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SPFW N51: Frida Kahlo e a moda noturna sem gênero são destaques do 2º dia

Confira o resumo do segundo dia de desfiles do São Paulo Fashion Week N51 - Divulgação
Confira o resumo do segundo dia de desfiles do São Paulo Fashion Week N51 Imagem: Divulgação

De Nossa

24/06/2021 22h49

Saúde mental, um retorno às origens e um mar de referências da cultura pop esteve, nesta quinta-feira (24), no segundo dia de desfilas da edição de número 51 do São Paulo Fashion Week.

Igor Dadona foi o responsável por abrir a programação ao mostrar os altos e baixos de suas emoções durante o confinamento no filme "Maritime",

Logo após, Ronaldo Silvestre relembrou a infância e a desconstrução de uniformes na coleção "Conspiração", enquanto Martins mostrou roupas com referências que vão desde o punk rock até "Laranja Mecânica". Frida Kahlo, artista mexicana cuja imagem já foi muito explorada, é a estampa e o tema dos biquínis da marca Triya, que fez uma colaboração oficial com a instituição que detém os direitos da obra da mexicana.

E, por fim, a Another Place fechou, com "Unlock", um mundo distópico e dançante com sua moda sexy e transgressora.

Igor Dadona

O estilista paulistano estreou no SPFW falando de saúde mental durante a pandemia em seu filme "Maritime". Em um cenário feito com papelão assinado por Edgard de Camargo, com um quê de desenhos animados dos anos 1910, o vídeo contou a jornada de um personagem em cinco atos: a xícara, o barco, a tempestade, a bandeira e a terra à vista. Neste caminho, o protagonista passa por sonhos delirantes e autoconhecimento.

"É uma coleção super pessoal. Estou confinado desde o ano passado, saí de casa duas vezes: para gravar o filme e fazer as fotos do lookbook", falou Igor Dadona em entrevista.

Por isso, quis fazer uma reflexão, contar um pouco desses altos e baixos de emoções que passamos nesse último ano".

Para isso, Igor mostrou looks que pareciam dobraduras. São ternos com com maxi poás, xadrez em preto e branco e florais arroxeados e avermelhados. Peças bem estruturadas cuja rigidez eram quebradas com acabamento acetinado. Tricôs oversized com mistura de cores sólidas trouxeram maciez para a coleção. Entre os acessórios, chapéus triangulares, semelhantes a barquinhos de papel, feitos com dobradura em tecido pela artista Mari Midori. Nos pés, galochas complementavam os visuais.

Ronaldo Silvestre

O estilista Ronaldo Silvestre mostra que a máquina de costura é a sua arma de luta pela igualdade e transformação social através da moda. Para isso, usou retecidos e algodão com tingimentos naturais em sua coleção "Conspiração", processo que aprendeu quando estava na faculdade. "Não tinha dinheiro para comprar tecidos. Então pedia para as tecelagens, para lojas. Então, o resíduo dessas confecções eram a minha matéria-prima", disse o artista após a exibição do vídeo.

Na coleção, Ronaldo procura fazer uma desconstrução de uniformes urbanos: o macacão utilitário surge, primeiro, em sua silhueta comum para, no próximo modelo, ser reconstruído com comprimento pantacourt e mangas balonês. Os vestidos finos, com transparências, surgem combinadas com papete com salto feito pela marca Rider. A jaqueta utilitária, com capuz, ganha aplicações de flores em jeans. Tudo isso em uma alusão à sua família.

Minha mãe desmanchava uniformes da mineradora para fazer roupas que eu pudesse vestir".

SANKOFA: Az Marias

A história da rainha Nzinga foi o ponto de partida da marca carioca Az Marias, da estilista Cintia Felix. A personagem histórica foi rainha reinante do Reino Dongo entre 1624 e 1626. Foi uma importante estrategista militar e política durante a invasão portuguesa nas regiões que, atualmente, são a Angola.

Quis celebrar uma mulher que foi uma rainha-guerreira, porque quero transformar as mulheres que vestem as nossas roupas em rainhas-guerreiras".

Para contar essa história, a marca usou o turbante como coroa e peças com tecidos com bandeiras de países africanos, jaquetas jeans com o rosto de Nzinga bordado. Tudo isso proveniente de resíduos têxteis. "A gente quer trabalhar com os corpos reais, as que estão nos vendo nesse momento", afirmou a estilista.

SANKOFA: Naya Violeta

A estilista goiana procurou mostrar um pouco da cultura negra de seu estado-natal com a coleção "Foguete".

Que fala sobre fogo do Xangô, o fogo da vida. Nesse momento é importante porque precisamos acreditar no fogo".

A chama ardente é representada pelo dourado, presente nos cabelos, nos dedos, no pescoço e nos sapatos dos modelos. Essa riqueza complementava os looks minimalistas, com camisões amplos, saias compridas e blusas oversized que vestem corpos femininos e masculinos. O contraste está presente no brilho dos acessórios com o branco com estampa em cores pasteis que, por sua vez, batem de frente com os itens em cores sólidas como o vermelho e o azul.

"A moda está passando por uma transformação. Esse processo de empretecimento é importante para que haja outras Nayas Violetas, que mais mulheres goianas também estejam no SPFW", complementou a estilista.

Isabela Capeto

As PANCs, plantas alimentícias não convencionais, foram a inspiração da nova coleção de Isabela Capeto. "Elas são um novo olhar sob coisas que estavam próximas da gente, mas de uma maneira que nunca havíamos visto", falou a estilista em entrevista após a exibição de seu fashion film. A ideia reflete nos visuais mostrados no styling:

São peças que já conhecíamos, mas combinadas de maneiras diferentes do que poderiam ser propostos".

