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Brasileira vira mochileira após aposentadoria: "Saí sem data para voltar"

Marcia Reis em Congonhas, Minas Gerais - Arquivo pessoal
Marcia Reis em Congonhas, Minas Gerais Imagem: Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração com Nossa

31/03/2021 04h00

Após trabalhar por três décadas, a brasileira Marcia Reis se aposentou aos 51 anos e, algum tempo depois, se sentiu infeliz.

"Quando eu estava com 55 anos, minha filha mais nova saiu de casa para cursar a faculdade e fiquei sozinha, sem muito o que fazer. Comecei a me ver entristecida e enfiada dentro de casa. Nada me dava prazer. E um belo dia, comecei a chorar muito. Percebi que estava deprimida", conta.

A única coisa que me veio na mente foi viajar. Mas eu não queria viajar cinco dias. Queria sair sem data para voltar. Mas, como sou aposentada, pensei que meu dinheiro não seria suficiente para uma viagem longa".

Marcia Reis descobriu as maravilhas de mochilar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis descobriu as maravilhas de mochilar
Imagem: Arquivo pessoal

Buscando soluções para superar esta encruzilhada, Marcia adotou o estilo de vida dos mochileiros: viajar sem gastar muita grana, se hospedando em hostels e se virando para comer e passear de maneira econômica.

"Pesquisando na internet, descobri que existia esta forma de viajar, que era diferente do que eu tinha visto na minha vida inteira", afirma.

Seu primeiro destino foi Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, que visitou sozinha em 2018. "Comecei indo para pertinho de casa [na época, ela morava na cidade fluminense de Porto Real], para sentir como seria a experiência. Reservei duas noites em um hostel barato de Arraial, com diárias de R$ 25".

Marcia Reis no Rio de Janeiro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis no Rio de Janeiro
Imagem: Arquivo pessoal

A primeira dificuldade, porém, não demorou para aparecer: Marcia levou uma mala de rodinhas, equipamento com o qual estava acostumava a viajar ao longo da vida. Mas viu que, ao viajar sozinha e ficar nos apertados hostels, este tipo de mala se tornava um incômodo. "Foi um transtorno arrastá-la para cima e para baixo", lembra.

Dentro do hostel, porém, ela interagiu com uma argentina que estava conhecendo o Brasil com um grande mochilão — e percebeu que seria prático adotar o mesmo estilo da "hermana".

"No mês seguinte, fui para Curitiba e, lá, comprei minha mochila. Foi uma coisa libertadora", afirma. "E, com a experiência do hostel, descobri que podia viajar sozinha. Soube que, neste tipo de hospedagem, eu sempre teria companhia".

Marcia Reis em Canela, Rio Grande do Sul - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis em Canela, Rio Grande do Sul
Imagem: Arquivo pessoal
Marcia Reis em Diamantina, Minas Gerais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis em Diamantina, Minas Gerais
Imagem: Arquivo pessoal

Marcia diz que, no começo, sentiu dor nas costas ao carregar o mochilão (que chegou a ter 14 quilos), mas que logo se adaptou. "Aprendi a ser minimalista, carregando só o que é necessário".

E, depois de Curitiba, enfileirou diversas viagens no melhor estilo mochileiro, visitando destinos como Foz do Iguaçu (PR), Caraguatatuba (SP), Ubatuba (SP), Vila Velha (ES), Diamantina (MG), Morro de São Paulo (BA), Salvador (BA) e Maceió (AL). "Não quis parar mais", diz.

Para marcar esta nova fase da sua vida, ela criou o perfil @coroamochileira cujo lema é: "para mostrar às mulheres que podemos conhecer o mundo na 3ª idade com economia e prazer".

Idade não importa

Marcia Reis em Aracaju, Sergipe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis em Aracaju, Sergipe
Imagem: Arquivo pessoal

Nos hostels em que se hospeda, Marcia (que está hoje com 57 anos) quase sempre se depara com viajantes de faixa etária mais baixa do que a sua.

"No começo, eu tinha receio de chegar e me ver no meio daquela galera com menos de 30 anos. E eu aqui com quase 60. Mas sempre fui extremamente bem recebida. Notei que fico muito feliz em conhecer pessoas completamente diferentes da minha realidade", conta.

Interagir com os jovens abre a minha mente e descortina novos horizontes para mim. Provoca uma transformação interna. Eu amo isso".

Ela relata que já fez grandes amigos e que, constantemente, sai para passear com eles. "Sinto, nas viagens, que as pessoas gostam de mim por quem eu sou. Muitos jovens dizem que me admiram, por eu ser quase sessentona e estar ali me divertindo, vivendo e curtindo novas experiências. Isso me faz muito bem".

E dormir em habitações compartilhadas? É um desafio?

"Nunca foi um problema dormir nestes quartos. Já fiquei em quartos só com mulheres e também mistos. E sempre foi tranquilo. Eu durmo rápido, então não tenho problema com o ronco de outras pessoas".

Marcia Reis trabalhou em hostel de Vila Velha - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis trabalhou em hostel de Vila Velha
Imagem: Arquivo pessoal

E ela se adaptou tão bem a esta nova realidade que começou a realizar trabalhos voluntários nos hostels em troca de hospedagem.

"Já trabalhei na recepção de hóspedes, preparei café da manhã e fiz a parte da limpeza", relata. "São trabalhos que geralmente ocupam cinco horas do dia, deixam a hospedagem mais em conta e geram uma troca de experiências bem legal".

Marcia Reis em Diamantina, Minas Gerais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcia Reis em Diamantina, Minas Gerais
Imagem: Arquivo pessoal

E, com parte do dinheiro que consegue economizar, Marcia, logicamente, faz atividades de turismo. Quando esteve em Canela (RS), por exemplo, ela contratou um tour que a levou até o incrível Parque Nacional de Aparados da Serra.

Além disso, como boa mochileira, ela sempre busca atrativos turísticos que sejam gratuitos nas cidades que visita — e não tem medo de bater muita perna ou pegar transporte público para chegar até eles.

E, para se locomover entre cidades, já pegou até carona.

"Uma vez, peguei carona no caminhão de uma pessoa conhecida para ir de Recife a Belo Horizonte", relata. "Foram quatro dias de viagem".

Atualmente em casa por causa da pandemia, a mochileira diz que não pretende parar de explorar novos lugares tão cedo. "Um de meus próximos objetivos é fazer um trabalho voluntário em um hostel de Búzios e, também, mochilar pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Descobri que a minha idade não importa. Sempre vou ter um lugar novo para conhecer. E percebi que sou feliz com este estilo de vida".

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado, a localização da sexta foto da matéria é Aracaju, em Sergipe.