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Conheça ilha do Chile onde viveu o 'verdadeiro Robinson Crusoé' e sua saga

Uma das ilhas Juan Fernandez, que inspirou a história de Robson Crusoé - Getty Images/iStockphoto
Uma das ilhas Juan Fernandez, que inspirou a história de Robson Crusoé
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

26/06/2022 04h00

Em tempos de piratas e corsários, uma briga com o capitão do navio Cinque Ports resultou no desembarque de um de seus tripulantes, deixado sozinho por anos em uma ilha remota no Pacífico.

Nascia então um dos clássicos da literatura de aventura: "Robinson Crusoé", livro do inglês Daniel Dafoe, publicado em 1719.

A história fictícia do náufrago que viveu por 28 anos isolado em Trindade e Tobago, no Caribe, próximo da Venezuela, seria baseada porém na experiência real de Alexander Selkirk, escocês voluntariamente largado em Juan Fernández, conjunto de ilhas a 670 quilômetros da costa do Chile.

Aos 28 anos, Selkirk viveu isolado em "Más a Tierra", uma das ilhas do arquipélago chileno, entre setembro de 1704 e fevereiro de 1709.

E, desde então, esse pedaço de terra de origem vulcânica é endereço de tesouros escondidos em uma das mais importantes áreas de preservação do planeta.

O verdadeiro Robinson Crusoé

De acordo com o The National Archives, o arquivo oficial do Reino Unido, o pedido de Selkirk para desembarcar no Chile foi motivado pelo descontentamento do escocês com as péssimas condições do navio em que viajava, o que teria causado desentendimentos com o capitão Thomas Stradling.

Robinson Crusoé, o personagem - Getty Images - Getty Images
Robinson Crusoé, o personagem
Imagem: Getty Images

A rotina solitária do marinheiro se resumia a trabalhos manuais, como a construção de cabanas de refúgio, e procura por alimentos no interior da ilha, como a caça de cabras selvagens introduzidas por outros marinheiros.

O visitante forçado só sairia dali em fevereiro de 1709 com a ajuda de um barco inglês comandado por Woodes Rogers, que mais tarde seria o primeiro governador de Bahamas e considerado um temido caçador de piratas.

Na ilha encontramos um certo Alexander Selkirk, um escocês que sobreviveu quatro anos e quatro meses sem conversar com nenhuma criatura, não tendo companhia senão cabras selvagens", relatou Rogers na época.

Atualmente, um dos atrativos históricos de Juan Fernández é a Cueva de Selkirk, caverna que serviu de refúgio para o escocês durante seu isolamento. Escavações arqueológicas encontraram no local fragmentos cerâmicos datados da primeira ocupação da ilha, no século 18, e vasos de mesa, provavelmente, do século 19.

Estátua de Alexander Selkirk, em Lower Largo, na Escócia - Paul Tomkins / Visit Scotland - Paul Tomkins / Visit Scotland
Estátua de Alexander Selkirk, em Lower Largo, na Escócia
Imagem: Paul Tomkins / Visit Scotland

Nascido na vila de Lower Largo, na região de Fife, Alexander Selkirk é homenageado em sua terra natal com uma estátua de bronze na fachada da antiga casa do marinheiro, na Escócia.

Aliás, é possível até se hospedar no "101 Robinson Crusoe's Retreat", propriedade no mesmo edifício onde Selkirk nasceu, em 1676.

Ilha de vida e de... tragédias

O arquipélago Juan Fernández é formado pelas ilhas "Robinson Crusoe" (antiga "Más a Tierra"), "Alejandro Selkirk" ("Más Afuera", onde o escocês aliás nunca pisou), "Santa Clara" e outras ilhotas.

Declarado parque nacional, em 1935, e Reserva da Biosfera pela UNESCO, em 1977, o arquipélago tem um dos maiores índices de endemismo do mundo, como o curioso lobo-fino.

Mergulho com o lobo-fino-de-Juan-Fernandez  - Creative Commons - Creative Commons
Mergulho com o lobo-fino-de-Juan-Fernandez
Imagem: Creative Commons

As lagostas de Juan Fernandez, base da economia ilhéu, só podem ser capturadas, artesanalmente, com as tradicionais armadilhas de madeira em forma de caixotes. Permitida apenas em alguns meses do ano e desde que o animal tenha no mínimo 11,5 centímetros, a pesca de lagosta tem a China como principal mercado.

Outra espécie só encontrada nesse laboratório da natureza é o beija-flor-de-Juan-Fernnández, uma pequena ave declarada monumento natural do Chile, desde 2006.

Porém, tudo parecia seguir o curso natural da vida em Juan Fernández até que veio um tsunami para mudar a rotina do arquipélago.

Terremoto seguido por tsunami deixou centenas de mortos no Chile em fevereiro de 2010 - Joe Raedle/Getty Images - Joe Raedle/Getty Images
Terremoto seguido por tsunami deixou centenas de mortos no Chile em fevereiro de 2010
Imagem: Joe Raedle/Getty Images

Na madrugada do dia 27 de fevereiro de 2010, um terremoto de 8,8 graus na escala de Richter atingiu o Chile, dando origem a um tsunami com ondas de cerca de 15 metros de altura.

Minutos depois, a ilha principal era tragada pela inesperada fúria do mar, matando 12 pessoas e deixando a população de Robinson Crusoe desabrigada. Segundo a TVN (Televisión Nacional de Chile), aqueles seriam os primeiros chilenos a serem atingidos pela onda gigante.

