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Brasileiro viajou a pé 10.566 km por 23 países e sonha com volta ao mundo

Matias Tartiere e seu carrinho "Potro" nas estradas do Alasca: viagem solitária - Arquivo pessoal
Matias Tartiere e seu carrinho "Potro" nas estradas do Alasca: viagem solitária
Imagem: Arquivo pessoal

Luciano Nagel

Colaboração para Nossa

17/01/2022 04h00

Caminhando devagar e sempre. Assim é o ritmo do gaúcho e aventureiro Matias Tartiere, de 37 anos, nascido no município de Ijuí, no Rio Grande do Sul, e que já caminhou ao redor do mundo 10.566 quilômetros, passando por 23 países. No dia em que o andarilho concedeu a entrevista a Nossa, estava no estado do Alasca, nos Estados Unidos.

Seu sonho de dar a volta ao mundo a pé começou em 2017, quando resolveu largar os dois empregos — como atendente numa lanchonete e em uma loja de montanhismo — na cidade onde residia, Joinville, no norte de Santa Catarina.

Antes de colocar o pé na estrada sozinho, entre os anos de 2013 e 2016 o rapaz já havia viajado de carona, carro, ônibus e avião para países como Argentina, Chile, Bolívia e Peru.

Quanto mais se viaja lento e com humildade, mais as pessoas são abertas para fazer amizades. Daí surgiu a vontade de viajar a pé. Criei um carrinho adaptável para levar meus pertences básicos e ser autossuficiente. O carrinho de mão foi batizado de Potro e idealizado por um amigo''

Matias e o Potro, carrinho criado para levar o que precisa durante a epopeia a pé - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Matias e o Potro, carrinho criado para levar o que precisa durante a epopeia a pé
Imagem: Arquivo pessoal

O percurso um tanto excêntrico de dar a volta pelo planeta a pé teve como ponto de partida a Turquia. ''Escolhi esse destino porque, a partir dali eu iria em direção a Portugal e, posteriormente, as Américas'', explicou Matias, que levava consigo no bolso apenas R$ 6 mil e tinha como meta gastar, em média, R$ 20 por dia.

Desembarque na Turquia

O avião que em Matias Tartiere estava partiu de São Paulo e aterrissou em Istambul, na Turquia em 31 de maio de 2017. Na mochila, algumas mudas de roupas, um par de tênis para caminhada, toalhas, utensílios de higiene e equipamentos eletrônicos para o registro da odisseia. No porão do avião, estava seu carrinho Potro, que abrigava a barraca, painel solar e utensílios domésticos.

'Comecei minha caminhada na cidade turca de Edirne, em direção à Bulgária. Andei 74,9 km em apenas dois dias pelo país e dormi na beira da estrada na minha barraca''.

Dentro do Potro, Matias carregava variedades de comidas enlatadas — como atum, feijão, almôndegas, fiambre entre outros alimentos não perecíveis —, além de muita água para hidratar-se durante a caminhada. GPS e rastreador via satélite também foram equipamentos essenciais durante a sua longa jornada.

Acampamento montado na região da Capadócia, na Turquia, famosa pelos voos de balões - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Acampamento montado na região da Capadócia, na Turquia, famosa pelos voos de balões
Imagem: Arquivo pessoal

''Chegar na Turquia foi um choque cultural bem grande para mim. Muitas pessoas não falam inglês e a cultura deles é totalmente diferente de todos os países onde estive. Escutar todos os dias o chamado das mesquitas em seus determinados horários, com suas rezas, foi diferente e ao mesmo tempo interessante'', lembrou.

Na fronteira entre Turquia e Bulgária, os agentes de migração questionaram o que ele estava fazendo ali, a pé, carregando todos aqueles apetrechos. ''Eu dizia: viajando. Já viajei de carro, ônibus, bicicleta, avião e, agora, a pé'', dizia Matias aos guardas fronteiriços. Na verdade, o caminhante nunca encontrou problemas durante a travessia de fronteiras, muito pelo contrário, sempre foi bem recebido e orientado pelos agentes.

Matias em estrada na Bulgária: no carrinho apelidado de Potro ele leva tudo o que necessita - Arquivo pessola - Arquivo pessola
Matias em estrada na Bulgária, onde despertou curiosidade dos guardas de fronteira
Imagem: Arquivo pessola

Na Bulgária, Matias caminhou por 18 cidades, entre elas a bela capital Sofia. De lá, seguiu rumo à fronteira com a Romênia onde percorreu 240 quilômetros por outros seis municípios, inclusive a capital, Bucareste, a capital, com um dos centros históricos mais lindos do Leste Europeu.

