Lua de mel em Aruba vale a pena? Nosso repórter partiu do casório para lá

Nesses quase 15 anos como repórter especializado em turismo nunca imaginei que escreveria sobre minha própria lua de mel. Pois bem, caros leitores, eis que os seus olhos estão diante deste improvável texto. Se minha amada Helena permitir, a singela intenção dessas próximas linhas é levar você a passear juntos conosco por alguns dias especiais em Aruba. Mas fique tranquilo: só da porta do quarto pra fora.

Mas por que Aruba? Alguns amigos acharam estranho e outros um tanto inusitada a escolha, visto meu histórico de afeição por regiões mais, digamos, improváveis.

O repórter Felipe Mortara e a esposa no Arikok National Park, em Aruba
O repórter Felipe Mortara e a esposa no Arikok National Park, em Aruba Imagem: Arquivo pessoal

Meio por acaso descobrimos que Aruba seria uma concorrente estruturada e detentora de um pré-requisito essencial para essa nossa viagem: previsibilidade. E essa era uma variável que queríamos priorizar ao máximo, afinal, já havíamos organizado duas celebrações de casamento e planejar a viagem deveria nos dar o menor trabalho possível.

'Bonbini' a Aruba!

Quer Caribe de cartão-postal? Aqui tem. Na foto, a praia Arashi Beach
Quer Caribe de cartão-postal? Aqui tem. Na foto, a praia Arashi Beach Imagem: Divulgação

De fato, Aruba entregou essa confiança logo de cara. Há muita informação na internet sobre cada atrativo da ilha, que junto com as vizinhas Bonaire e Curaçau, faz parte da Antilhas Holandesas. Apesar da influência americana em seu estilo de turismo, a colonização trouxe para Aruba uma mistura interessante e singular.

São quatro os idiomas oficiais — inglês, holandês, espanhol e papiamento, um dialeto com sonoridade divertida falado nas três ilhas e pitoresco para ouvidos brasileiros.

Não se demora a compreender algumas expressões como bonbini (bem-vindo), bón día e danki (obrigado)

Mangel Halto Beach: cenário para relaxar a dois
Mangel Halto Beach: cenário para relaxar a dois Imagem: David Troeger/Divulgação
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A gentileza e a hospitalidade dos arubenses me soaram sempre genuínas. Desde o nome da locadora de carros — Amigo — até o garçom na praia. Uma dica: é normalizado levar seu próprio cooler para a praia com cerveja do supermercado. Muitos hotéis dispõem de máquinas de gelo.

Entrada do Boardwalk Boutique Hotel, nossa 'casita' de lua de mel em Aruba
Entrada do Boardwalk Boutique Hotel, nossa 'casita' de lua de mel em Aruba Imagem: Divulgação

Por sinal, o Boardwalk Boutique Hotelfoi uma ótima surpresa. Hospedados numa delicada "casita" — com geladeira, fogão e utensílios de cozinha — em meio a um jardim tropical. Fomos agraciados com uma cama king size de padrões latifundiários, lençóis macios e um edredom à altura do potente ar-condicionado.

Melhor época (e muito sol!)

Aruba e suas ilhas vizinhas têm a sorte de estarem fora do chamado "corredor dos furacões do Caribe". Contudo, entre outubro e janeiro pode chover e ventar um pouco mais.

Mas como a ilha é bem árida, é difícil chover um dia todo. Para garantir dias ensolaradíssimos, agende sua viagem entre fevereiro e setembro. Digamos que esse foi quase o nosso caso.

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Terra de constrastes: fora da rota dos furacões, Aruba mescla paisagens áridas a um mar de azul intenso
Terra de constrastes: fora da rota dos furacões, Aruba mescla paisagens áridas a um mar de azul intenso Imagem: Divulgação

Como não deu muito para escolher a data perfeita, estivemos por lá logo após nosso casório, na última semana de janeiro, e pegamos todo tipo de tempo. Em comum, um vento forte, refrescante e constante. Mas sempre que o céu fechava e se anunciava uma tormenta, caíam alguns pingos mais grossos por poucos minutos e logo o sol já estava a pino de novo. Nota mental: jamais descuidar do protetor solar.