Assim, a marca montou looks para dançar, com saias rodadas, com miçangas e bordados para pesar e fazê-las flutuar durante um rodopio. O crochê aparece aplicado em blusas de algodão e jeans. Estampas gráficas convivem em harmonia com elementos botânicos e cores sólidas. Os anos 1970 também são representados no uso de maxi óculos e na iconografia do Flower Power.

"Essa coleção é uma renovação do meu trabalho. Continuam tendo os meus bordados, miçangas, aplicações, rendas, mas de uma nova maneira", comentou Isabela Capeto.

Martins

O estilista Tom Martins bebeu de diversas referências jovens e descoladas para criar uma coleção acessível — tanto visualmente, já que ele traz elementos que agradam jovens e modernos, como em relação ao tamanho. A marca procura vestir diversos corpos tendo os tamanhos únicos e numerações 1, 2 e 3, que não seguem o padrão da indústria. Se é masculino ou feminino? Você decide.

O estilo kinderwhore, que mistura elementos infantis como mangas bufantes e sapatos Mary Jane com o punk rock, aparece nas peças de Tom em vestidos com plissados, mas com a cintura deslocada, abaixo do quadril. O comprimento curtinho é combinado com saias volumosas. A obra de Henri Matisse, por sua vez, aparece na paleta de cores da coleção. Por fim, o filme "Laranja Mecânica" inspirou uma estampa que retrata o tratamento experimental sofrido por Alex na obra de 1971.

Elementos que bombam na internet, como o tie-dye, que virou figurino da pandemia, apareceram na passarela filmada de Tom Martins. Isso sem falar nos gatos — do estilista e de seus amigos.

"No confinamento, fiquei muito próximo do meu bicho. Pedi para pessoas que eu conhecia que também têm gatos para me mandar fotos para criarmos uma estampa", contou o estilista em uma entrevista após a apresentação. O resultado foi uma jaqueta que une o kistch e o moderno.

Modem Studio

A coleção primavera-verão 2022 da Modem foi uma revisitação à essência da marca, retomando modelos conhecidos de outras temporadas, mas melhoradas, evoluídas, e em uma cartela de cores mais ampla do que o estilista Andre Boffano costumava trabalhar. "Para mim, foi um grande desafio estar criando nesse momento e foi necessário ir em cima do histórico da marca", disse o artista em entrevista após a exibição. "Poder criar já é um ato revolucionário, ainda mais no Brasil, um país onde a criação e a cultura são cada vez menos valorizadas. Somos, de uma certa forma, sobreviventes".

As formas amplas com cintura marcada, comprimentos mini e sobreposições de materiais retomam o organic-clean, "que quase flerta com o minimalismo", sumariza Boffano. Mas também combina tecidos leves com estruturados, diferentes tipos de pontos e formas elaboradas de tricôs. Tudo isso de uma maneira versátil, que possa ser usado também em dias quentes.

Porém, a volta à essência não quer dizer que a Modem deixou de mudar. "Pela primeira vez, usamos modelos masculinos nas divulgações para poder mostrar essa versatilidade das roupas", comentou Boffano. "Já estamos tão presos com as limitações com matéria-prima, confecção, então não quis me limitar a um gênero." Em relação a paleta de arco-íris, o que era incomum na marca, é para trazer um respiro aos dias que estamos vivendo.

Depois dessa tempestade que estamos vivendo com esse governo genocida, a gente merece um arco-íris no final disso tudo".

Triya

Triya resolveu usar uma imagem que já parecia saturada: a da artista Frida Kahlo. Ela já esteve em diversas camisetas, porta-copos e ecobags, mas agora figura também cangas, saídas de praia, maiôs e biquínis da marca, em uma colaboração oficial com a instituição do governo mexicano que detém os direitos sobre a imagem e a obra da artista.

"Sempre fui muito apaixonada pelo trabalho dela, ela sempre foi uma inspiração para mim. Mas, dessa forma, em que as estampas são de uma colab oficial, nunca pensei. É um sonho esse trabalho", falou a estilista Isabela Frugiuele após a exibição do vídeo.

Porém, diferente do que víamos nos últimos anos, mais do que apenas o rosto de Frida, a marca também a colocou com asas de borboleta e ao lado de animais como onças. Elementos das obras da mexicana, como o coração sagrado, surgem como estampas e padrões em biquínis com um ombro só e peças únicas. Babados, tão presentes nos vestidos da artista, também fazem parte da modelagem de saídas de praia e tops.

A gente quis transportar muito para o sonho. Ela mistura muito a obra com a vida como uma forma de escapar. A gente tentou trazer esse lado para a coleção, porque também queremos escapar".

Another Place

"Welcome to Another Place". O fashion film da marca Another Place "Unlock" destranca um mundo noturno, cyberpunk cuja moda é sem gênero, em que o futuro e o passado se encontram para dançar na boate e desfilar em uma esteira.

A etiqueta de Rafael Nascimento continua apostando em modelagens modernas, sensuais, que deixam o corpo à mostra e flertam com o fetichismo.

Há vestidos de tela com recortes estratégicos, calças de boca larga, blusas puffs em preto e com estampa abstrata. Jaquetas e bermudas de vinil surgem tanto no pretinho básico como no vinil verde limão. Tudo isso ao som de uma trilha que resgata os anos 1980, mas também sampleia o k-pop.