Em cada país que eu chegava, eu tentava aprender o básico do idioma, como dizer bom dia, boa tarde, boa noite e pedir água ou um alimento. Isso era o básico"

Em apenas 11 dias, o brasileiro cruzou outros dois países do Leste Europeu, a Sérvia e Macedônia.

Na bagagem

Matias caminhava, em média, 30 quilômetros diários, sempre tentando manter o ritmo ao empurrar o Potro, com aproximadamente 35 quilos de roupas, alimentos enlatados, fogareiro, barraca, saco de dormir e equipamentos eletrônicos. ''Graças a Deus nunca foi roubado durante minha jornada", disse.

As baterias do celular e do notebook, entre outros aparelhos, eram recarregadas por energia através de um pequeno painel solar anexado no carrinho. Muitas vezes, Matias aproveitava a energia elétrica de algum posto de combustível à beira da estrada.

Pequenos painéis solares anexados ao carrinho garantem baterias recarregadas para os aparelhos eletrônicos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Pequenos painéis solares anexados ao carrinho garantem baterias recarregadas para os aparelhos eletrônicos
Imagem: Arquivo pessoal

Longa e exaustiva caminhada na Grécia

Foi na Grécia que o viajante solitário caminhou por mais tempo e em longas distâncias. No total, foram percorridos 1.500 quilômetros em 50 dias, passando pela capital, Atenas, além das praias de águas cristalinas banhadas pelo Mar Egeu.

Entre as dezenas de cidades, Matias destaca Ioannina, situada a 466 quilômetros de Atenas, Kalampaka e Kastraki, onde fica localizada Metéora, com mosteiros construídos sobre enormes rochedos a 550 metros de altura.

No interior da Grécia, nestes pequenos vilarejos onde acampei, as pessoas não falam inglês. Eu me comunicava pelo tradutor do celular ou fazia mímica. Na verdade, não tinha problema em me comunicar. Se vamos com um sorriso no rosto, as energias boas se aproximam''

Matias no Estádio Panatenaico, em Atenas, na Grécia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Matias no Estádio Panatenaico, em Atenas, na Grécia
Imagem: Arquivo pessoal

Já na Albânia, no sudeste da Europa, Matias já havia gastado a sola do seu único par de tênis — havia andado 3.762 quilômetros desde a Turquia — e, com bolhas nos pés, foi obrigado a comprar um novo par.

Cinco meses em Montenegro

Em Montenegro, pequena república montanhosa na região do Balcãs, o aventureiro resolveu dar uma descansada e parar a caminhada por cinco meses. O clima foi um dos motivos: o inverno seria longo e rigoroso para caminhar com prudência até chegar a Portugal.

'Montenegro é superpequeno, dá para atravessar a pé em cinco dias seus 120 quilômetros. Mas entrasse na União Europeia [da qual Montenegro não faz parte] eu só poderia ficar 90 dias e não iria conseguir percorrer os 3.200 quilômetros até Portugal com frio, neve, chuva e pouca luz''

Para manter-se por ali, Matias trabalhou em um albergue da juventude e troca de alimentação e estadia. ''Montenegro é um país muito lindo, cheio de montanhas e barato para viver. As pessoas são muito hospitaleiras', conta.

Em Montenegro, uma parada estratégica para esperar o inverno pesado passar antes de seguir viagem - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Em Montenegro, uma parada estratégica para esperar o inverno pesado passar antes de seguir viagem
Imagem: Arquivo pessoal

Terminado o tenebroso inverno no Leste Europeu, ele seguiu sua caminhada rumo a Bósnia e Herzegovina. Segundo ele, foi o país mais acolhedor em sua jornada. ''Fui muito bem recebido e até achei um pouco estranho sabe? Eu caminhava nas ruas e as pessoas me acenavam das casas e até me convidavam para tomar um café'', lembra.

De Sarajevo, o viajante caminhou 120 quilômetros com o objetivo de conhecer a cidade de Mostar, reconstruída em 2004 após a sua destruição em 1993 devido à Guerra da Bósnia — mas que ainda preserva marcas de tiros de fuzil nas paredes de casas e edifícios.

Na paredes dos edifícios, marcas que a guerra deixou na Bósnia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Na paredes dos edifícios, marcas de tiro que a guerra deixou na Bósnia
Imagem: Arquivo pessoal

O parque mais famoso da Croácia

O próximo destino (quase 480 quilômetros adiante) foi a Croácia, onde passou 36 dias. Entre os destaques no país, está o Parque Nacional dos Lagos Plitvice, que ocupa uma área de quase 300 km², com 16 lagos, além de cachoeiras e pequenas cascatas. ''É um lugar incrível, com uma natureza ímpar. Um dos locais mais bonitos que já vi''.

Na Croácia, ele também caminhou pelo litoral banhado pelo Mar Adriático, percorrendo, em média, 20 quilômetros por dia.

