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O velho e o bar: as bebidas da vida e da obra do escritor Ernest Hemingway

Ernest Hemingway levava o álcool à sério, fosse em sua vida cheia de aventuras ou em suas obras - Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images
Ernest Hemingway levava o álcool à sério, fosse em sua vida cheia de aventuras ou em suas obras
Imagem: Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images

Felipe van Deursen

Colaboração para Nossa

08/01/2021 04h00

Poucos escritores têm ligação tão forte com o álcool como Ernest Hemingway. Muito do que se fala de suas experiências é lenda e conversa fiada de bar, mas o autor americano, que ganhou o Nobel de Literatura e o Pulitzer e se consagrou em vida como um dos melhores escritores do século 20, era chegado a um coquetel, a qualquer hora, em qualquer lugar. Tal estilo de vida resvalou para várias de suas crias.

"Talvez mais que qualquer escritor, ele engajou seus personagens no ato de comer e beber - seja em um café ou em uma fogueira, pescando na Corrente do Golfo ou em um safári - e ele descrevia isso em detalhes tão ricos que os leitores podem quase cheirar e saborear a cena", escreve Philip Greene na introdução de "To Have and Have Another: A Hemingway Cocktail Companion".

Este audacioso livro se dedica a catalogar as bebidas que aparecem na vasta obra do autor. Não só isso, a publicação também levanta os drinques e os rótulos que tiveram alguma importância na vida pessoal de Hemingway, igualmente encharcada de álcool, muitas vezes de forma nada glamourosa.

Ernest Hemingway bebe vodca direto da garrafa em foto de 1954 - Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images - Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images
Ernest Hemingway bebe vodca direto da garrafa em foto de 1954
Imagem: Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images

"Em 'O Sol Também se Levanta', Jake Barnes bebe um jack rose enquanto espera em vão por Brett Ashley para conhecê-lo. Em 'Adeus às Armas', Frederic Henry gosta de apreciar um par de martinis, observando como eles têm um gosto 'fresco e limpo', como o fazem 'se sentir civilizado'. Em 'Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores', dois amantes tomam um martini e o sentem 'brilhar alegremente por toda a parte superior do corpo'", exemplifica Greene.

Confira agora algumas - das muitas e muitas - bebidas do catálogo hemingwayano.

Absinto

-- Que bebida é esta? -- perguntou o cigano.
-- Um remédio. Quer provar?
-- Remédio para quê? -- Para tudo. Isto cura tudo. Se você tiver algum problema, isto cura.
-- Deixa eu provar -- disse o cigano.

Robert Jordan empurrou o copo para perto dele. O conteúdo tornara-se um líquido leitoso e amarelo, misturado na água, e ele esperava que o cigano não tomasse mais do que um gole. Tinha sobrado muito pouco, e um copo daquilo tomava o lugar dos jornais vespertinos, das noites em cafés, das castanheiras que deveriam estar florescendo por este mês, dos belos cavalos troteando vagarosamente pelas alamedas, das livrarias, dos quiosques, e das galerias de arte, do Parc Montsouris, do estádio Bufallo, da Butte Chaumont, da Guaranty Trust Company e da Ile de la Cité, do velho hotel Foyot, de ser capaz de ler e relaxar à noite, de todas essas coisas que ele havia desfrutado e esquecera, mas que retornaram à memória quando provou aquele líquido opaco, amargo, cuja alquimia entorpecia a língua, afagava o cérebro, esquentava o estômago e mudava as ideias.

Hemingway deve ter experimentado absinto pela primeira vez quando chegou a Paris, em 1921. Ele escreveu sobre a venda clandestina da bebida para o jornal canadense Toronto Star, em 1922. Como na época a bebida estava banida na França, seus personagens a bebiam sorrateiramente. Ainda assim, o autor descrevia o ritual de tomá-la em detalhes, bem como os efeitos que ela provocava. Isso fica claro no trecho acima, de "Por Quem os Sinos Dobram" (1940), em que o costume do absinto gotejado dá a Robert Jordan um breve consolo dos rigores da guerra.

Ernest Hemingway -  ullstein bild/ullstein bild via Getty Images -  ullstein bild/ullstein bild via Getty Images
Imagem: ullstein bild/ullstein bild via Getty Images
Ernest Hemingway - Walter Breveglieri/Mondadori via Getty Images - Walter Breveglieri/Mondadori via Getty Images
Imagem: Walter Breveglieri/Mondadori via Getty Images

Mais obras contam com a presença do absinto. Em "Um País Estranho", publicado em Contos - Volume 3, Roger descreve o calor que a fornalha do alquimista causa em seu estômago. Helena experimenta em seguida e diz que é estranho e maravilhoso, mas tudo o que o absinto faz até o momento é levar os dois à beira do desentendimento e dar a sensação de que se pode fazer qualquer coisa.

