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Suicídios e assassinatos: hotéis macabros em Los Angeles atraem curiosos

A entrada do icônico Cecil Hotel, de Los Angeles - Fernanda Ezabella
A entrada do icônico Cecil Hotel, de Los Angeles Imagem: Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella

Colaboração para Nossa, de Los Angeles (EUA)

28/02/2021 04h00

Dezenas de pessoas tiravam fotos da fachada de um hotel no centro de Los Angeles, na tarde ensolarada do último domingo (21). Outros curiosos aproveitavam uma pequena entrada para espiar o lobby através de suas enormes portas de vidro. Mas ninguém estava ali à espera de alguma celebridade, pelo menos de nenhuma com vida.

Eles queriam ver de perto o próprio Cecil Hotel, estrela de um novo seriado da Netflix. A série reconta os últimos dias de Elisa Lam, uma turista canadense de 21 anos que sumiu nas dependências do hotel de 15 andares, em 2013.

A fama macabra do hotel vem de longe. O edifício acumula uma longa lista de suicídios e assassinatos desde sua abertura em 1924, além de ter servido de abrigo a serial killers infames nos anos 1980, como Richard Ramirez, o Nightstalker, também alvo de outro seriado da mesma plataforma.

Turistas tiram fotos da lateral do Cecil Hotel, de Los Angeles - Fernanda Ezabella - Fernanda Ezabella
Turistas tiram fotos da lateral do Cecil Hotel, de Los Angeles
Imagem: Fernanda Ezabella

"Queria ver se sentia alguma coisa. Até agora, nada", disse rindo Richard Prado, 22 anos, que veio com um amigo de Bakersfield, onde trabalham numa fazenda de alface. "Queria saber por onde Elisa esteve, experimentar o lugar. Quero ser investigador criminal um dia."

O Cecil Hotel está fechado para renovações desde 2017, quando funcionava com outro nome, Stay on Main, uma tentativa de dar cara nova e moderna ao espaço, considerado um antro de drogas e prostituição nos anos 1980.

Mas seu letreiro vertical com o nome original continua lá, assim como uma enorme propaganda pintada na lateral do prédio, anunciando "baixas diárias" e 700 quartos. O anúncio pode ser visto de vários lugares da Main Street e surge proeminente no videoclipe que o U2 gravou de "Where The Streets Have No Name", no telhado de uma loja vizinha, em 1987.

Hotéis de terror

O Cecil Hotel, porém, não é o único com um passado sangrento no centro de Los Angeles. Existe até mesmo uma agência especializada na história da cidade que dedica um passeio apenas para os crimes reais que aconteceram nos hotéis e estabelecimentos da região.

Kim Cooper fingindo se desfazer de evidências no buraco da lavanderia do Barclay Hotel - Richard Schave/Esoturic - Richard Schave/Esoturic
Kim Cooper fingindo se desfazer de evidências no buraco da lavanderia do Barclay Hotel
Imagem: Richard Schave/Esoturic

"Quando começamos a fazer tours sobre crimes em 2007, os hotéis históricos eram um foco óbvio. São ricos em histórias fascinantes e às vezes comoventes. E, em muitos casos, seus lobbies ainda se parecem com os de 80 anos atrás", disse a Nossa uma das fundadoras da agência Esotouric, Kim Cooper, uma das historiadoras entrevistadas para o programa da Netflix sobre o Cecil Hotel e Elisa Lam.

O tour "Hotel Horrors & Main Street Vice" acontece três a quatro vezes por ano e já foi visto por cerca de 2 mil pessoas. No momento, a agência só realiza "passeios online", com bate-papos sobre lugares históricos de L.A.

Antes da pandemia, tour pelo Barclay Hotel lotava - Richard Schave/Esoturic - Richard Schave/Esoturic
Antes da pandemia, tour pelo Barclay Hotel lotava
Imagem: Richard Schave/Esoturic

Além do Cecil Hotel, Cooper leva seus convidados para ver o Barclay Hotel, a duas quadras dali, também na Main Street e fechado para hóspedes. Assim como parte do Cecil, o Barclay funciona apenas como residência para pessoas de baixa renda, atendendo a crescente população sem-teto da vizinha Skid Row. A região possui serviços para moradores de rua e tem centenas de tendas instaladas nas calçadas.

Mas não era nada assim na abertura do Barclay, em 1897, então chamado Van Nuys Hotel. O local trazia modernidades para a época, como um bar e restaurante frequentados pela alta classe. Até mesmo o presidente e a primeira-dama do país chegaram a visitá-lo.

O Barclay Hotel, de Los Angeles - Fernanda Ezabella  - Fernanda Ezabella
O Barclay Hotel, de Los Angeles
Imagem: Fernanda Ezabella

Uma série de mortes causadas no elevador e outros tantos suicídios, incluindo o de uma milionária recém-divorciada de Chicago, marcaram a história do hotel ao longo das décadas.

Assim como o Cecil, serial killers também se hospedaram aqui, o mais infame Vaughn Orrin Greenwood, que cortava a garganta de suas vítimas de orelha a orelha e bebia seu sangue. Ele foi condenado a prisão perpétua por nove assassinatos em 1977.

Atrizes e acrobatas

Entrada do Barclay Hotel, em Los Angeles - Fernanda Ezabella - Fernanda Ezabella
Entrada do Barclay Hotel, em Los Angeles
Imagem: Fernanda Ezabella

Mais histórias escabrosas são contadas no livro "The History of the Barclay Hotel", lançado em 2016. Mais recentemente, o lobby serviu de cenários para filmes, como "Inception" (2010) e "(500) Days of Summer" (2009).

"Minha história favorita do Barclay envolve um bêbado milionário enlouquecido que decidiu jogar pipoca no ar tentando simular uma tempestade de neve, antes de tentar matar outro hóspede que não achou suas palhaçadas divertidas", contou Cooper.

"Os detalhes do incidente foram amplamente relatados na época porque quase se tornou fatal, o que nos dá uma visão fascinante da vida cultural de Los Angeles de 1899."

Outra parada do "Hotel Horrors & Main Street Vice" é o St. George Hotel, a uma quadra do Barclay. Sua fama veio de três incêndios mortais em 1912, 1952 e 1982. "Os incêndios, separados por décadas, são uma ótima lente para discutir a mudança demográfica desta parte do centro", explica Cooper.

St. George Hotel, em Los Angeles - Fernanda Ezabella - Fernanda Ezabella
St. George Hotel, em Los Angeles
Imagem: Fernanda Ezabella

Em 1912, o hotel era habitado por atrizes e acrobatas, artistas dos populares teatros ao vivo do bairro. Em 1952, funcionava como residência de idosos, que corriam risco sempre que alguém dormia com o cigarro aceso. Já em 1982, o prédio era praticamente uma favela vertical, com prostituição e abuso de drogas.

Hoje, o espaço funciona como residência, administrado pelo Skid Row Housing Trust, fornecendo 172 unidades de cuidados de apoio para a comunidade.

"Não são histórias bonitas, mas nos ajudam a entender as pessoas que estiveram aqui antes de nós", lembra Cooper.

Podemos aprender muito sobre a cidade com essas pessoas anônimas, cujas vidas seriam um mistério completo se elas não estivessem no lugar errado, na hora errada."