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Por que rua no Centro de São Paulo está entre as "mais legais do mundo"?

Nossa entrevistou comerciantes e visitantes da rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro, no Centro de São Paulo, para falar sobre ranking feito pela revista britânica "TimeOut" - Keiny Andrade/UOL
Nossa entrevistou comerciantes e visitantes da rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro, no Centro de São Paulo, para falar sobre ranking feito pela revista britânica "TimeOut"
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Gustavo Frank

De Nossa

22/06/2021 04h00

Há aproximadamente uma semana, a revista britânica "TimeOut", publicação conhecida por ser uma guia de viagens ao redor do mundo, colocou a Três Rios em sua lista das ruas "mais legais do mundo" — no ranking, ela ocupa o 7º lugar. Entre as justificativas, destaca-se a identidade "diversificada e em constante evolução" e alguns dos pontos turísticos que cercam o local, como a Pinacoteca, por exemplo.

Mas o que torna a rua no Centro de São Paulo, mais especificamente no bairro do Bom Retiro, tão legal assim? Para entender, Nossa foi até lá procurar por respostas.

Quem chega no endereço dá de cara com uma das tradicionais ruas na região. Os arranha-céus modernos que tomam conta da capital paulistana, na Três Rios, são inexistentes. Os prédios, em sua maioria, não passam dos dez andares e agregam a arquitetura histórica de outras construções que também fazem parte do restante dos bairros ao redor, como República e Santa Cecília.

O movimento é constante. Se vê de tudo: jovens, adultos e idosos coreanos; judeus com suas tradicionais quipás; colombianos falando entre si em espanhol; e, claro, brasileiríssimos misturando-se entre todos esses — como já é de nosso hábito.

A Casa do Povo

Fachada da Casa do Povo na rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Fachada da Casa do Povo na rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro
Imagem: Keiny Andrade/UOL

No coração da Três Rios fica a Casa do Povo, centro cultural erguido logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, e fundado por judeus a fim de dar continuidade à cultura judaica laica e humanista que o nazi-fascismo tentou silenciar na Europa.

O prédio moderno do arquiteto Ernest Carvalho Mange é, como diz a "TimeOut", "lendário".

"A gente fala que é a rua mais legal faz tempo! Demorou para estar em uma lista", diz Mayara Vivian, coordenadora de ação comunitária da Casa do Povo. "Parte do bairro ainda não entende a sua diversidade. Temos desde pessoas que criaram suas fábricas e lojas aqui até imigrantes que chegaram ontem. Isso é o que deixa a rua tão interessante."

Mayara Vivian, 31, coordenadora de ação comunitária da Casa do Povo - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Mayara Vivian, 31, coordenadora de ação comunitária da Casa do Povo
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Se a gente gentrifica e constrói prédios padronizados, a partir de um processo de "higienização" e exclusão, vamos ser só mais uma rua chata e cheia de gente sem graça."

Quando menciono os comentários, que confundem o termo "mais legal" com a "mais bonita", Mayara opina: "A rua mais bonita pode até ser a Oscar Freire, por exemplo, mas a gente não tem nem dinheiro para comprar um café lá. Então, se ela é 'legal e bonita' para uma parte pequena da população, é porque não é legal e bonita. É só fachada."

"É uma rua internacional"

David Ben Avram, 75, dono da lanchonete "Burikita" - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
David Ben Avram, 75, dono da lanchonete "Burikita"
Imagem: Keiny Andrade/UOL

A poucos metros da Casa do Povo, David Ben Avram está sentado em uma das primeiras mesas para quem entra no "Burikita", lanchonete cheia de guloseimas iugoslavas. O salgado que dá nome ao estabelecimento é exaltado pelo senhor, de 75 anos, de bigode farto e cabelo dividido ao lado: "É uma massa folheada recheada com queijo branco. Tudo fabricado aqui mesmo".

O local em questão, hoje administrado por ele, nasceu na cozinha de casa com a sua mãe, Matilda, que estampa um retrato que decora o ambiente ao lado do marido, Avraham — ambos da Iugoslávia, atualmente no território da Sérvia.

"Nós temos história. Meus pais chegaram há 76 anos e o Burikita está aqui há 60", conta ele, que é de família judaica e, assim como toda a família, nasceu na Iugoslávia. "Não conheço o mundo inteiro, mas a Três Rios é realmente interessante."

É um local de várias raças: italiano, coreano, judeu, peruano, boliviano. É uma rua internacional".

Seu irmão, Miki, que tinha uma ótica também na rua, complementa: "Outros bairros podem até ter muitas coisas, mas aqui temos de tudo o que você precisa: supermercados coreanos, brasileiros, muitas lanchonetes, vários tipos de lojas".

