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Mulher transforma vitória-régia no ingrediente principal de seus pratos

Dulce de Oliveira, mais conhecida como Dona Dulce, entre vitórias-régias - Christiany Yamada
Dulce de Oliveira, mais conhecida como Dona Dulce, entre vitórias-régias
Imagem: Christiany Yamada

Christiany Yamada

Colaboração para Nossa, de Alter do Chão (Pará)

11/02/2021 04h00

Símbolo da Amazônia, vitória-régia é comestível e integra receitas que vão do tempurá à moqueca nas mãos de Dulce de Oliveira

"Só de barco". Assim responde Dulce de Oliveira, mais conhecida como Dona Dulce, quando pergunto como chegar à sua casa. A paraense natural de Capitão Poço se mudou para o Canal do Jari, onde o Rio Tapajós encontra o Rio Amazonas, em Santarém, quando se casou com um nativo da região.

É uma viagem de uma hora e meia de Alter do Chão até Dona Dulce, que mora com o marido em uma palafita — construção de madeira elevada por estacas. "Eu chamo de casa de salto alto. E todas têm garagem", brinca.

A casa de palafitas de Dona Dulce - Christiany Yamada - Christiany Yamada
A casa de palafitas de Dona Dulce
Imagem: Christiany Yamada

Seu carisma é tão irresistível quanto a beleza de seu jardim aquático, que hoje conta com 212 troncos de vitórias-régias, cada um com várias folhas.

Hoje, Dona Dulce é referência no uso da vitória-régia na gastronomia e seus pratos costumam atrair pelo menos 20 pessoas do mundo inteiro de segunda a sábado até sua casa. Todas elas recebidas com uma bandeja com brownie, farofa, pipoca, rabanada, tempurá, geleia e "batata" frita. Tudo, porém, feito de vitória-régia.

Brownie de vitoria-regia servido com geleia feita com a pétala da planta e farofa de sementes - Christiany Yamada - Christiany Yamada
Brownie de vitoria-regia servido com geleia feita com a pétala da planta e farofa de sementes
Imagem: Christiany Yamada

Os sabores são surpreendentes. A rabanada é tão crocante como a feita com pão, mas mais macia. E assim como o tempurá e a "batata" frita — que na verdade são pedaços do palmito da planta empanados e fritos —, é mais sequinha que a versão tradicional. A pipoca também é ligeiramente mais crocante que a de milho amarelo.

Perguntada se há adição de chocolate ou cacau ao brownie, Dona Dulce só responde com um "para quê?", explicando em seguida que a cor marrom vem da semente da vitória-régia.

O experimento que deu certo

A paraense não imaginava, porém, que iria dar origem a um negócio tão inovador e bem-sucedido quando começou a cultivar a planta. Tudo começou, na verdade, no auge do seu aborrecimento com os vários animais, domésticos e silvestres, que destruíam seu jardim aquático.

Porque eu queria um jardim para ostentar um negócio diferente, né?", ri.

Com a curiosidade de uma cientista, resolveu observá-los, empunhando caneta e papel, até imitá-los e provar, ela mesma, a vitória-régia.

Detalhe da flor de vitória-régia no jardim de Dona Dulce - Christiany Yamada - Christiany Yamada
Detalhe da flor de vitória-régia no jardim de Dona Dulce
Imagem: Christiany Yamada

Dulce dedicou seu tempo a perceber quais animais comiam a planta e quais partes dela. "Quando o caule começa a entrar em decomposição, ele solta os espinhos e fica só o palmito. E as tartarugas comem isso. Então eu peguei um pedacinho e comi", conta, naturalmente.

"No segundo dia, aumentei o tamanho do pedaço. Em uma semana já estava comendo quase uma chave de caule de vitória-régia — o pecíolo, como é conhecido cientificamente. E foi assim que começou".

Ela ainda garante que, no início, não tinha ajuda de pesquisadores ou nutricionistas. "Foi tudo na observação e na coragem". Mas explica que parte do seu conhecimento veio da experiência como cozinheira da Marinha do Brasil, onde aprendeu que tudo que é comido por três animais de espécies diferentes é seguro para humanos.

Quiche e tempurá de vitória-régia - Christiany Yamada - Christiany Yamada
Quiche e tempurá de vitória-régia
Imagem: Christiany Yamada

Dona Dulce começou a servir os quitutes de vitória-régia em 2017, três anos após o início de seu cultivo, e afirma que precisou convencer as pessoas a experimentar a iguaria.

Eu dizia: estou viva, falando com vocês. É sinal que ela não vai matar ninguém. No máximo, vai colocar um espinho no dedo, mas três dias depois você pode tirar", relata, com o bom humor característico.

Desde então, 20 receitas já foram criadas pela cozinheira, das quais cerca de 15 são servidas no menu degustação que oferece aos turistas que vão conhecer seu jardim no passeio pelo Canal do Jari. As outras são pratos individuais, como moqueca, espaguete e lasanha de vitória-régia, que, por serem mais elaborados, ela reserva para eventos externos.

Criatividade e consciência

Sobre as ideias para suas receitas, que vão de releituras de clássicos da gastronomia japonesa até baiana, Dulce diz que é um dom. "Vai fluindo. Tiro o peixe da moqueca, coloco vitória-régia, vejo como fica e acaba que o resultado é maravilhoso", detalha, assegurando que todo o seu trabalho na cozinha é independente.

"Palmito" de vitória-régia - Christiany Yamada - Christiany Yamada
"Palmito" de vitória-régia
Imagem: Christiany Yamada
Pipoca de vitória-régia - Christiany Yamada - Christiany Yamada
Pipoca de vitória-régia
Imagem: Christiany Yamada

Todas as partes da planta são utilizadas. As folhas servem para salada e chips. Já com as pétalas das flores, dá para fazer gelatina, canapé, chá, suco e também salada. As sementes viram pipoca. O caule é a parte mais versátil, podendo originar desde rabanada até geleia.

Nem os espinhos, que são tóxicos e inflamatórios, são desperdiçados. Depois de retirá-los do caule, Dona Dulce os deixa no lago para que se decomponham e sirvam de adubo para as outras vitórias-régias. Logo, é tudo orgânico. A cozinheira ainda reforça que um de seus diferenciais é cultivar a planta, fazendo um manejo sustentável. "Eu não retiro vitória-régia da natureza para comercializar".

Deixando um legado

Alguns dos produtos de Dona Dulce, como a geleia e o palmito de vitória-régia em conserva, podem ser encontrados fora do Canal do Jari, em lojas de produtos naturais pela empresa Deveras Amazônia. Esse foi um caminho encontrado para financiar pesquisas com a planta, depois de uma parceria firmada em 2019 com a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

Dulce de Oliveira, defensora do uso de vitórias-régias na cozinha - Christiany Yamada - Christiany Yamada
Dulce de Oliveira, defensora do uso de vitórias-régias na cozinha
Imagem: Christiany Yamada

Ainda não se sabe muito, mas Dulce diz que, até o momento, a instituição constatou que a vitória-régia é rica em antioxidantes, minerais, fibras, proteínas, amido e potássio. E, embora seja um estudo em fase inicial, há indícios que contenha substâncias capazes de ajudar a prevenir o câncer de fígado.

Depois que eu soube da propriedade alimentar que a planta oferece, eu penso que deveria ser incluído no cardápio de muitos brasileiros. Todo mundo está procurando vida saudável, e nós temos aqui no nosso quintal", pondera.