Em uma carta de 1931, Hemingway diz que bebeu absinto, fez truques com faca e a atirou no piano. Toda a mobília de sua casa em Key West, no extremo sul da Flórida, estava tomada por cupins. Há um jogo de palavras aqui, pois wormwood é um termo em inglês para "absinto" e para a planta da qual a bebida é feita (Artemisia absinthium). Já woodworm é "cupim".

Ernest Hemingway e a atriz Ingrid Bergman -  Bob Landry/The LIFE Images Collection via Getty Images/Getty Images -  Bob Landry/The LIFE Images Collection via Getty Images/Getty Images
Ernest Hemingway e a atriz Ingrid Bergman
Imagem: Bob Landry/The LIFE Images Collection via Getty Images/Getty Images

Green Isaac

O coquetel aparece em "As Ilhas da Corrente", primeira obra póstuma de Hemingway, publicada em 1970. O protagonista, Thomas Hudson, um famoso pintor americano, busca tranquilidade nas Bahamas, mais especificamente na ilha de Bimini, banhada pela Corrente do Golfo, quando a chegada dos filhos interrompe a calmaria.

"...Quando Eddy veio à popa com o drinque alto e gelado feito de gim, suco de limão, água de coco e gelo picado com o suficiente de Angostura para dar uma cor rosa enferrujada, ele segurou a bebida na sombra para que o gelo não derretesse e olhou para o mar."

Armagnac e soda

Assim como a cidade francesa de Cognac deu à luz o conhaque, a região de Armagnac também tem seu brandy específico. Trata-se de um destilado de vinho, com 45% de teor alcoólico, produzido na Gasconha, sudoeste da França. Feito de vinho branco envelhecido por décadas em barris de carvalho escuro de uma floresta das redondezas, é uma das bebidas mais refinadas do mundo.

Ernest Hemingway e a esposa Martha Gelhorn - Bettmann - Bettmann
Ernest Hemingway e a esposa Martha Gelhorn
Imagem: Bettmann

A tradição que envolve o armagnac é tão grande que às vezes um produtor jamais experimenta a própria bebida, dado o tempo que ela leva para chegar às taças. Somente seus filhos e netos a beberão, da mesma forma que ele saboreia o brandy fabricado pelo seu pai.

O drinque armagnac & soda é nada mais que esse destilado francês com água com gás. O autor tomou armagnac na Segunda Guerra. Já reconhecido como o escritor mais famoso dos EUA, ele acompanhou o desembarque dos Aliados na Normandia e a liberação de Paris.

Em "O Jardim do Éden", publicado postumamente em 1986, David e Catherine Bourne aproveitam uma lua-de-mel prolongada no Mediterrâneo. O casal está tomando vermute em um café, mas a bebida não desce legal. Desejam algo mais "real", então David pede ao garçom uma garrafa de armagnac e uma Perrier gelada - não a água com gás comum servida no local. Ele afirma que o drinque é excelente para tomar antes do almoço. Catherine acha que tem um gosto refrescante e saudável.

A água com gás gelada, segundo Hemingway, reaviva o pesado brandy.

Americano

O americano é um drinque clássico, feito com partes iguais de Campari e vermute doce, finalizado com água com gás. Teria surgido nos anos 1860 no café do próprio Gaspare Campari, o criador da bebida, em Turim.

Janet Flanner e Ernest Hemingway, correspondentes de guerra, no Cafe les Deux Magot, Paris, França, em 1945 - David E. Scherman/The LIFE Picture Collection via Getty Images - David E. Scherman/The LIFE Picture Collection via Getty Images
Janet Flanner e Ernest Hemingway, correspondentes de guerra, no Cafe les Deux Magot, Paris, França, em 1945
Imagem: David E. Scherman/The LIFE Picture Collection via Getty Images

Hemingway provavelmente conheceu o Campari e o vermute diretamente na Itália, onde elas foram inventadas. Ele serviu no país durante a Primeira Guerra Mundial como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Em "Paris É uma Festa", livro de memórias publicado em 1964, três anos após sua morte, ele conta, em uma conversa com Gertrude Stein, que, enquanto estava no hospital se recuperando após um morteiro austríaco quase matá-lo, um homem o visitava frequentemente, levando a tiracolo garrafas de Campari e de vinho marsala.

No conto "O Bom Leão", o autor conta a história de um leão bondoso, que tinha asas nas costas, o que o fazia motivo de piada entre os leões maus. Ele comia massa com molho de tomate, enquanto os outros devoravam o gado dos massais (povo que habita o Quênia e a Tanzânia). Preferia tagliatelle à dieta brutalmente carnívora dos colegas. Se eles bebiam o sangue de andarilhos hindus, esse peculiar grifo bon vivant pedia um americano ou um negroni - o coquetel, hoje de volta à moda, é descendente direto e mais forte do americano (sai a água com gás, entra o gim).