David Ben Avram ao lado do irmão, Miki - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
David Ben Avram ao lado do irmão, Miki
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Mistura de origens

A coreana Jin Sook Ahni ao lado da amiga e colega, a paraguaia Nancy Elizabeth - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
A coreana Jin Sook Ahni ao lado da amiga e colega, a paraguaia Nancy Elizabeth
Imagem: Keiny Andrade/UOL

A paraguaia Nancy Elizabeth, de 35 anos, conheceu Jin Sook Ahni, 52, enquanto caminhava na rua Três Rios e observou uma placa anunciando que a lanchonete de comida coreana precisava de uma nova funcionária.

A gente concorda que a Três Rios é uma das ruas mais legais do mundo por causa da movimentação que temos aqui", diz Nancy.

Jin, que é dona do estabelecimento há 14 anos, reforça que, além da miscigenação presente no local, a alegria dos brasileiros é um dos pontos cruciais para o sucesso da rua.

"São todos muito educados", opina ela com o sotaque carregado. "É muita alegria. Tenho um filho pequeno e gosto muito que ele aprenda tudo aqui".

Jin Sook Ahni e Nancy Elizabeth - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Jin Sook Ahni e Nancy Elizabeth
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Tecendo historias

Maria Aparecida Merlini e Sibecio Alves Santos (Berlim)  - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Maria Aparecida Merlini e Sibecio Alves Santos, conhecido como Berlim
Imagem: Keiny Andrade/UOL

As lojas de tecido são citadas como um destaque pela "TimeOut", que se refere a elas como um "polo para os jovens designers de São Paulo que procuram pelo material para as suas criações".

O argumento é reforçado por Sibecio Alves Santos, de 46 anos, mais conhecido como Berlim, que trabalha em uma delas.

"A loja existe há mais de 30 anos", explica. "Muitos jovens vêm atrás de tecidos para fazerem roupas. Vejo isso há 25 anos trabalhando aqui. Além disso, a Três Rios é cheia de cultura por todos os lados".

Maria Aparecida Merlini, a funcionária mais antiga da loja de tecidos, não hesita em falar como a rua é "maravilhosa".

"Eu acho maravilhoso, tudo aqui e maravilhoso", diz repetidas vezes. "O Bom Retiro como um todo, na verdade. Moro aqui há 30 anos, meus filhos estudaram pela região, eu trabalho aqui. Minha vida toda está nessa região".

Nascido e criado na Três Rios

Os advogados Caroline Lourenço, 32, e Washington Rocha, 28 - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Os advogados Caroline Lourenço, 32, e Washington Rocha, 28
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Na Praça Coronel Fernando Prestes, que dá fim à Três Rios, os advogados Caroline Lourenço, 32, e Washington Rocha, 28, caminham com sua dupla de goldens retriever: Ted e Moa.

"Tem de tudo aqui, a diversidade é muito grande", diz Carol, que mora em uma das paralelas à Três Rios. "Comida, bebida... Perto do Teatro, da Casa do Povo. A gente costuma vir aqui para passear com os cachorros".

Washington, que nasceu e até hoje mora na rua, entretanto, levanta também o perigo que cerca o local.

"Depois que a prefeitura fez um hospital aqui perto, achei que mudaria. Eles inauguraram o lugar, mas não acolheram, de fato, as pessoas de rua. Elas ficam vagando por aí sem qualquer estrutura. Muita gente reclamando que tem medo de sair."

O "lado B" da Três Rios é reforçado por Caroline, que, ao contrário dos outros entrevistados, afirma que a falta de infraestrutura da rua, como a iluminação, por exemplo, deixa a desejar.

"É perigoso à noite", afirma. "Sempre tem postes que dão problema. [...] E tem gente que é usuário e morador de rua que a gente até conhece, mas tem uns que não. Alguns deles saem da região da Luz e acabam roubando celular. Na verdade, o que você tiver, eles roubam".

A outra realidade

Apesar da riqueza de diversidade que a rua Três Rios acolhe, com o vaivém de diversas miscigenações, como aponta a "TimeOut", a pobreza também é escancarada, assim como no restante de todo a região central de São Paulo.

De acordo com o último censo levantado pela Prefeitura de São Paulo, em 2019, o número de pessoas que vivem nas ruas de toda a cidade saltou de 15 mil para 24 mil no período de 2015 a 2019. No Centro, a falta de assistência social a esses indivíduos é ainda mais evidente pela proximidade à região conhecida como Cracolândia, na Luz, em que diversas ações policiais são realizadas constantemente e resultados não são entregues à população, aos comerciantes e, principalmente, aos moradores de rua.

Como noticiou a Folha de S. Paulo, antigos albergues que serviam de moradia para parte dos frequentadores da Cracolândia foram desapropriados e concretados e devem ser demolidos nos próximos meses. O serviço municipal mais próximo dos usuários, que ficava na rua Helvétia, chamado de Atende 2, foi fechado e derrubado no início da pandemia.

A Casa do Povo, citada no início desta matéria, realiza projetos semanais de assistência a essas pessoas, desde a distribuição de cestas básicas até oficinas. Para maiores informações sobre os serviços, acesse este link.