Depois disso tive que acelerar o passo porque ingressei na Eslovênia e até Portugal seriam 3.200 quilômetros, ou seja, eu teria que andar, no mínimo, 35 por dia para cumprir o limite de 3 meses do visto dentro do Espaço Schengen''

O percurso é marcado por lindas paisagens, observadas ao tempo de uma viagem a pé. Aqui, na Bulgária - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O percurso é marcado por lindas paisagens, observadas ao tempo de uma viagem a pé. Aqui, na Bulgária
Imagem: Arquivo pessoal

Na Eslovênia foi obrigado a comprar o terceiro par de tênis para superar as caminhadas. Mas as coisas ficaram literalmente mais pesadas na fronteira com a Áustria ''Foi o trajeto mais difícil que tive que percorrer por causa das montanhas da região dos Alpes. O Potro ficava mais pesado devido as subidas. Sofri bastante e o cansaço pegou direto'', afirmou.

No entanto, a travessia a pé feita pelos Alpes ocorreu durante o período da primavera e verão, o que facilitou um pouco quanto à adaptação ao clima nas montanhas.

No destino seguinte, a Alemanha, circulou por onze cidades da região e aproveitou para reabastecer o Potro. "Foi o país que mais gastei com comida porque era barato comprar enlatados no supermercado'', diz.

Na Suíça, cruzando os Alpes, a etapa mais pesada da viagem - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Na Suíça, cruzando os Alpes, a etapa mais pesada da viagem
Imagem: Arquivo pessoal

Solidão na estrada

Caminhando sempre sozinho, como ele lidava com a solidão?

Quando ela bate, penso no que planejei e sonhei. Penso no que estou fazendo e onde estou, e aí a solidão vai embora"

Da Alemanha, o roteiro seguiu pelo pequeno Liechtenstein (microestado da Europa Central com apenas 35 mil habitantes), e cruzou Suíça, Itália, França e Espanha até chegar no seu destino final deste trecho, Portugal. Do território francês o peregrino revela que não teve boas recordações.

''O pior país que estive foi na França, onde me negaram água da torneira três vezes. Isso nunca ocorreu em outros países", conta.

A solidão do trajeto é amenizada com as pessoas que encontra no caminho e o foco no objetivo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A solidão do trajeto é amenizada com as pessoas que encontra no caminho e o foco no objetivo
Imagem: Arquivo pessoal

Da África para o Brasil e Estados Unidos

Após permanecer sete dias em Portugal, o brasileiro pegou um voo em direção a Marrocos, no Norte da África. De lá, seguiu a pé pelas cidades de Tanger, Quenitra, Salé e Skhirat, totalizando outros 134 quilômetros. Do continente africano Matias voou para o Brasil e, posteriormente, para os Estados Unidos.

Matias em estrada do Marrocos: ele voltará ao continente africano numa etapa seguinte da volta ao mundo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Matias em estrada do Marrocos: ele voltará ao continente africano numa etapa seguinte da volta ao mundo
Imagem: Arquivo pessoal

Em maio de 2019, recomeçou sua caminhada no Alasca e andou por 23 dias até uma parada estratégica de três meses em Fairbanks na casa de um amigo. No local, produzia material para seu canal do YouTube e arrecadava doações via internet para dar continuidade à sua peregrinação ao redor do mundo.

No Alasca, Matias andou por 800 quilômetros e enfrentou duras adversidades.

A maior talvez seja não ter contato com as pessoas. É diferente da Europa, onde eu sempre estava conhecendo gente. Se eu tivesse começado minha viagem por aqui, certamente teria desistido logo de início"

Aurora Boreal que Matias presenciou no Alasca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aurora Boreal que Matias presenciou no Alasca
Imagem: Arquivo pessoal
Nas inóspitas paisagens do Alasca: "Somente eu, Potro e 500 mosquitos por metro quadrado", escreveu Matias - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nas inóspitas paisagens do Alasca: "Somente eu, Potro e 500 mosquitos por metro quadrado", escreveu Matias
Imagem: Arquivo pessoal

Até o momento, o brasileiro já percorreu 10.566 quilômetros passando por 23 países. O objetivo agora, assim que as fronteiras terrestres reabrirem por completo, é, a partir do Alasca, descer a pé as Américas com destino aUshuaia, no extremo-sul da Argentina, conhecida como o "fim do mundo".

De lá, Matias ainda planeja caminhar no continente asiático, tendo como ponto de partida a cidade de Vladivostok, na Rússia, com destino ao Egito, no Nordeste da África. Posteriormente, o andarilho seguirá para Cape Town, na África do Sul. A previsão é que a viagem se estenda até 2024 — caso a pandemia permita e as pernas resistam.