Organizar a cozinha vira febre nas redes, mas será que dicas ajudam mesmo?

Quem está sempre acompanhando o que acontece nas redes sociais certamente já se deparou com os vídeos de organização em plataformas como Tiktok e nos Reels do Instagram. São milhares de horas contabilizadas de conteúdos focados em mostrar as rotinas de organização de espaço, em especial de cozinhas e geladeiras.

Tudo muito simétrico e padronizado, é comum ver a prática de retirar itens de suas caixas originais para embalagens de plástico, vidro ou acrílico, alinhadas impecavelmente nas portas e prateleiras das geladeiras e armários.

Apesar de gostoso de assistir, o conteúdo gera algumas dúvidas sobre como essas práticas afetam ou não a conservação dos alimentos.

Nossa conversou com especialistas para descobrir como manter sua geladeira e despensa organizados sem desperdício ou colocar em risco sua saúde.

Tirar ou não tirar da embalagem

Antes de começar a organização é preciso primeiro considerar o que será consumido imediatamente o que será guardado como estoque. Para estocagem, em geral, é melhor manter os alimentos em suas embalagens originais.

Isso porque elas tem uma função importante na conservação dos alimentos e são elaboradas para melhor mantê-los de acordo com suas especificidades. Luana Gimenez Lopes Budeanu, diretora técnica do grupo de alimentos do centro de vigilância sanitária do estado de São Paulo dá o exemplo do leite de caixinha, o tipo UHT, que tem sua validade definida de acordo com estudos de estabilidade do produto feitos com ele dentro da embalagem.

O rótulo original também trará informações importantes como a condição de conservação ideal (refrigerar ou guardar em local fresco e seco) e a validade do produto fechado e após aberto.

Continua após a publicidade

A validade informada numericamente (no formato DD/MM/AA) se refere, normalmente, ao tempo útil do produto fechado. A validade do item após aberto vem descrita próxima às informações nutricionais e ingredientes.

A embalagem irá ter também o número do lote e, sem essa informação, o produto perde sua rastreabilidade que é muito importante em casos de recall ou troca.

Quando o intuito é estocar, é ideal que não se tire da embalagem seguintes alimentos:

  • Azeite de oliva
  • Bebidas gaseificadas
  • Sucos
  • Biscoitos e bolachas
  • Cereais
  • Farinhas (de trigo, milho, mandioca etc.)
  • Grãos secos
  • Laticínios

Antes de guardar, é importante inspecionar as embalagens para que não haja rasgos, pontos de umidade ou algum indício de pragas como teias, ovos ou insetos.

Mesmo após abertos, alguns tipos de alimentos também precisam ficar guardados nos pacotes originais. Quem dá o alerta é a mestranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos da USP Sarah Mafei de Jesus, que orienta manter produtos de origem animal, como leite e derivados, nas próprias embalagens após o primeiro consumo.

Continua após a publicidade

Além desses tipos de produtos, Mafei destaca os suplementos alimentares como colágeno, vitaminas ou creatina, que devem ser mantidos sempre nos potes originais.

Cada qual no seu cada qual

Agora, para aqueles itens de uso diário, que serão consumidos em médio/curto prazo, a utilização de potes padronizados é uma forma bonita e segura para se manter os alimentos, contanto que se tenha em mente as seguintes dicas:

  • Prefira potes de procedência confiável, atóxicos e, se possível, invista em materiais como o vidro, que não pegam cheiro nem mancham.
  • Antes abastecer os potes, certifique-se de que estão limpos e secos.
  • A tampa deve ter boa vedação, dê preferência por tampas de fecho hermético.
  • Deixe para reabastecer apenas quando todo o conteúdo for consumido para evitar que o lote mais velho se misture com o mais novo.
  • Estabeleça uma rotina freqüente de limpeza dos recipientes, armários, e geladeira.

De olho na validade

Uma prática que é raramente vista nos vídeos, mas é de extrema importância quando se tira os alimentos de suas embalagens, é a inclusão de uma etiqueta com data de validade.

Continua após a publicidade

As etiquetas podem ser feitas com fita crepe e caneta permanente, que é fácil de trocar e tem baixo custo. A data da etiqueta deve corresponder a informação de validade descrita no pacote.

Para não estragar a estética, é possível colar a etiqueta na parte de trás ou inferior do pote.