Os contrastes de Aruba chamaram a atenção. Mesmo intenso, o vento não abalava a cor azul do mar calminho do lado oeste da ilha, enquanto o leste recebe brutais ondulações em seus costões que chegam a lembrar as ondas do Havaí.

De um lado a área urbana hoteleira e do outro um ambiente selvagem delimitado pelo Parque Nacional Arikok, que ocupa quase 20% da superfície da ilha.

O Havaí é aqui? As ondas quebrando nos costões lembram o cenário do território norte-americano
O Havaí é aqui? As ondas quebrando nos costões lembram o cenário do território norte-americano Imagem: Felipe Mortara/UOL

Vale sacolejar nos 4x4

É necessário passear em jardineiras pelo parque para entender o paradoxo de Aruba. A entrada no Arikok só é permitida em veículos 4x4 operados por grandes agências locais como a De Palm e a Pelican Adventures.

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Também existem agências menores e os mais radicais podem pilotar um UTV, espécie de mini-buggy potente, barulhento e banhado por poeira.

Na jardineira pelo parque Arirok
Na jardineira pelo parque Arirok Imagem: Felipe Mortara/UOL
Piscina natural de Conchi
Piscina natural de Conchi Imagem: Divulgação

No roteiro estarão a piscina natural de Conchi — que não deu para visitar por conta do mar revolto naquele dia —, além da Natural Bridge, escavada pelo mar e que colapsou em 2005, e sua versão menor e mais irreverente, a Son of a Bridge.

O cenário ventoso e árido é pontuado por cactos de vários tamanhos e estradas cheias de pedras, emoldurado pelo mar feroz que — por algumas horas — nos fez ter a certeza de que já não estávamos mais no Caribe e sim em costões do Oceano Pacífico.

As ondas quebram nos rochedos no Parque Nacional Arikok
As ondas quebram nos rochedos no Parque Nacional Arikok Imagem: Felipe Mortara/UOL
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O extremo noroeste da ilha abriga o California Lighthouse, de 1916, um dos cartões-postais de Aruba e a vista lá do alto compensa os US$ 4. Caso estiver chovendo quando chegar, procure abrigo por cinco minutos, espere passar e suba para contemplar o visual. Não é preciso 4x4 para chegar lá, nosso pequeno Kia Picanto deu conta do recado.

Você pode subir no California Lighthousee ter uma vista panorâmica lá de cima
Você pode subir no California Lighthousee ter uma vista panorâmica lá de cima Imagem: Davide Camesasca/Divulgação

Uma rota de noroeste a sudeste

Deserto e cactos à parte, é primordial contar um pouco mais sobre as praias de Aruba. Sugerimos uma rota começando no farol por toda a costa oeste até Baby Beach, no extremo sul.

Arashi Beach já é visível da colina do California Lighthouse. Tem cabanas de palha com espreguiçadeiras que custam entre US$ 50 e 70 por dia por casal. Não é barato, mas às vezes é uma opção que compensa, quando o sol pega forte e falta sombra natural. Ali pertinho, Malmok tem alguma graça, apesar de bem estreitinha.

Pôr do sol em Palm Beach, a praia de cara com os resorts
Pôr do sol em Palm Beach, a praia de cara com os resorts Imagem: Felipe Mortara/UOL
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Palm Beach é o epicentro dos "resortões", com até 11 andares de altura, e boa infraestrutura de praia, muitas abertas a não-hóspedes. Tem um baita pôr do sol e muitas atividades aquáticas. De stand-up paddle e caiaque a banana boat de vários formatos até voos de para-sail.

Os passeios de catamarã pela costa são dedicados mais ao público norte-americano — inclusive as piadas e instruções dos guias — mas vale a pena se o mar estiver bem clarinho e sem vento. Fizemos de duas horas e meia (US$ 80 por pessoa), com duas paradas para snorkel, uma delas nos destroços de um navio naufragado. Há desde passeios mais longos, até cruzeiros ao pôr do sol ou com aulas de salsa.

