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O que fez uma vinícola argentina ser eleita a melhor do mundo

Uma taça de Poligonos del Valle de Uco Paraje Altamira Malbec 2017, um dos vinhos mais premiados da Bodega Zuccardi - David Silverman/Getty Images
Uma taça de Poligonos del Valle de Uco Paraje Altamira Malbec 2017, um dos vinhos mais premiados da Bodega Zuccardi
Imagem: David Silverman/Getty Images

Luciana Rosa

Colaboração para Nossa, de Mendoza (Argentina)

15/10/2021 04h00

A argentina Zuccardi levou o prêmio de melhor vinícola do mundo pela terceira vez consecutiva no World's Best Vineyard. Três dos cinco primeiros lugares ficaram aqui na América do Sul: logo atrás da Zuccardi, está a uruguaia Garzón e em quinto vem a chilena Montes.

Outras duas vinícolas de Mendoza figuram entre as campeãs: a Catena Zapata ficou com o sétimo posto e a Trapiche em décimo oitavo.

Mas, o que faz dessas vinícolas tão especiais? Primeiro, é preciso entender que o que está em jogo aqui não é a qualidade dos vinhos produzidos, senão o nível da experiência turística oferecida pela vinícola ao abrir suas portas a visitantes.

Vinhos tintos da Bodega Zuccardi, expostos na vinícola - Getty Images - Getty Images
Vinhos tintos da Bodega Zuccardi, expostos na vinícola
Imagem: Getty Images

"Quando se fala da melhor vinícola do mundo, as pessoas automaticamente entendem que é aquela que produz os melhores vinhos.

Mas, na realidade, essa classificação se refere à melhor adega do mundo para visitar, porque o que se está premiando é a experiência na vinícola", esclarece o sommelier Fabricio Portelli.

Quem escolhe?

Anualmente a World 's 50 Best escolhe entre os 50 melhores restaurantes, bares, e, mais recentemente, vinícolas.

Portelli, que é um dos jurados da World 's Best Vineyards , explica que o concurso escolhe como juízes enólogos, sommeliers, jornalistas ou pessoas vinculadas ao mundo do vinho. Aí, então, os organizadores enviam um formulário que eles devem completar com as viagens que fizeram no último ano.

O sommelier revela que durante a pandemia, este processo foi interrompido e a eleição se fez com base na conclusão dos últimos anos. Por isso, ficou fácil para a bicampeã Zuccardi levar o título pela terceira vez.

Visitantes na Zuccardi, em Mendoza - Getty Images - Getty Images
Visitantes na Zuccardi, em Mendoza
Imagem: Getty Images

Os critérios

Fabrício conta que as visitas às vinícolas são realizadas à paisana, ou seja, o jurado se infiltra entre os turistas para viver a experiência de forma autêntica.

O que se leva em conta é a arquitetura, o entorno e a paisagem, a atenção com a que te recebem, obviamente a qualidade dos vinhos também e tudo que tenha a ver com a experiência turística."

Ou seja, tudo que faça com que as pessoas que por aí passem, vivam uma experiência enoturística completa e contundente. "É aí que a Piedra Infinita se destaca", diz Portelli sobre a vinícola da Zuccardi que leva esse nome.

A premiada

Vista para pedras e vinhedos da Bodega Zuccardi, na vinícola Piedra Infinita - Getty Images - Getty Images
Vista para pedras e vinhedos da Bodega Zuccardi, na vinícola Piedra Infinita
Imagem: Getty Images

A vinícola Piedra Infinita está localizada em uma região da província argentina de Mendoza chamada Valle de Uco, zona aos pés da cordilheira dos Andes que somente começou a ser explorada pela indústria vitivinícola recentemente.

Júlia Zuccardi, uma das responsáveis pela vinícola, conta que, apesar da vinícola ter somente cinco anos, seu irmão Sebastián Zuccardi já trabalhava na região há muitos anos. Naquele momento, ainda não se falava muito dessa região e apenas alguns produtores começaram a apontar para ali.

O enólogo Sebastián Zuccardi: experiência na produção região, agora aplicado na vinícola da família - Divulgação - Divulgação
O enólogo Sebastián Zuccardi: experiência na produção região, agora aplicado na vinícola da família
Imagem: Divulgação

"Meu pai, até então, jamais tinha considerado o Valle de Uco, ou o sul de Mendoza como uma possibilidade. Porque nossas raízes estavam mais a leste, em Maipu, em Santa Rosa", diz ela.

Os Zuccardi não foram os primeiros a chegar no Valle de Uco, mas o longo período investido em pesquisa do solo e o desenvolvimento de um sistema de cultivo em forma de polígonos, conferiu a eles a capacidade de produzir diferentes tipos de vinho com base na mesma uva.

