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Zezé Motta, em 1969: "Arranquei a peruca chanel e assumi o black power"

Bruno Calixto

Colaboração para Nossa, do Rio de Janeiro

13/11/2021 04h00

"Falar de racismo deixou de ser tabu". É o que acredita a atriz Zezé Motta, que na adolescência passou por um processo de embranquecimento, como conta no programa "Botequim da Teresa", no qual participou como convidada especial ao lado da também atriz Juliana Alves.

"Diziam que meu cabelo era ruim, minha bunda era grande e nariz inchado. Então pensei em operar o nariz, usar peruca chanel ou alisar o cabelo e cheguei ao ponto de procurar uma cirurgia para o bumbum. Olha que loucura", detalha Zezé, dona de um canto de luta e resistência.

Zezé Motta no Botequim da Teresa - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Aos 77 anos, a atriz venceu o preconceito, quebrou paradigmas, tornou-se figura respeitada na música, televisão e no cinema e, desde os anos 1970, vem usando seu espaço na mídia para denunciar, lutar e reivindicar a questão do negro.

Zezé Motta, na peça "Arena contra Zumbi" - Reprodução Facebook - Reprodução Facebook
Zezé Motta, na peça "Arena contra Zumbi"
Imagem: Reprodução Facebook

A grande virada, como a própria anuncia no programa de Teresa Cristina, foi nos Estados Unidos, no final dos anos 1960, na época em que foi fazer "Arena conta Zumbi", de Augusto Boal, do Teatro de Arena.

"Durante as cenas, volta e meia, algum personagem erguia a mão e fazia um discurso a la Zumbi, imagina fazer isso de peruca chanel? Numa sessão para o Harlem, chamaram o Boal e perguntaram: 'quem é esta mulher alienada?'"

Fiquei tão sem graça, que cheguei no hotel, arranquei aquela peruca e molhei os meus cabelos no chuveiro. Tenho foto fazendo a mesma peça, mas usando black power."

Juliana Alves: "Tem personagens que eu não faço, porque é para negra de pele retinta"

Se faltam palavras para definir Zezé Motta, ao mesmo tempo em que sobram motivos para procurá-las, o mesmo ocorre com Juliana Alves.

"Hoje tem personagens que eu não faço porque é negra de pele retinta que tem que fazer. É difícil porque as oportunidades para nós são restritas. É necessário ter este entendimento e estas engrenagens, compreender os interesses das mulheres negras na coletividade", acrescenta a jovem atriz, que mesmo tendo uma família de pessoas conscientes, sofreu ataques à sua autoestima na escola e ambientes que frequentava.

Juliana Alves no Botequim da Teresa - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Imagem: Zô Guimarães/UOL

"Eu me achava realmente uma pessoa feia. O que me segurava é que meu pai era do Movimento Negro, e lembro que a Zezé organizou um cadastro de atores negros", conta

São estes movimentos que fortaleceram um pouco da nossa importância e relevância em nosso país"

Zezé Motta e Juliana Alves: dois ícones da resistência e artistas multifacetadas. Uma, dona de uma voz empoderada e eternizada como Xica da Silva, com 50 anos dedicados à cultura brasileira. A segunda, cuja carreira inspira atuais e futuras gerações de mulheres que lutam por expressão, espaço e oportunidade. Não é todo dia que o Brasil tem a chance de ter estas duas potências juntas e ainda mais com nossa anfitriã Teresa Cristina.

Samba, série e Teresa

O "Botequim da Teresa" vai ao ar todas as sextas-feiras, às 11 horas, no Canal UOL e no YouTube de Nossa (inscreva-se já para receber os lembretes). Em cada episódio, Teresa Cristina recebe um convidado especial e ensina a fazer os petiscos clássicos de alguns do botequins mais famosos do Rio de Janeiro. O programa é uma coprodução de Nossa e MOV, a plataforma de vídeo do UOL.