Mas isso não foi tudo.

Mais de um ano depois, em setembro de 2011, um avião militar caiu violentamente no mar, matando todos a bordo, inclusive o jornalista Roberto Bruce e o popular apresentador Felipe Camiroaga, ambos da TVN.

Busca por destroços de avião militar acidentado nas ilhas Juan Fernandez - REUTERS/Luis Hidalgo - REUTERS/Luis Hidalgo
Busca por destroços de avião militar acidentado nas ilhas Juan Fernandez
Imagem: REUTERS/Luis Hidalgo

Após duas tentativas de pouso e sem combustível para retornar ao continente, os pilotos tentaram ainda um terceiro pouso, mas a neblina e a força dos ventos cruzados em um corredor natural entre as ilhas Robinson Crusoe e Santa Clara seriam fatais.

A tragédia é considerada o pior acidente da história da aviação chilena desde 1982, quando um Fairchild F-27 da empresa Aeronor Chile caiu próximo de pousar em La Serena e tirou a vida de 46 pessoas.

O que fazer em Juan Fernández

Tudo o que tem para ser visto em Juan Fernández está debaixo d'água ou sobre montanhas.

A cerca de duas horas e meia de avião de Santiago, cujo aeroporto local é considerado um dos mais perigosos do mundo por conta das condições adversas para pouso, o destino é conhecido pelo mergulho com cilindro, cuja visibilidade é de até 25 metros.

Mergulho em Juan Fernández - Archipiélago Expediciones/Divulgação - Archipiélago Expediciones/Divulgação
Mergulho em Juan Fernández
Imagem: Archipiélago Expediciones/Divulgação

"Os mergulhos são em média a 20 metros de profundidade e a uma temperatura entre 18 ºC e 22 ºC. São tranquilos e com muitos polvos, lagostas, peixes e algas endêmicos", conta para Nossa Lene Spaarwater, fundadora da agência de mergulhos Archipiélago Expediciones. (@archipielagoexpediciones)

Uma das experiências que ela destaca na Bahía Cumberland, onde estão os principais pontos de mergulho na ilha Robinson Crusoe, são os mergulhos com lobos marinhos.

"É uma experiência que ninguém pode deixar de viver quando vier à ilha. Os animais podem ser vistos durante os mergulhos ou na superfície com snorkeling", garante.

Mergulho em Juan Fernández - Archipiélago Expediciones/Divulgação - Archipiélago Expediciones/Divulgação
Mergulho em Juan Fernández
Imagem: Archipiélago Expediciones/Divulgação

Já em terra firme, visitantes contam com atrativos históricos como o Fuerte Santa Bárbara, fortificação erguida pelos espanhóis em 1749 para proteger a região da invasão de piratas.

O famoso destino das solidões forçadas é conhecido também por seus mais de 50 quilômetros de trilhas exigentes.

Uma delas é a Rota do Marinheiro Escocês que passa por locais como o mirante Selkirk, um dos pontos mais altos da ilha, a 571 metros, de onde ele observava a rara movimentação de algum navio que pudesse resgatá-lo.

Único povoado permanentemente habitado no arquipélago, San Juan Bautista tem menos de mil moradores e abriga até uma estátua em homenagem ao personagem mais famoso do destino.

Estátua de Robinson Crusoé, em Juan Fernandez - Getty Images - Getty Images
Estátua de Robinson Crusoé, em Juan Fernandez
Imagem: Getty Images

Porém, nem tudo que o arquipélago guarda está à vista.

Ilha do tesouro

Uma das figuras estrangeiras mais famosas (e polêmicas), depois de Alexander Selkirk, claro, é o milionário holandês Bernard Keiser que busca tesouros escondidos em Juan Fernández, desde 1998.

Juan Fernandez - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Juan Fernandez
Imagem: Getty Images/iStockphoto

El Gringo, como esse milionário é conhecido, vem liderando escavações arqueológicas controversas em busca de um suposto tesouro de 800 barris de ouro enterrados na ilha, em 1714, pelo general espanhol Juan Esteban Ubilla y Echeverría, que fugia de uma emboscada durante a Guerra da Sucessão Espanhola.

Iniciados com pá e picareta, os trabalhos de Keiser começaram a ser vistos com olhos desconfiados quando, em 2019, ele levou para a ilha uma retroescavadora, levantando discussões sobre os impactos ambiental e patrimonial em área de parque nacional.

O arquipélago é conhecido também por abrigar os destroços do SMS Dresden, navio alemão que, em 1915, foi afundado propositalmente pelo próprio capitão Carl Lüdecke, a fim de evitar sua captura por embarcações britânicas inimigas, durante a 1ª Guerra Mundial.

SMS Dresden - Imperial War Museums - Imperial War Museums
SMS Dresden
Imagem: Imperial War Museums

Assim como conta a mergulhadora Lene Spaarwater, atualmente, os mergulhos no Dresden estão proibidos devido às "más práticas e quebra de confiança com as autoridades".

"Para mim é um sonho, mas preciso de mais formação técnica. Deve ser um mergulho muito bem planificado e com mistura de gases", conta Lene sobre esse naufrágio com a proa a 54 metros de profundidade, aproximadamente, e a popa a quase 80 metros.

E assim, de tesouro em tesouro, o Chile conta a história de um de seus destinos mais desconhecidos e inóspitos, daqueles que nem o órgão oficial de turismo do Chile faz questão de promover.