Análise dos tipos de solo presentes do Valle de Uco, onde está a Bodega Zuccardi - David Silverman/Getty Images - David Silverman/Getty Images
Análise dos tipos de solo presentes do Valle de Uco, onde está a Bodega Zuccardi
Imagem: David Silverman/Getty Images

Isso porque os vinhedos estão organizados de forma a adaptar as sementes à grandiosa diversidade de umidificação e rochosidade da terra, por isso, em suas etiquetas o destaque não está no tipo de uva, Malbec ou Cabernet, mas sim, para a região de onde provêm.

Paisagem e concreto

Segundo Portelli, um dos destaques da bodega é que o projeto foi pensado como algo que estivesse vinculado a paisagem, aos artistas mendocinos. E a base em pedra e concreto não é à toa: já se tornou um símbolo da família porque Quito Zuccardi era um engenheiro apaixonado por concreto.

A arquitetura da Zuccardi prioriza o concreto, uma paixão do dono - Divulgação - Divulgação
A arquitetura da Zuccardi prioriza pedras e o concreto, uma paixão do dono
Imagem: Divulgação

"A magia desse lugar é a montanha, a paisagem e, para nós, era muito importante que a arquitetura não competisse com ela", conta Julia Zuccardi, que herdou da mãe, Ana Amitrano, a responsabilidade de seguir com o trabalho de uma das pioneiras do enoturismo na Argentina.

Vista da construção da vinícola de Piedra Infinita, da Zuccardi - Marcelo Aguilar/picture alliance via Getty Images - Marcelo Aguilar/picture alliance via Getty Images
Vista da construção da vinícola de Piedra Infinita, da Zuccardi
Imagem: Marcelo Aguilar/picture alliance via Getty Images

"Por isso, é um edifício que está todo construído com materiais locais, como pedra e argila. Um detalhe é que a entrada simula uma quebrada, como as que existem ao pé da montanha. As paredes da montanha também não apresentam nenhuma simetria, assim como as paredes de Piedra Infinita", descreve Julia.

Segundo ela, o passeio também foi pensado para ter coerência com o local, tudo o que acontece está conectado com isso, com a terra, com o vinhedo, com a identidade.

"A atividade vitivinícola depende da natureza, somos parte dela, não é possível separar o vinho do que acontece na terra e na natureza, portanto, o projeto tem que refletir um pouco disso", diz Julia, que atribui o título à energia do lugar.

É muito forte. E acho que essa é uma das razões pelas quais levamos o prêmio, porque é um lugar que emociona", conclui.

No cardápio, a alma local

Outro destaque, segundo o sommelier, é o restaurante de vinícola, que acerta ao inserir algo de alta categoria imerso na paisagem. Além de Matías Aldasoro, que está com a família há 20 anos, o chef Fernando Trocca também assessora o cardápio.

Um dos pratos servidos no restaurante da vinícola Piedra Infinita - David Silverman/Getty Images - David Silverman/Getty Images
Um dos pratos servidos no restaurante da vinícola Piedra Infinita
Imagem: David Silverman/Getty Images

As regiões que nomeiam os vinhos produzidos em Piedra Infinita têm, em sua maioria, origens indígenas e geram bebidas de identidade. A mesma lógica é aplicada para pensar a cozinha do restaurante da vinícola, que oferece um menu de 5 passos, cuja variação estará centrada na coleção de vinhos que o visitante queira provar.

No menu, uma boa amostra da típica comida argentina. Nada de empanadas ou choripans, mas criações feitas a base do que o cultivo local provê.

Um dos pratos mais interessantes é o locro, uma espécie de feijoada que os argentinos consomem em dias pátrios, que neste caso consiste em uma base de feijão branco coberto com carne de chivito envolta em um caldo de abóbora. O prato principal, obviamente, é a parrilla e, nesse caso, já que estão aos pés da cordilheira, com a carne de cordeiro.

A festa de sabores é encerrada por um sorvete de azeite de oliva produzido na própria finca.

Da Argentina para o mundo

Poema de Jorge Enrique Ramponi que inspirou o nome da vinícola  - David Silverman/Getty Images - David Silverman/Getty Images
Poema de Jorge Enrique Ramponi que inspirou o nome da vinícola
Imagem: David Silverman/Getty Images

Portelli conclui que o vinho argentino se transformou em um locomotor para o salto gastronômico que o país deu nos últimos anos, e logicamente do enoturismo. Segundo o sommelier, "independentemente da situação do país, a qualidade do vinho não deixou de crescer e evoluir nos últimos 20 anos".

A busca dos Zuccardi pela identidade produzindo vinhos, como diz Júlia, "que refletem o lugar, a nossa terra, nossas particularidades", talvez seja o segredo do sucesso dessa vinícola.

O vinho tem que mostrar o que somos. Você tem que poder tomar um vinho de Mendoza em qualquer lugar do mundo e sentir que ele te translada um pouco até lá", diz ela.