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Ela trocou a metrópole por vida em sítio no interior (e está feliz por lá)

A pandemia foi a força motriz para Renata Cabrera tomar a decisão de mudar-se para o sítio da família, no interior de São Paulo - Arquivo pessoal
A pandemia foi a força motriz para Renata Cabrera tomar a decisão de mudar-se para o sítio da família, no interior de São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

Juliana Sayuri

Colaboração para Nossa

01/01/2022 04h00

Borboletas, girassóis, sementes roxas de milho crioulo e folhas aos milhares se espalham no quintal da paulista Renata Cabrera de Morais (@recabrera), 33, em Jarinu, uma cidade de 30 mil habitantes a cerca de 50 quilômetros de São Paulo.

Não é qualquer quintal: depois de 14 anos morando na capital paulista, com a pandemia de covid-19 ela decidiu se mudar para o sítio da família e fez ali uma agrofloresta para regenerar o território.

Não por acaso, certa vez escolheu versos famosos do poeta mato-grossense Manoel de Barros para legendar uma foto por lá:

"Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo."

Sítio em Jarinu, cidade a 50 quilômetros de São Paulo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Sítio em Jarinu, cidade a 50 quilômetros de São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

Foi assim que, com a ajuda de amigos e família, ela plantou 400 árvores — incluindo nativas como ipês, jequitibá, pau brasil e urucum, frutíferas como grumixama, exóticas como jenipapo, graviola e cajá-manga, além de banana e eucalipto, que são podadas para gerar biomassa e manter o solo úmido.

Descendente de diversas gerações de agricultores, também cavou mais de dez linhas de roça para cultivar milho, mandioca, inhame, abóbora, açafrão, gengibre, batata-doce. Tipos ornamentais como hibisco e gerânio colorem o terreno "para deixar tudo muito lindo e atrair as abelhinhas e outros polinizadores".

Além de 400 árvores, Renata também plantou linhas de roça no sítio - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Além de 400 árvores, Renata também plantou linhas de roça no sítio
Imagem: Arquivo pessoal

Despertar para o campo

Bacharel em Relações Internacionais pela USP (Universidade de São Paulo), com temporada de estudos no prestigiado Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris), Renata é bem um retrato dos millennials que migraram para o campo na pandemia: trabalhando home office, voltou a morar com os pais, assim como muitos jovens na casa dos 30, e decidiu voltar de vez às raízes e se instalar no interior em busca de um estilo de vida mais saudável, sustentável, simples e conectado com a natureza - o fenômeno dos "novos caipiras", na expressão de Nossa.

A pandemia foi a força motriz para minha mudança. Deixei São Paulo para me conectar comigo mesma e com a natureza. Foi um processo de despertar"

Renata fez o caminho de volta ao campo durante a pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Renata fez o caminho de volta ao campo durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Renata diz que vive uma trajetória "não linear". Nos tempos de universidade, queria se preparar para o disputado concurso do Instituto Rio Branco para se tornar diplomata e representar o Brasil lá fora. A ideia, lembra a internacionalista, era trabalhar com diplomacia cultural. Com o tempo, porém, viu que a carreira, disputada e rígida, não era para ela.

Foi a primeira reviravolta: num processo de autocuidado, passou a meditar e se interessar por ioga e, principalmente, alimentação saudável, o que a atrairia à agricultura. "Para pensar o ciclo dos alimentos até chegar no nosso prato e sobretudo o impacto no nosso planeta", define.

Resultado de uma coleta de espécies no sítilo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Resultado de uma coleta de espécies no sítilo
Imagem: Arquivo pessoal

Desde então, foi voluntária no Festival de Agricultura Urbana de São Paulo, trabalhou na Virada Sustentável e depois passou quatro anos construindo na consultoria internacional Mandalah o festival filantrópico Wake. Também participou da elaboração do "CC+: um estudo sobre o consumo consciente no Brasil", que identificou impactos da pandemia e tendências de consumo como ato político.

Vi que eu podia fazer muito mais pelo planeta a partir da alimentação e outras áreas da sustentabilidade — e que também me dão prazer. É uma motivação que mexe com sua essência, uma missão. É poder colocar meu trabalho e meu conhecimento a serviço de mudar o mundo"

Produção de milho em Jarinu: aposta na sustentabilidade - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Produção de milho em Jarinu: aposta na sustentabilidade
Imagem: Arquivo pessoal

Viver da terra

Mudar o mundo, para pessoas como ela, pode começar no próprio quintal. Em 2020, foi a vez da implementação da agrofloresta, que busca produzir alimentos e, ao mesmo tempo, regenerar áreas degradadas.

"Agrofloresta é um sistema muito inteligente, uma engenharia muito rica: muitas pessoas não têm ideia do movimento de interligação entre os seres vivos que habitam uma floresta, os insetos, os fungos, as bactérias, o solo, que é o um organismo vivo e ali vivem trilhões de seres visíveis e invisíveis", conta.

Renata optou pela agrofloresta para produzir alimentos e, ao mesmo tempo, regenerar áreas degradadas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Renata optou pela agrofloresta para produzir alimentos e, ao mesmo tempo, regenerar áreas degradadas
Imagem: Arquivo pessoal

Isso foi me levando a aprender cada vez mais sobre agrofloresta — e sobre mim mesma. Estar conectada com a natureza, perceber as estações do ano, o germinar, o brotar, o florir e o morrer, tudo isso traz muitos aprendizados pessoais"

Em 2021, assumiu a Secretaria de Turismo, Cultura e Lazer de Jarinu, onde tem buscado desenvolver ações e políticas públicas para o turismo rural sustentável junto ao "Circuito das Frutas", como é conhecida a rota turística de Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedo, onde são cultivados uva, pêssego, morango, ameixa e acerola.

Sítio em Jarinu: a ideia é desenvolver o turismo sustentável na região - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Sítio em Jarinu: a ideia é desenvolver o turismo sustentável na região
Imagem: Arquivo pessoal

Entre outras atividades, ela vem visitando famílias agricultoras e pequenos produtores que abriram empreendimentos gastronômicos com um pé na fazenda e um foco novo na sustentabilidade para atrair viajantes. Trilhas, visitar adegas e alambiques, pegar fruta do pé e andar a cavalo estão entre as experiências da região rural.

Resgatar o charme de cidade do interior é o propósito agora. Despertar um certo orgulho de ser jarinuense, valorizar a atividade agrícola, pois muitos jovens vão trabalhar nas cidades e muitas vezes não há continuidade nessas gerações de agricultores. Então estar ali, mostrando que o turismo pode agregar valor, é fundamental para mostrar é possível viver ali com muita dignidade"

O cenário rural de Jarinu é um dos atrativos para novos visitantes - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O cenário rural de Jarinu é um dos atrativos para novos visitantes
Imagem: Arquivo pessoal

"2020-2021 foram anos transformadores. Não gosto do discurso 'a pandemia veio para nos ensinar'; a pandemia veio por consequência de atitudes irresponsáveis que nós, seres humanos, estamos tendo com o planeta", diz Renata. "Para 2022, espero ter energia para continuar com meu trabalho na cidade. Quero ver essas transformações acontecendo".