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De Chevette 93, ele viaja pelo Brasil há 5 anos e quer ir até o Ushuaia

Ele partiu com R$ 30 e um tanque cheio. Chegou a passar fome, mas persistiu no rolê pelo Brasil - Arquivo pessoal
Ele partiu com R$ 30 e um tanque cheio. Chegou a passar fome, mas persistiu no rolê pelo Brasil Imagem: Arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Nossa

28/11/2021 04h00

Graças à música, Hildener Alves (role_de_carango) sempre viajou pelo Brasil e já tem mais de 26 estados na sua lista. O trajeto era sempre feito em um fusca que, mesmo velho, o levava para diversas cidades.

Mesmo diante da paixão pelos teclados e universo musical, ele ficou saturado da área e decidiu cair na estrada para explorar o país. Os planos iniciais eram sair do Rio Grande do Norte, estado em que vivia na época, e chegar até a Colômbia.

Para isso, ele iria usar um Chevette 93 que ganhou de um amigo. "Desisti de sempre ter aquele medo e disse é agora", relembra. Ele ainda apelidou o veículo de Carango, nome que seus colegas se referiam quando o carro era velho ou estava quase acabado.

O carango depois da adaptação que conseguiu fazer para as viagens - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O carango depois da adaptação que conseguiu fazer para as viagens
Imagem: Arquivo pessoal

Como não tinha muito dinheiro, ele resolveu viajar e pensou que a música poderia ser um dos jeitos mais fáceis de se capitalizar ao longo do trajeto. Mas não foi bem assim. "Muitas pessoas ficam receosas, não acreditam em você. Cheguei a ficar sem dinheiro", diz o músico. Na época, quando iniciou a viagem em 2016, ele só tinha 30 reais e um tanque cheio.

Começo de tudo

Ao deixar o Rio Grande do Norte, ele viajou para a cidade de Lajes do Cabugi, no sertão potiguar. Por lá realizou alguns shows, trabalhou como locutor e outras atividades que davam dinheiro.

Ao deixar a cidade, o músico seguiu para o Ceará e estacionou seu Chevette na cidade de Aracati.

Cheguei lá com a cara e coragem. Pedia para fazer shows, mas algumas casas já estavam lotadas"

Na divida entre Minas Gerais e Bahia: para ganhar algum dinheiro, oferecia apresentações musicais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Na divida entre Minas Gerais e Bahia: para ganhar algum dinheiro, oferecia apresentações musicais
Imagem: Arquivo pessoal

Ele também passou um tempo em Canoa Quebrada, litoral cearense, em que ganhou dinheiro com as apresentações. Mesmo estando bem financeiramente, o brasileiro conta que sentiu que era hora de ir embora.

O próximo destino escolhido era o Piauí e, na sequência, o Maranhão. E foi neste último que ele passou quase um ano e meio. Por lá, Hildener conseguiu um trabalho em uma loja e começou a ter um salário. Durante sua estadia na cidade de Alto Alegre, ele ainda conheceu sua ex-namorada que decidiu seguir viagem com ele.

Vida na estrada: mesmo com estabilidade em alguns locais, Hildener decidia tocar para o próximo destino - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vida na estrada: mesmo com estabilidade em alguns locais, Hildener decidia tocar para o próximo destino
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo estando com recursos e uma vida estável, ele sentiu a necessidade de ir embora e seguiu para a capital São Luis. "Dinheiro não é tudo na vida. Meu chefe queria me segurar lá, mas continuei", relembra. Os próximos planos eram seguir para a região Norte do país.

Norte do país com perrengues

Ao chegar na cidade de Belém, no Pará, ele pensou que iria ganhar um pouco de dinheiro como locutor e que as coisas iriam dar certo. "Era sonhador", relembra rindo. Mas isso não aconteceu e os problemas financeiros começaram a apertar.

Foi aí que ele começou a vender bombons, doces e tentou se virar como podia. Por lá, ele destaca que havia muito receio por parte das pessoas em ajudá-lo, dificilmente ele conseguia se apresentar nos lugares e até pedir comida em restaurantes se tornava complicado.

Para dormir, ele procurou um posto de gasolina e fez amizade com um carreteiro que o ajudava com alimentação e outros insumos.

Hildener chegou a passou fome, mas contou com a ajuda de pessoas pelo caminho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Hildener chegou a passou fome, mas contou com a ajuda de pessoas pelo caminho
Imagem: Arquivo pessoal

Eu passei fome e comecei a ficar desanimado. Comia meu próprio bombom, farinha, dormia no carro com aquele sol estralando"

Para retribuir a ajuda, ele descarregava geladeira, fogão e outros eletrodomésticos.

Os planos eram seguir para Manaus, no Amazonas, mas o músico não tinha verba suficiente. Foi aí que esse mesmo carreteiro disse que o ajudava com a travessia. Mas ambos foram pegos de surpresa e o valor era R$ 1.500 só para o carro. "Ele ainda me perguntou se eu tinha certeza se queria atravessar e eu disse que sim. Chegando lá, me viro", afirma. A partir daí, foram sete dias de travessia de Belém para a capital amazonense.

Rolê de Carango - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Ao chegar na cidade, ele seguiu para Presidente Figueiredo e procurou um amigo que havia conhecido no Ceará. Ele foi ajudado por ele e seguiu para essa região com muitas cachoeiras. "Eu comecei a ganhar grama, vendia as coisas e as portas foram se abrindo."

Depois, ele seguiu para Macapá (Amapá) e chegou até a cidade de Tabatinga, na divisa com a Colômbia. Mas mesmo chegando ao local, ele foi barrado pela Polícia Federal, já que não tinha uma espécie de seguro de carro para entrar no país. Depois do ocorrido e com o avanço da pandemia, ele voltou para o Rio Grande do Norte.

Carro multiuso

No topo do carro, a estrutura faz as vezes de cama, uma adaptação que construiu para a ex,namorada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No topo do carro, a estrutura faz as vezes de cama, uma adaptação que construiu para a ex,namorada
Imagem: Arquivo pessoal

Hildener não podia exigir e esperar muito durante o roteiro, devido o veículo ser muito antigo. Como a grana estava curta, por muito tempo ele dormia no banco de passageiro e adaptou o automóvel com uma cama na parte superior para sua ex-companheira.

Quando precisava cozinhar, usava um fogareiro improvisado e a maioria das refeições eram feitas à base de miojo. "Quando tinha mais luxo, eu colocava uma salsicha", conta. Mas quando não tinha a proteína, o macarrão instantâneo era com ovo.

Fazendo a reforma do carango - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Fazendo a reforma do carango
Imagem: Arquivo pessoal
No teto interno do carro, um mapa mundi para sonhar com novas aventuras - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No teto interno do carro, um mapa mundi para sonhar com novas aventuras
Imagem: Arquivo pessoal

Os banhos eram feito em postos de gasolina, onde ele também estacionava o carro e dormia à noite ou até mesmo de dia.

Meta é chegar ao fim do mundo

Após dois meses morando no Rio Grande do Norte, o músico decidiu se jogar na estrada novamente. O plano era chegar até o Ushuaia, que é conhecido por ser o fim do mundo.

Ele pretende ir pelo Chuí, na divisa do Brasil com Uruguai, seguir para o Chile, Argentina, até chegar ao local inóspito. Atualmente, vive produzindo conteúdos em seu canal no Youtube.

Com o tempo e muito esforço, ele começou a rentabilizar o canal Rolê de Carango, no Youtube - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Com o tempo e muito esforço, ele começou a rentabilizar o canal Rolê de Carango, no Youtube
Imagem: Arquivo pessoal

Antes eu não tinha nem conta no banco e depois que comecei a mostrar as coisas no Youtube, seguidores faziam vaquinha, abriram conta em bancos digitais. Me ajudaram muito"

Mas o sucesso não veio de forma rápida. Ele conta que demorou quase um ano para o canal monetizar. "Hoje já dá para o combustível", conta à reportagem.

Post do Instagram mostrando a transformação do Chevette - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Post do Instagram mostrando a transformação do Chevette
Imagem: Arquivo pessoal

E além da ajuda financeira, ele ainda ganhou uma reforma especial em seu carro, já que agora chama atenção de quem passa pela cidade. Segundo ele, todos querem dar uma voltinha no Carango. Ele brinca que hoje o veículo é uma limusine.

E quando perguntado quantos quilômetros ele já rodou com com o carro, o brasileiro brinca que o velocímetro é tão velho que não tem como saber. Ele faz uma estimativa e acha que ao todo já deu mais 50 mil quilômetros rodados.