Passeios de catamarã podem incluir paradas para mergulho de snorkel
Passeios de catamarã podem incluir paradas para mergulho de snorkel Imagem: Divulgação

Símbolos urbanos e naturais

Rumo à capital, Oranjestaad, surgem as icônicas fofoti trees de Eagle Beach — árvores-símbolo de Aruba, que lembram bonsais com mais de três metros de altura.

As fofoti trees, árvores-símbolo de Aruba, na Eagle Beach
As fofoti trees, árvores-símbolo de Aruba, na Eagle Beach Imagem: Divulgação
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A praia é lindíssima e as duas — sim, apenas duas delas — dão um charme meio engraçado à mesma faixa de areia que depois vira Manchebo Beach. A barraca Coco Loco aluga espreguiçadeiras na sombra e o mar ali é uma delícia para banho — meu favorito na ilha.

Logo vem o porto, onde atracam gigantescos navios de cruzeiro, e o centrinho de Oranjestaad — que vale a pena visitar sim, mas que não demanda mais do que duas ou três horas.

Por acaso encontramos o restaurante Olivia, que ocupava a injusta posição de 63º no ranking do Trip Advisor. Preparados com primor, os pratos de culinária mediterrânea foram simplesmente a melhor refeição da viagem. Nunca esqueceremos os escargots e o peixe no caldo de lagosta.

Reserve duas a três horas para circular pelo centrinho de Oranjestaad, a capital
Reserve duas a três horas para circular pelo centrinho de Oranjestaad, a capital Imagem: Felipe Mortara/UOL

Construído em 1796 para proteção da costa, o Forte Zoutman é o edifício mais antigo e abriga o Museu Histórico, com um singelo acervo de objetos que recontam a trajetória da ilha e que ajudam os visitantes a atribuir mais valor para aquela vivência. Para deixar claro: Aruba é bem mais do que praias lindas e cactos fotogênicos.

A Aruba que guardaremos na memória

A praia de Mangel Halto, uma das regiões preferidas da nossa viagem
A praia de Mangel Halto, uma das regiões preferidas da nossa viagem Imagem: David Troeger/Divulgação
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Desvie para conhecer Mangel Halto, praia com mar deslumbrante e ótimo para snorkel. Dali pare no Charlie's Bar, de 82 anos, excêntrico e essencial. Além do chope e das porções excelentes, viajantes sensíveis captarão a alma do lugar.

Imprescindível, Baby Beach atrai por seu fotogênico formato de ferradura, águas calminhas boas para crianças e casais em lua de mel.

Baby Beach: águas tranquilas para curtir com crianças ou, como no nosso caso, em casal
Baby Beach: águas tranquilas para curtir com crianças ou, como no nosso caso, em casal Imagem: Divulgação

O Zeroover é uma peixaria repleta de nativos, onde se escolhe postas de peixe e camarões frescos e recebe em alguns minutos tudo bem frito numa bacia de plástico forrada com papel. Eu te juro: é esplêndido.

No jardim de uma casa em estilo tradicional holandês de 1886, o Papiamento serve receitas como o tartare de atum fresco ou o sortido de peixes, camarões e lagostas que cozinham numa pedra quente. A carta de vinhos impressiona — e a conta também.

Píer do restaurante Zeroover: pescados fresquinhos ao pôr do sol
Píer do restaurante Zeroover: pescados fresquinhos ao pôr do sol Imagem: Felipe Mortara/UOL
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A mistura de Aruba nos fez bem nesse início de casamento.

Ensinamentos de que há os momentos de sol, de vento de chuva e calor. De que a fome pode ser aplacada com frituras reconfortantes, o tédio curado com paisagens inspiradoras e que é preciso renovar nosso olhar a cada momento. Como numa constante jornada, buscando serenamente a sensação de estar sempre em lua de mel.

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