Imagem
Imagem: Getty Images

Embalagens de transporte

Feitas de isopor, papelão ou papel, as embalagens de transporte não devem ser utilizadas para manter alimentos dentro da geladeira. O material não permite a refrigeração correta e irá diminuir muito a longevidade de itens como frios, ovos, carnes e sobras de delivery.

Nesses casos, antes de guardar transfira o conteúdo desse tipo de embalagem para um pote de plástico ou vidro.

Continua após a publicidade

O primeiro que entra é o primeiro que sai

Dentro das cozinhas profissionais existe as siglas PVPS (primeiro que vence é o primeiro que sai) e PEPS (primeiro que entra é primeiro que sai) que ditam como as despensas e geladeiras devem ser organizadas.

O que for comprado recentemente, é colocado sempre atrás ou embaixo do mais antigo, garantindo que o alimento com menos tempo de validade seja consumido antes.

Essa estratégia deixa visível o que precisa ser consumido primeiro, e incentiva a organização dos alimentos por tipo, tudo que for do mesmo grupo fica junto, impedindo que itens sejam esquecidos.

E as frutas e legumes frescos?

Continua após a publicidade

Uma das práticas vistas nos vídeos são as montagens de higienização de frutas e legumes frescos. Esse tipo de pré preparo facilita muito o dia-a-dia da cozinha, e também ajuda a manter a geladeira super organizada.

Quem dá a dica é a Márcia Cristina Basílio, professora no curso técnico em nutrição e dietética do Senac Aclimação em São Paulo:

  1. Dilua uma colher de sopa de água sanitária em 1 litro de água e deixe as frutas, verduras ou legumes imersos entre 15 e 20 minutos.
  2. Após enxaguar, é importante secar muito bem os alimentos antes de guardar. Pode-se utilizar panos de prato limpos ou centrífuga de salada para garantir que tudo fique sequinho.
  3. Antes de guardar nos recipientes previamente higienizados, forre o fundo com papel de cozinha para que ele absorva qualquer umidade que ainda persista.
  4. O tamanho do recipiente deve ser proporcional ao alimento que será guardado, evite amontoar itens.

Ela indica a higienização em frutas, verduras e legumes que serão consumidos crus e/ou com casca, como morango, uva, alface, salsinha, tomate e abobrinha, por exemplo.

O que será cozido ou possui uma casca não comestível, pode apenas ser lavado com água antes do consumo.

Basílio ainda lembra que lavar alimentos com detergente e bucha introduz o risco de contaminação de resíduos químicos e não é indicado em nenhuma circunstancia.

Continua após a publicidade

É possível retirar gratuitamente em postos de saúde produtos saneantes para a higiene de frutas e verduras, basta seguir as instruções indicadas na embalagem.

Beleza e Função

Manter a geladeira organizada como nos vídeos não tem só a função de ser esteticamente bonito, mas também garante a boa circulação de ar frio e o melhor funcionamento do aparelho.

Os lugares onde cada tipo de alimento é guardado deve ser escolhido com base na temperatura. A maioria dos refrigeradores domésticos possuem o freezer na parte de cima, portanto a parte superior da geladeira será mais fria que a de baixo, o que é bom pois alguns alimentos são mais sensíveis ao frio que outros.

Pensando nisso, a distribuição ideal dos itens deve ser:

Continua após a publicidade

Porta da Geladeira - A área sofre com a maior alteração de temperatura, portanto deve-se guardar apenas alimentos que não exigem refrigeração e bebidas.
Prateleira superior - Laticínios, sobras de alimentos cozidos e doces.
Prateleiras do meio - Carnes cruas, ovos, alimentos crus pré-cortados.
Gavetões/prateleira inferior - Verduras cruas, frutas e legumes frescos.

Depois de tudo isso a sua despensa, armários e geladeira não só ficarão belíssimos e prontos para o TikTok, mas também estarão super funcionais, ajudando a reduzir o desperdício de comida e dinheiro.

Fontes: Márcia Cristina Basílio - Docente no curso técnico em nutrição e dietética do Senac Aclimação São Paulo; Luana Gimenez Lopes Budeanu - Diretora técnica do grupo de alimentos do centro de vigilância sanitária do estado de São Paulo; Sarah Mafeis de Jesus, Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de São Carlos e mestranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela USP ESALQ.

Deixe seu comentário

Só para assinantes