários outros porta-vozes do movimento nas décadas seguintes.

Em frente à casa onde nasceu, um memorial

Memorial de Allan Kardec em Lyon Imagem: Wikimedia Commons

Lyon, cidade conhecida pela efervescência de seus bouchons (restaurantes típicos), presta uma única homenagem à Kardec: um memorial instalado em 2004, marcando os 200 anos de seu nascimento.

Ele está localizado em frente à Rue Sala, número 76, onde nasceu. Acompanha uma placa que diz: "Aqui nasceu Denizard Hippolyte Léon Rivail, conhecido como Allan Kardec, em 3 de outubro de 1804, codificador do Espiritismo e fundador da Revue Spirite em 1858."

Outro resquício de sua presença em Lyon é uma placa na Praça de Croix Rousse, número 8, que revela que o local fora, a partir de 1903 até 1914, um dos primeiros estabelecimentos públicos na França a funcionar sob o patrocínio do espiritismo.

Trata-se de uma creche criada para cuidar dos filhos dos trabalhadores. "Ela será subsidiada pelo governo todos os anos até 1925, e a cidade de Lyon fornecerá gratuitamente o leite até 1914", conta o site do Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec. O local permite visitas.

Kardec, uma star no cemitério do Père-Lachaise

Túmulo de Allan Kardec, no Cemitério Pere Lachaise, em Paris Imagem: Andy Soloman/UCG/Universal Images Group via Getty Images

Sua sepultura, contudo, uma das mais floridas e visitadas por gente do mundo todo, se encontra em Paris, cidade onde passou a maior parte de sua vida, no icônico cemitério do Père Lachaise.

Aliás, a lenda conta que pouco antes de sua morte, o teórico teria anunciado:

Após minha morte, se vierem me visitar, coloquem a mão na nuca da estátua que ficará sobre meu túmulo e façam um desejo. Se forem atendidos, retornem com flores.

Eis a razão para a tumba de Kardec estar sempre movimentada.

Foi na capital parisiense que Kardec começou a ampliar sua presença, criando e participando de círculos espíritas e divulgando a filosofia do espiritismo.

De acordo com Allan Kardec: "O homem não é composto apenas de matéria, há nele um princípio pensante conectado ao corpo físico, que ele abandona, como se deixa uma roupa usada, quando sua encarnação atual se completa. Uma vez desencarnados, os mortos podem comunicar-se com os vivos, seja diretamente, seja por meio de médiuns, de maneira visível ou invisível."

A herança espírita em Lyon

Mesmo com uma homenagem discreta em local público, Lyon continua a alimentar a doutrina e possui, ainda hoje, alguns centros espíritas, entre eles o Centre Spirite lyonnais Allan Kardec, fundado em 1989, e o Cercle Spirite Allan Kardec, que existe desde 1977.

Estas duas associações de benévolos mantêm uma atividade intensa em torno do ensino da filosofia espírita, bem como de sua prática: reuniões e cursos de mediunidade com duração de até dois anos fazem parte da programação.

Um destes centros organiza, inclusive, reuniões públicas mediúnicas de ajuda espiritual. Durante essas reuniões, conselhos podem ser solicitados antecipadamente, com a esperança de receber orientações dos espíritos através da voz dos médiuns presentes.

"Após a sessão, as mensagens 'psicografadas' pelos médiuns voluntários da associação são deixadas sobre a mesa, onde você pode pegá-las", informa a associação. O áudio da sessão também é disponibilizado online.

City tours fazem ode ao passado místico

Outros eventos, estes mais de cunho esotérico, podem ser encontrados fazendo uma rápida busca na internet ao digitar "Lyon ésotérique tour". O resultado da busca mostra vários tours e visitas guiadas para lugares onde os grupos esotéricos e ocultistas tinham o hábito de se encontrar e realizar seus rituais.

Tour sobre ocultismo em Lyon Imagem: Epok' Tour

Mesmo que o número de centros presentes atualmente mal se compare aos quase 600 que existiam em Lyon durante a época de ouro do espiritismo (entre 1860-1920) ainda há espaço para os mistérios entre o céu e a terra. A cidade nutre discretamente os causos e histórias de alquimia, franco-maçonaria, espiritismo e tantas outras crenças que povoaram, e ainda povoam Lyon.

Quanto ao seu legado, Allan Kardec tem até um podcast, o Rádio Kardec, mantido pelo Movimento Espírita Francófono, que lança novos episódios a cada 15 dias.

