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Drinques brasileiros podem estar entre novos clássicos da coquetelaria

Drinque Macunaíma, do bar Boca de Ouro, tem tudo para se tornar um novo clássico - Pablo Lobo
Drinque Macunaíma, do bar Boca de Ouro, tem tudo para se tornar um novo clássico
Imagem: Pablo Lobo

Pedro Marques

Colaboração para o Nossa

13/11/2020 04h00

Para os bartenders, a definição de clássico é bem clara: drinques criados entre os anos de 1887, quando o norte-americano "Professor" Jerry Thomas, considerado o pai da coquetelaria moderna, publicou o livro "Bar-Tender's Guide", e vai até 1920, com o início da Proibição nos EUA - período em que bebidas alcoólicas foram banidas do país.

Além disso, eles devem ser servidos até hoje em bares no mundo todo. Daiquiri, Negroni e Old Fashioned estão nessa seleta lista.

Olhares na coqueteleira - mais uma vez

Espresso martini, o "pai" dos novos clássicos - Getty Images - Getty Images
Espresso martini, o "pai" dos novos clássicos
Imagem: Getty Images

Mas nem todos os clássicos precisam ser centenários (ou quase). Depois de uma fase menos popular, os drinques voltaram a ganhar espaço nos balcões em meados da década de 1990. O período ficou conhecido como a "Renascença da Coquetelaria" e várias receitas a partir daí foram apontadas como clássicas - no caso, "clássicos modernos".

Esse renascimento, porém, teve seus primeiros passos um pouco antes, afirma o jornalista e pesquisador Robert Simonson em seu livro "Modern Classics of the Cocktail Renaissance".

De acordo com Simonson, a retomada veio com o Espresso Martini (vodca, licor de café, café espresso e uma pitada de sal), de 1983, criado pelo barman Dick Bradsell - não à toa, Bradsell ficou conhecido como o responsável por resgatar o interesse do público nos drinques.

De qualquer forma, foi apenas na década seguinte que essa renascença ganhou força, diz o especialista, que também estabeleceu alguns critérios para classificar um drinque como "clássico moderno":

  • deve ter cruzado fronteiras e ser conhecida longe de seu país de origem;
  • precisa ainda ter caído no gosto dos clientes e garantir espaço fixo no cardápio de bares. Para completar;
  • deve ser reconhecido pela comunidade de bartenders como um drinque significativo.

Embora não seja obrigatório, usar destilados e ingredientes fáceis de encontrar é uma característica comum entre os novos clássicos, afirma Arnaldo Hirai, sócio e chefe de bar do Boca de Ouro, em Pinheiros (São Paulo).

Fica mais fácil de outros bares fazerem igual ou adaptarem uma receita", avalia.

Novíssimos

O coquetel Paper Plane, um novo clássico consagrado - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
O coquetel Paper Plane, um novo clássico consagrado
Imagem: Getty Images/iStockphoto

São regras parecidas com as usadas pela IBA (International Bartenders Association) para incluir uma bebida com não muito tempo de vida em sua lista oficial de coquetéis - que entra justamente na categoria "New Era Drink", feita para destacar novidades. Até o momento, há 26 clássicos modernos na lista da IBA, que tem 77 drinques no total.

Algumas dessas receitas foram criadas há menos de 15 anos, como o Paper Plane (bourbon, Amaro Nonino, Aperol e suco de limão), imaginado em 2007 pelo renomado bartender Sam Ross, quando trabalhava no bar The Violet Hour, em Chigago (EUA), ou o Trinidade Sour (Angostura, xarope de amêndoas e água de rosas, suco de limão e uísque de centeio), de 2009, de autoria de Giuseppe Gonzalez durante sua passagem pelo Clover Club, em Nova York (EUA).

Candidatos nacionais

Por enquanto, não há nenhum clássico moderno brasileiro na relação oficial da IBA. Mas há alguns candidatos, como o Macunaíma (com receita abaixo), criado no Boca de Ouro por Hirai por volta de 2014 (nem ele lembra exatamente quando a receita entrou de vez para o cardápio) e que hoje é bastante encontrado em outros bares.

"A principal característica (do Macunaíma) é a simplicidade. É um drinque fácil de fazer, não leva gelo", opina. Outra coisa que ajudou a divulgar a receita é o fato de o Boca de Ouro ser bastante visitado às segundas-feiras por bartenders, que costumam folgar nesse dia da semana. "Muita gente do meio bebeu o coquetel aqui e acabou levando para seus bares", afirma o chefe de bar.

Marcelo Serrano prepara espuma do Moscow Mule no Venuto - Divulgação - Divulgação
Marcelo Serrano prepara espuma do Moscow Mule no Venuto
Imagem: Divulgação

A "versão brasileira" do clássico Moscow Mule, pensada pelo barman Marcelo Serrano no começo desta década, também tem chances. O drinque ficou famoso no Brasil por causa de sua espuma de gengibre, solução encontrada por Serrano para substituir o ginger ale, refrigerante de gengibre que, na época, não era fácil de achar no país.

No Brasil, esses coquetéis já são considerados clássicos. Agora eles precisam cruzar fronteiras para, quem sabe, serem incluídos na categoria "New Era Drinks" da IBA.