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De brincadeira a comida da guerra: conheça monjayaki, a panqueca japonesa

Monjayaki preparado na mesa de restaurante em Tóquio - Getty Images
Monjayaki preparado na mesa de restaurante em Tóquio Imagem: Getty Images

Roberto Maxwell

Colaboração para Nossa, de Tóquio (Japão)

25/07/2021 04h00

Na cozinha japonesa, apresentação é tudo. Um dos preceitos do washoku (a comida dos banquetes de elite que virou sinônimo de gastronomia japonesa) é que um prato deve estimular todos os sentidos. Do sabor ao colorido, a harmonia deve reinar entre os ingredientes para que a comida seja desfrutada pelos comensais em louças impecáveis e escolhidas para a ocasião.

Mas se tem um prato no Japão que desafia todas essas regras é o monjayaki. Imagine uma panqueca em que você junta a massa quase líquida e o recheio numa mesma chapa e grelha. Como recheio, entende-se tudo o que você tiver na geladeira, de legumes a carnes, tudo bem picadinho.

Já a massa é feita com farinha de trigo, único ingrediente em abundância para um país arrasado pela guerra. Indigesta ao olhar, a mistura se tornou um dos pratos mais populares da capital japonesa, um verdadeiro representante da gastronomia toquiota.

Monjayaki tem preparo simples  - Getty Images - Getty Images
Monjayaki tem preparo simples
Imagem: Getty Images

Brincadeira de criança

Na origem, o monjayaki era coisa de criança. O nome do prato é formado pela palavra "monja", sem significado específico, e "yaki", que quer dizer algo frito ou grelhado. "Diz-se que 'monja' vem da palavra 'moji'", explica a guia de turismo Meg Yamagute, 44. "Moji" quer dizer "caractere", "letra" e é também usado para formar a palavra "emoji", já incorporada ao português.

No Período Meiji (1868-1912), as crianças se divertiam em barraquinhas que ofereciam uma espécie de massa mole grelhada numa chapa. Durante o cozimento, os pequenos iam moldando letras com a massa até que ela pegasse consistência. Eles chamavam esse misto de comida e brincadeira de "mojiyaki".

Preparo do monjayaki - Getty Images/amana images RF - Getty Images/amana images RF
Preparo do monjayaki
Imagem: Getty Images/amana images RF

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os Estados Unidos ocuparam o Japão derrotado e, para suprir a fome da população, inundaram o mercado local com farinha de trigo. Foi nessa época que muitos pratos populares nos dias de hoje ganharam forma, dentre eles o lámen e o okonomiyaki, uma espécie de primo do monjayaki. Isso porque ambas as iguarias partem de um princípio que nós brasileiros conhecemos muito bem: o que não mata engorda.

No pós-guerra, as pessoas acrescentavam à massa o que tinham à disposição: repolho, conservas, tudo o que tinham à mão"
Meg Yamagute

Degustação coletiva

Antes da pandemia, a guia organizava tours gastronômicas quase que diárias com estrangeiros e uma das iguarias que ela mais gostava de apresentar era o "monja", como os toquiotas chamam carinhosamente o prato.

"Para mim, o monja depende muito de quem vai comer", diz a guia. "Normalmente, o cardápio tem várias sugestões de sabores, com combinações interessantes de ingredientes, mas a gente também pode combinar como quiser", explica ela.

Monjayaki preparado na mesa de restaurante em Tóquio - Getty Images - Getty Images
Monjayaki preparado na mesa de restaurante em Tóquio
Imagem: Getty Images

Em geral, o restaurante que oferece monjayaki é especializado no prato. Cada mesa é equipada com uma chapa e são os comensais que preparam o rango na hora.

A casa fornece os ingredientes para o recheio e a massa além, claro, do espaço para sentar e das bebidas. Sendo assim, o monjayaki é, essencialmente, uma experiência coletiva. Para Meg, a diversão começa na hora da escolha dos ingredientes.

Imagina sentar numa mesa com 5 ou 7 outros desconhecidos e tentar descobrir o que cada um está disposto a experimentar, o que cada um acha que é uma combinação boa. Era uma experiência cultural muito bacana"

Textura à escolha

A guia conta que muitos restaurantes incentivam os clientes a comer o prato ainda com uma textura pastosa — cá entre nós, nada apetitosa. Isso acaba estragando a experiência da maioria dos estrangeiros.

Meg costuma estimular os participantes a provar o monjayaki em diversas texturas para que cada um escolha a forma que mais lhe agrada. Ela, no entanto, prefere comer o prato quando a massa está bem cozida, já crocante. Dessa maneira, a guia percebe que muitos estrangeiros acabam perdendo o estranhamento com a textura do prato.

Em 7 anos de tour, nunca encontrei nenhum estrangeiro que tivesse experimentado a iguaria antes e não me lembro de ninguém que não tenha gostado. Uns se surpreendem, outros voltam para comer mais, alguns acham ok e só", diz.

Monjayaki - Getty Images/amana images RF - Getty Images/amana images RF
Monjayaki
Imagem: Getty Images/amana images RF

"Mas é sempre uma experiência interessante e divertida", arremata Meg, que não vê a hora de a pandemia arrefecer para voltar a receber viajantes em Tóquio e apresentar a eles este prato que pode não ser vistoso como outros da culinária japonesa, mas que definitivamente tem seu lugar no coração dos foodies.

Para fazer em casa

Clique no link abaixo e experimente seu próprio monjayaki: