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Chile impõe medidas mais duras e taxa de R$ 2 mil para viajantes do Brasil

Paula Daza, Subsecretária de Saúde Pública do Chile, anunciou as novas medidas que valem a partir de quinta (25): preocupação com a variante de Manaus - Alejanda de Lucca V.
Paula Daza, Subsecretária de Saúde Pública do Chile, anunciou as novas medidas que valem a partir de quinta (25): preocupação com a variante de Manaus Imagem: Alejanda de Lucca V.

Luciana Taddeo

Colaboração para Nossa, de Buenos Aires, Argentina

22/03/2021 10h35

O Chile avança como nenhum outro país latino-americano na vacinação contra a covid-19, com cerca de 30% da população imunizada com pelo menos uma dose, mas ainda não consegue controlar a expansão dos contágios. Vários setores do país estão em quarentena, o que também limita o deslocamento entre os municípios. Mas o governo de Sebastián Piñera ainda permite a entrada de estrangeiros pelo Aeroporto Internacional Arturo Merino, em Santiago, e de chilenos vindos do exterior por esta e outras fronteiras, desde que cumpram quarentena na chegada.

A detecção da cepa de Manaus em viajantes oriundos do Brasil acendeu, porém, um novo alerta nas autoridades do país, que lida com uma ocupação de quase 95% de UTIs e sabe que uma variante com mais potencial de contágios complicaria ainda mais o cenário sanitário. Por isso, a partir da próxima quinta (25), quem quiser ir do Brasil para o Chile, além do PCR prévio e da quarentena obrigatória, também terá que pagar cerca de 400 dólares antes de embarcar.

O valor será cobrado para custear três dias de isolamento obrigatório em um hotel sanitário, o traslado para o local e o PCR na chegada a Santiago. Em entrevista exclusiva a Nossa, a Subsecretária de Saúde Pública do Chile, Paula Daza, explicou a medida, que durará pelo menos um mês.

Paula Daza, Subsecretária de Saúde Pública do Chile - Alejandra De Lucca / Minsal - Alejandra De Lucca / Minsal
Paula Daza, Subsecretária de Saúde Pública do Chile
Imagem: Alejandra De Lucca / Minsal

Por que a decisão de hoje especificamente com o Brasil? A cepa de Manaus está chegando ao Chile? É um problema atual?
De fato, nós fazemos aqui no Chile um acompanhamento de viajantes que chegam ao país. Todos têm que vir com um PCR prévio negativo e fazer uma quarentena, além de ir informando, por meio de uma plataforma, quando têm sintomas ou se estão doentes. Isso tem que ser feito durante 14 dias.

Além disso, no aeroporto de Santiago nós fazemos a coleta aleatória de PCR de uma porcentagem de estrangeiros. E detectamos casos positivos, particularmente de passageiros que provêm do Brasil, e em alguns deles detectamos a cepa P1, que é a de Manaus. Pelos antecedentes epidemiológicos que temos, estudos de vocês e internacionais, é uma variante mais contagiosa, assim como a do Reino Unido.

Como está a situação das fronteiras chilenas hoje?
As fronteiras estão abertas para os chilenos viajarem para o exterior e para os estrangeiros [entrarem, mas exclusivamente pelo Aeroporto Internacional de Santiago, por isso fizemos restrições na chegada ao Chile. Além do PCR negativo para a viagem, todas as pessoas que chegarem do Brasil, pela situação de contagiosidade desta cepa, terão que ir a um hotel sanitário, onde será feito um PCR. Se der negativo, eles terminam seu isolamento de 10 dias em sua casa ou lugar de residência, mas se der positivo, eles vão precisar se trasladar para uma residência sanitária, que são lugares onde as pessoas ficam isoladas durante 10 dias.

Paula Daza fala durante cerimônia de chegada do segundo carregamento de vacinas para o Chile, em 13 de janeiro de 2021 - 	Alejandra De Lucca / Minsal - 	Alejandra De Lucca / Minsal
Paula Daza fala durante cerimônia de chegada do segundo carregamento de vacinas para o Chile, em 13 de janeiro de 2021
Imagem: Alejandra De Lucca / Minsal

E elas não poderão sair deste hotel sanitário por pelo menos 72 horas?
Isso. Todas as pessoas que chegam ao Chile, independente do país que venham, têm que fazer quarentena de 10 dias. As que vierem do Brasil, particularmente, que é onde encontramos esta variante, terão que ir para este hotel sanitário, onde estarão 3 dias esperando o PCR. Em geral, o PCR chega em 24, 48 horas, mas, mesmo assim, terão que ficar isolados por 3 dias para serem monitorados no caso de sintomas. Se o PCR der negativo, podem sair e completar os 10 dias de isolamento, já que podem ter sintomas depois de 72 horas.

Esses hotéis eram usados para turismo e agora estão dedicados a esses isolamentos?
Sim. Nós já temos convênios para as residências sanitárias para pessoas com covid-19 e contatos estreitos, são mais de 150 hotéis contratados e pagos pelo Estado para o isolamento efetivo. Estes especificamente para viajantes com os quais fazemos contratos são hotéis normais, que serão administrados pela autoridade sanitária para garantir as medidas sanitárias, quer dizer, cada um em seu quarto, sem poder sair, e com controle de profissionais de saúde para o caso de sintomatologia, de ficarem doentes ou para qualquer monitoramento. O mais importante é que eles serão pagos pelos viajantes. Tanto o traslado, o PCR, como estes 3 dias de hospedagem são pagos por quem vier do Brasil, seja chileno ou estrangeiro.

Chilena mostra o cartão de vacinação contra a covid-19. País pretende imunizar 80% da população até julho - Claudio Santana/Getty Imagens - Claudio Santana/Getty Imagens
Chilena mostra o cartão de vacinação contra a covid-19. País pretende imunizar 80% da população até julho
Imagem: Claudio Santana/Getty Imagens

Há circulação comunitária da cepa de Manaus hoje no Chile?
A maioria dos casos que temos são de viajantes, de chilenos que viajam por diferentes motivos, férias, trabalho, e alguns voltam infectados, ou estrangeiros residentes que entraram no Chile. Nós fazemos o sequenciamento [genético] principalmente de viajantes, ou de alguns casos particulares que encontramos. Mas não podemos afirmar se há, porque não fazemos sequenciamento generalizado no país. Estamos fazendo em viajantes e em alguns pacientes que entram em UTIs e têm alguma relação com viajantes.

O ministro da Saúde afirmou que houve queda nas internações de idosos, mas que mais jovens estão sendo internados. Hoje, a ocupação de camas de UTIs no Chile chega a 94%. A que atribui isso?
O aumento dos casos aconteceu principalmente pelo relaxamento das medidas sanitárias durante o verão. Depois de um ano de pandemia, houve o que se chama de "fadiga pandêmica", que faz parte do esgotamento das pessoas. Em dezembro, também tivemos muitas atividades de fim de ano, sociais, as pessoas saíram durante o verão, e houve diminuição das medidas de autocuidado. E em março há o reencontro com pessoas do trabalho, atividades sociais, maior mobilidade nas grandes cidades e isso gerou um aumento de contágios.

Esperando isso, fizemos um "plano março", com o aumento dos testes, uma estratégia de antígenos nos centros de atendimento para fortalecer o diagnóstico precoce, fortalecemos a traçabilidade em todo o país e o isolamento em residências sanitárias, além da rede assistencial para trasladar pacientes entre regiões em caso de necessidade.

O que é o passaporte sanitário que será exigido?
Hoje em dia, nós exigimos para todo mundo que entra no Chile, independentemente do país de onde venha e da nacionalidade, esse passaporte sanitário, que é uma app em que é preciso colocar nome, dados, antecedentes sintomáticos, contato com alguém que teve covid-19, país de procedência, dizer para onde se dirige e anexar o PCR negativo.

Este passaporte se conecta com nossa rede epidemiológica de casos positivos e, assim, cruzamos informações. A diferença vai ser que, a partir de quinta, para baixar esse passaporte sanitário, quem vier do Brasil ou tiver estado no Brasil nos últimos 14 dias terá que pagar previamente uma taxa, de aproximadamente 418 dólares, pela estadia no hotel sanitário, pelo PCR da chegada e pelo traslado ao hotel sanitário.

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Apesar do avanço na vacinação, as medidas mais duras visam barrar os índices de transmissão e a proliferação de novas cepas
Imagem: Marcelo Hernandez/Getty Images

A ideia é desincentivar as viagens para o Brasil?
A ideia é que as pessoas viajem menos para o exterior em geral, porque a situação epidêmica no nosso país é complexa e as viagens internacionais aumentam a circulação de variantes de um país para o outro. O Brasil obviamente tem esta variante, mas provavelmente há outros que não fazem tanto sequenciamento como vocês ou nós e poderiam ter novas variantes que não conhecemos ou encontramos.

Então, o chamado é para viajar somente o estritamente necessário nas próximas semanas, até termos uma grande porcentagem de população vacinada — esperamos chegar a 70, 80% até 30 de junho. Temos que continuar sendo bastante estritos com as medidas sanitárias pelo menos nestes três a quatro meses que faltam, dependendo do avanço da pandemia.

Essa necessidade de quarentena também desincentiva o turismo interno.
Hoje o turismo estrangeiro é bem pouco, porque fazer uma quarentena de 10 dias não é animador. Em geral os estrangeiros vêm ao Chile por situações particulares de trabalho ou familiares. Mas esta situação com o Brasil torna a situação ainda mais complexa, por isso precisamos implementar medidas duras, porque é uma variante bastante contagiosa. Isso nos faz ser mais rigorosos e restritivos, e ir buscar com um PCR todo mundo que chegar ao Chile.