Anís del Mono

Anís del Mono - Wiki Commons - Wiki Commons
Anís del Mono
Imagem: Wiki Commons

Hemingway curtia uma bebida anisada. Em seu bar, sempre havia uma garrafa de Anís del Mono, bebida criada em 1870 em Badalona, na Espanha. O rótulo aparece em "O Sol Também se Levanta", romance de 1926 que se passa no Festival de San Firmín, em Pamplona.

Em certa cena, os personagens bebericam um xerez calmamente em um café quando os rojões anunciam o início da festa. A praça se enche de gente, música e dança ocupam todo o espaço, os cafés ficam lotados na expectativa pelas corridas dos touros. De repente surge uma garrafa de Anís del Mono. O protagonista, Jake Barnes, logo sente o alcaçuz aquecendo seu estômago.

Já em "Colinas Parecendo Elefantes Brancos" (Contos - Volume 2), a bebida espanhola aparece com outro nome, Anís del Toro. Pode ter sido mera brincadeirinha, pode ter servido para evocar o imaginário supermasculinizado das touradas (e de todo o universo do autor). Hemingway não gostava de falar do simbolismo em suas histórias, mas elas continuam alimentando análises e polêmicas até hoje.

Mojito ou Daiquiri?

De toda a vasta bagagem alcoólica de Hemingway, o drinque mais associado a ele, hoje em dia, é o mojito. É o que repetem guias e revistas de viagem de Cuba e livros como "Guia de Drinques dos Grandes Escritores Americanos", de Mark Bailey e Edward Hemingway, ilustrador e neto do autor.

De origem incerta, sabe-se somente que o mojito nasceu em Havana. Hemingway teria feito o drinque famoso ao tomá-lo com frequência em um restaurante e bar da capital cubana chamado La Bodeguita del Medio. "Mi mojito en la Bodeguita, mi daiquiri en El Floridita", ele teria escrito na parede do bar.

Só que não.

Segundo Greene, que estudou a obra do autor por mais de 20 anos, não existe nenhuma evidência, em todas as biografias já escritas e nas anotações e correspondências deixadas por Hemingway, que ele tenha sequer pisado no bar. Além disso, ele nem era lá muito fã de mojito.

No anos 1950, os donos desse boteco de Havana, preocupados com os negócios, que não iam muito bem, pediram ajuda a um jornalista local, conhecido de Hemingway - que, à época, vivia na ilha. Decidiram escrever a hoje famosa frase na parede do bar e assinar com o nome do escritor, tomando o cuidado de imitar sua caligrafia ao contratar um artista gráfico para a missão.

La Bodeguita del Medio, em  Havana, Cuba - NurPhoto via Getty Images - NurPhoto via Getty Images
La Bodeguita del Medio, em Havana, Cuba
Imagem: NurPhoto via Getty Images

Era para ser uma brincadeira privada dos donos do estabelecimento e um círculo mais íntimo de clientes e amigos. Mas a mentira acabou crescendo descontroladamente com o passar dos anos, virou uma das tantas lendas a respeito de Hemingway e transformou esse simples restaurante no centro histórico de Havana em um dos principais pontos turísticos de Cuba.

Não que a Bodeguita não tenha seu brilho próprio. Uma mentirinha dessas não teria colado tão bem, tanto em Hemingway como na atmosfera boêmia de Havana, se o bar não tivesse seu charme. E ele tem de sobra. Ao longo dos anos, figuras como Gabriel García Márquez, Pablo Neruda, Salvador Allende, Nat King Cole, Julio Cortázar, Xi Jinping e o papa Francisco visitaram a Bodeguita del Medio.

Greene lembra que Hemingway costumava usar a própria experiência etílica em seus textos. O Harry's, em Veneza, e o Museo Chicote, em Madri, são dois dos bares frequentados pelo escritor e que aparecem em sua obra.

É o mesmo caso de El Floridita. A casa de coquetéis, também em Habana Vieja, celebra Hemingway em uma estátua, a fim de eternizá-lo no balcão do bar. Uma série de fotos comprovam que ele frequentava o local. Por fim, o daiquiri, carro-chefe do Floridita, aparece em livros como "Ilhas da Corrente". Já o mojito e a Bodeguita del Medio passam batido.

Interior do Floridita, bar favorito de Ernest Hemingway, em Havana (Cuba - Getty Images - Getty Images
Interior do Floridita, bar favorito de Ernest Hemingway, em Havana (Cuba
Imagem: Getty Images

Hemingway era diabético, então precisava de uma versão de daiquiri sem o usual xarope de açúcar. Então, o barman Constantino Ribalaigua criou um daiquiri especial para ele.

O mojito Hemingway é fruto de uma jogada de marketing brilhante que virou mais uma lenda sobre o autor e criou uma atração disputada em Cuba. O daiquiri Hemingway pode até ter um pouco menos de apelo turístico hoje em dia, mas conta, a seu favor, com a história do homem que esvaziou incontáveis copos e garrafas ao longo da vida.