Lyon, uma cidade mística por essência

Escritos de Nostradamus expostos na biblioteca municipal da Lyon Imagem: Stephane Ruet/Sygma via Getty Images

Lyon é frequentemente retratada de várias maneiras no contexto do espiritismo: ora como "o coração", ora como a "capital", "berço" ou "fortaleza" dessa doutrina. Além disso, a cidade é tida como uma das três que compõem o "triângulo esotérico (ou mágico) da Europa", ao lado de Praga e Milão.

Aliás, no século 16, as técnicas de impressão de Lyon atraíram grandes eruditos para a cidade. Foi nesse contexto que personalidades como Rabelais e Nostradamus começaram a frequentar Lyon, onde se encontravam secretamente para discutir temas como alquimia, cabala e astrologia.

Victor Hugo, adepto do espiritismo

Victor Hugo Imagem: Getty Images

Se Allan Kardec se tornou no século 19 o "pai do espiritismo", Victor Hugo foi um dos seus mais famosos praticantes. Hugo foi um dos primeiros adeptos, mantendo seu interesse mesmo após a moda ter passado.

O escritor foi introduzido ao espiritismo por sua amiga, Delphine de Girardin, uma das pioneiras da imprensa moderna. Ela o visitou em setembro de 1853, durante o período em que estava exilado na Ilha de Jersey, pertencente à Inglaterra.

O poeta buscava, acima de tudo, um meio de aliviar uma dor nunca extinta: entrar em comunicação com sua filha Léopoldine, morta durante um passeio de canoa no rio Sena.

O meio de comunicação escolhido para falar com o espírito de sua filha? As chamadas tables tournantes, ou "table moving", em inglês, prática que nasceu no estado de Nova York antes de atravessar o atlântico e fazer sucesso na França.

As sessões que Hugo participou estão reunidas no Livre des Tables (Livro das Mesas), contando suas conversas com o além na ilha de Jersey.

As mesas girantes

Salão parisiense com pessoas usando as tables tournantes. Journal l'Illustration em 1853 Imagem: Domínio público - Daniel Lange

Foram também as chamadas "mesas girantes"* que revelaram a antiga identidade druídica de Hippolyte Rivail, o que o fez adotar o nome de Allan Kardec.

Para contextualizar, quando Hippolyte Rivail começou a estudar o fenômeno das "mesas girantes" em 1854, ele já tinha 50 anos e era um professor e autor de livros escolares.

Interessado desde jovem por fenômenos inexplicáveis, como o "sonambulismo magnético", foi encorajado por amigos, incluindo um editor, a organizar essas informações em um livro acessível ao público geral, que viria a ser o "Livro dos Espíritos".

Com o incentivo de seu editor e amigos, Kardec começou a frequentar sessões de mesas girantes para reunir material para o seu livro. À medida que se envolvia, sua convicção na realidade dos fenômenos crescia.

Durante uma dessas sessões, um espírito revelou: "Nós vivíamos juntos há muito tempo nas Gálias. Éramos amigos, você era um druida e era chamado Allan Kardec." Pronto: Hippolyte Rivail passa a se chamar Allan Kardec.

Exposições revisitam o espiritismo sob a ótica da "magia"

Ainda hoje, algumas exposições revisitam o passado espírita da cidade, como a mostra "Lyon, c?ur du spiritisme" (Lyon, coração do espiritismo), que ficou em cartaz na Bibliothèque de la Part-Dieu, em 2004, e outra mais recente, "Magique" (Mágico), no Musée des Confluences, que ficou em cartaz até março de 2023.

Abordando o legado de Allan Kardec, esta última exposição apresenta seu busto, além de uma tábua Ouija, e lembra que ele é o fundador da Revue Spirite, revista fundada em 1858 e ainda publicada em várias línguas até hoje, com periodicidade trimestral e em formato online.

Busto de Allan Kardec ao lado de uma tábua de Ouija Imagem: J.L / 20 MINUTES

Embora reduzir Allan Kardec à categoria de "mágico" mostre o espaço limitado que ele ocupa na França, sua ampla aceitação no Brasil destaca como a diversidade cultural e o sincretismo religioso no país deram novos contornos ao espiritismo.

Seus escritos compõem a espinha dorsal da espiritualidade brasileira, que o celebra como um dos franceses (e lioneses) mais reverenciados nos trópicos.

*Mesas girantes: conhecidas também como mesas falantes ou dança das mesas, são um tipo de sessão espírita onde os participantes se sentam ao redor de uma mesa, colocam as mãos sobre ela e aguardam que se movimente. Este fenômeno, originado nos Estados Unidos, foi o ponto de partida para a doutrina espírita e pode ser considerado como uma das primeiras formas de americanismo na cultura europeia.

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