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A potiguar Galinhos se destaca com guia showman e turismo artesanal

Farol de Galinhos, no Rio Grande do Norte - Ricardo Siqueira/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images
Farol de Galinhos, no Rio Grande do Norte
Imagem: Ricardo Siqueira/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

03/07/2021 04h00

Quando o guia Júnior Tubarão (@galinhostubarao) nasceu, as ruas de Galinhos eram de areia, a população local se reunia ao redor da TV comunitária na praça central e as crianças brincavam com barquinhos de isopor com velas feitas de sacola plástica.

Mais de três décadas depois, nada parece ter mudado nessa cidade com menos de 3 mil habitantes e "só 4 ou 5 ruas com calçamento", a 170 quilômetros de Natal. Galinhos segue igual. Mas Jr. Tubarão, não.

Há mais de 10 anos, José de Miranda, seu nome de batismo, se tornou praticamente um atrativo turístico da região com o tour gastronômico em um barco de madeira construído por ele mesmo, conduzido por canais de manguezais até praias isoladas, onde também prepara as refeições servidas aos turistas.

Junior Tubarao - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Júnior Tubarão...
Imagem: Arquivo pessoal
...o showman de Galinhos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
...o showman de Galinhos
Imagem: Arquivo pessoal

"É como conhecer uma Galinhos invisível, onde barcos maiores não podem ir, e ao mesmo tempo estar em total harmonia com a natureza", descreve Júnior em entrevista para Nossa, que faz questão de lembrar que nasceu com a ajuda de uma doula, em uma época em que os partos na cidade eram realizados em casa.

Principal destino turístico do Polo Costa Branca, de onde saem 95% do sal produzido no Brasil, Galinhos é o sertão que virou mar, onde as imensas montanhas brancas das salinas recortam o horizonte e os mesmos ventos que esculpem dunas de areia garantem a temporada de kitesurfe, de outubro a fevereiro.

Paisagens e passeios de Galinhos, no Rio Grande do Norte

Passeios de bugue no Parque de Dunas, com paradas nas lagoas rodeadas pelas dunas do Capim e do André, são também roteiros populares.

Mas só quem já esperou o pôr do sol na Praia do Farol, onde fica a construção de quase 100 anos que dá nome a essa faixa de areia, entende porque esse destino do litoral norte potiguar é um dos endereços mais exclusivos de todo o estado.

Turismo artesanal e sustentável

Nessa estreita península de areia entre o oceano Atlântico e o Rio Aratuá, o "novo normal" já acontece há anos e o distanciamento social não é nenhuma novidade.

Só para ter uma ideia, o distrito de Galos tem cerca de 420 habitantes e conta com uma única opção de hospedagem. A Pousada Peixe Galo, com apenas 10 quartos, todos com portas voltadas para o rio.

Farol de Galinhos - Getty Images - Getty Images
Farol de Galinhos
Imagem: Getty Images

E da piscina em meio à construção em forma de L dá para acompanhar ainda a maré das águas do Aratuá subir e descer, ao longo do dia.

Fazemos turismo em Galinhos com sustentabilidade, sem mexer na natureza. Nos infiltramos nela sem interferir em nada", garante Júnior Tubarão.

É o que ele costuma chamar de "agro mangrove", só para citar uma das divertidas expressões que esse autointitulado "guia-showman-top-das-galáxias" costuma soltar durante os passeios pelos manguezais da região.

"Essa pandemia serviu para a natureza dar uma respirada. Comecei até a ver animais que não apareciam em Galinhos, como a talha-mar [ave conhecida pelo bico longo usado em voos rasantes em busca de alimento]", explica o enciclopédico guia de 31 anos.

Durante os passeios de 4 horas de duração, Júnior faz paradas para coletar as ostras que são servidas no almoço que ele mesmo prepara na cozinha adaptada dentro do seu barco.

O cardápio tem também sashimi ao "molho do amor" (geleia de frutas vermelhas com pimenta e mel) e ceviche com peixes (dourado, cavala, robalo ou pescada amarela) da peixaria que os pais dele mantêm em Galinhos, há 25 anos.

Júnior Tubarão durante passeio gastronômico em Galinhos - Eduardo Vessoni - Eduardo Vessoni
Júnior Tubarão durante passeio gastronômico em Galinhos
Imagem: Eduardo Vessoni

Tudo isso preparado no barco criado pelo próprio Júnior Tubarão, cujo tempo de construção pode variar de 25 dias, como as canoas de 8 metros, a até oito meses, no caso das embarcações maiores, usadas para grupos.

"Meus barcos são como um Transformer, cada pedaço dele tem uma utilidade", compara Júnior, no melhor estilo Tubarão de definir as coisas. Suas máquinas flutuantes costumam ser nomeadas de acordo com o design, como Camaro Amarelo, Arca de Noé e Love is in the Air.

A região é muito sensível e tem caminhado para as práticas sustentáveis, como a discussão recente sobre o uso de barcos com motor a energia solar e a criação de um projeto, ainda em fase de planejamento, com uma comissão multidisciplinar para a conscientização das pessoas, proteção dos ecossistemas e controle de acesso à península.

Galinhos  - Pousada Peixe Galo/Divulgação - Pousada Peixe Galo/Divulgação
Galinhos
Imagem: Pousada Peixe Galo/Divulgação

"Antes, se vendiam 10 caranguejos por R$ 10. Hoje o turista paga R$ 300 para vê-los em seu habitat natural. É incomparável", comemora Leão.

Torres polêmicas

Além da vulnerabilidade do ecossistema da região, os moradores se incomodam com a polêmica instalação de uma usina eólica nos arredores.

Vista da usina eólica, em Galinhos, Rio Grande do Norte - Getty Images - Getty Images
Vista da usina eólica, em Galinhos, Rio Grande do Norte
Imagem: Getty Images

"Na época, a comunidade se reuniu e barrou a instalação de aerogeradores muito próximos ao distrito de Galos, provocando uma readequação do projeto inicial", lembra Saulo Leão, turismólogo e secretário de turismo de Galinhos.

Com quase todas as vias públicas ainda de areia, com charretes e bugues como principal meio de transporte, turistas que chegam de Natal conseguem ver de longe as imensas torres que brotam no horizonte, em meio às dunas.

Porém, é preciso deixar os veículos no Pratagil, estacionamento público localizado na ilha homônima, onde o visitante toma os barcos até Galinhos ou Galos, a 10 minutos dali.

Embora o vilarejo venha recebido visitantes durante a pandemia, Júnior Tubarão avisa que estão sendo tomadas medidas como a atual barreira sanitária em Pratagil e a fiscalização do uso de máscaras.

Quando começou seu trabalho, há mais de uma década, Júnior era o único a conduzir esse tipo de passeio. Atualmente, já são 26 barqueiros só em Galinhos, além de outros que foram surgindo nos destinos vizinhos, como Guamaré e Macau.

"Fico feliz de servir como inspiração e ver outras comunidades vivendo do turismo sustentável", conclui, orgulhoso, o "chef do manguezal", outro título criado por ele.