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Após aposentadoria, ela partiu sozinha para mochilão por mais de 48 países

Josefa Feitosa na Tailândia, um dos muitos destinos que conheceu - Arquivo pessoal
Josefa Feitosa na Tailândia, um dos muitos destinos que conheceu Imagem: Arquivo pessoal

Gisele Rodrigues

Colaboração para Nossa

24/11/2021 04h00

Foram mais de 30 anos trabalhando como assistente social em presídio feminino, quando Josefa Feitosa, conhecida nas redes sociais como @joviajando, 61, finalmente conseguiu se aposentar e começar uma aventura que já era um sonho de infância: viajar o mundo sozinha.

Divorciada, com três filhos criados, e um neto, que já não dependem da vovó financeiramente, ela abriu mão de uma vida estável e confortável no Nordeste do Brasil, para vender tudo e viver com sua aposentadoria e uma mochila de 10 quilos nas costas.

Nascida em Juazeiro do Norte, o passeio que ela mais gostava em sua infância era quando seu pai a levava para ver os viajantes que chegavam na estação de trem da cidade.

Quando o trem chegava eu puxava meu pai, e sentia aquele tremor. Eu já dizia para ele que quando eu crescer eu queria ser passageira, esse era meu sonho, e hoje estou realizando".

Josefa Feitosa na Índia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa Feitosa na Índia
Imagem: Arquivo pessoal

Mas foi dentro do presídio feminino que sua primeira oportunidade de viajar para o exterior aconteceu, isso porque ela produzia um fanzine junto com as internas, e esse projeto acabou alcançando estudantes em Portugal interessados nesse projeto. Ela foi convidada para palestrar sobre a iniciativa na Europa, e como ela já diz "foi a chave que abriu o meu mundo".

De Portugal, ela acabou indo conhecer outros países, e já havia conseguido a coragem de andar sozinha sem falar inglês, ou outra língua. E foi nessas andanças que a "vovó viajante" foi apresentada as hospedagens compartilhadas pelos jovens viajantes. Ela então começou a planejar suas viagens e economizar ficando em hostels, com a oportunidade de conhecer mais pessoas de todo o mundo.

"Quando comecei a conhecer como era viajar mais barato e comecei a me orientar, eu vi que viajar não era caro, mas só era preciso planejamento. Então eu ficando em hostel, e acabo aprendendo muito, e até saber os vôos mais baratos para viajar entre os países", lembra.

Depois de mais de 1 ano e dois meses mochilando pela Europa, ela realizou muitos sonhos, entre eles visitar um dos cenários do filme "Noviça Rebelde", que fica na Áustria.

Josefa em Salzburgo, na Austria  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa em Salzburgo, na Austria
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu estava em Munique, na Alemanha, quando eu soube que tinha um castelo em Salzburgo, na Áustria, que fez parte das gravações do filme. Eu queria muito ir, então comprei a passagem, porém como eu não sabia falar inglês, eu perdi o trem e fiquei desesperada, conta.

Primeiro intercâmbio

Mesmo sem internet, e sem falar outra língua além do português, Josefa é uma viajante comunicadora, e acaba utilizando a mímica como forma de expressão em suas viagens. Mas acredita que falar inglês ela não passaria tanto sufoco nas viagens.

Josefa no Egito - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa no Egito
Imagem: Arquivo pessoal
Ao lado de "mulher-girafa" na Tailândia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ao lado de "mulher-girafa" na Tailândia
Imagem: Arquivo pessoal

"Cheguei na estação de trem da Alemanha e procurei um policial, mas eu só sabia dizer 'I Brasil', e ninguém me entendia.

Até que chegou um funcionário da estação que era brasileiro e veio me ajudar dizendo que aquele dia já não haveria mais trem para o destino que eu queria. E eu acabei indo dormir na casa do brasileiro. Ainda me lembro o nome dele, chamava Carlos".

A experiência acabou durando mais tempo, e ela ficou mais três dias na casa de familiares do brasileiro, que acabaram incentivando a viajante a procurar um curso de inglês para continuar viajando de uma forma mais segura.

Depois de sua viagem para Áustria, Josefa desembarcou no seu primeiro intercâmbio para estudar inglês na Irlanda.

Josefa em Luang Prabang, Laos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa em Luang Prabang, Laos
Imagem: Arquivo pessoal

"Cheguei na escola e não sabia nada, foram cerca de cinco meses estudando, e trabalhando para poder conseguir me comunicar. Então, eu virei babá de uma família lá, que me ajudou a aprender mais rápido o inglês, para que eu conseguisse ter um bom desempenho, e me ajudou com os custos, já que eu só tinha minha aposentadoria para viajar".

Presa na África

Josefa acabou se aventurando também pela África, onde teve oportunidade de fazer dois voluntariados ajudando crianças carentes, e auxiliando na alfabetização das comunidades pobres no Quênia e Zâmbia. Mas ela conta que foi também nesse continente que ela viveu um dos piores dias da sua vida quando desembarcou em Nairóbi, capital do Quênia.

Ao deixar suas coisas em um hostel, e procurar um lugar para comer, percebeu que seu celular havia sido roubado logo na chegada à cidade.

"Tinha muito refugiado onde eu estava, e começou um conflito muito grande perto de mim. Até que os policiais começaram a levar várias pessoas ao meu entorno, e comecei a ficar com medo.

Em apenas alguns segundos, um dos policiais chegou até mim e falou algo que eu não entendia, entreguei a cópia do meu passaporte [recurso para não correr o risco de perder o documento original] e tentava me explicar que eu era turista brasileira, mas não deu tempo. Ele rasgou o papel na minha frente, e me colocou em um camburão junto com outras pessoas".

Portadora de diabetes, Josefa sempre viaja acompanhada de seus medicamentos para controlar a doença, e sempre mantém uma boa alimentação para que não afete na sua saúde, mas dessa vez ela foi pega de surpresa, e estava sem nenhum deles em mãos.

Josefa na África - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa na África
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu só me recordo de terem me colocado em um grande salão fechado e escuro, muitas pessoas cheirando a xixi, e eu não conseguia sair de lá, e nem conversar com ninguém. Comecei a ficar desesperada, me encostei em um lado do chão, e o xixi das pessoas escorria e veio até o meu cabelo. Sinto o cheiro até hoje. Eu não parava de chorar".

Já quando amanheceu, uma das policiais que falava inglês acabou escutando de Josefa que ela era brasileira e portadora de uma doença crônica.

A policial me perguntou se eu tinha quem ajudasse, mas eu não tinha, eu não tinha celular e nem documentos. Mas me lembrei da jovem Julia que fez voluntariado comigo e havíamos nos comunicado por Facebook. Finalmente, consegui sair."

Amor de viagem

Josefa na Praia do Preá, Ceará - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Josefa na Praia do Preá, Ceará
Imagem: Arquivo pessoal

Depois de suas andanças pelo mundo, a vovó já viveu até mesmo paixões de viagem. Quando esteve no Sudeste Asiático, ela conheceu um viajante português que se apaixonou pela brasileira, e juntos viajaram pelo continente durante algum tempo. Mas ela mesmo diz que prefere continuar a viagem sozinha, então o romance não durou muito tempo.

Durante a pandemia ela não parou de viajar, e começou a explorar o Brasil sozinha, mas a vovó viajante ainda tem muitos sonhos para realizar, e um deles é explorar a América Latina assim que a pandemia conseguir facilitar as viagens entre os países, enquanto isso ela vai compartilhando suas experiências e inspirando muitas mulheres por meio das suas redes sociais.