PUBLICIDADE
Topo

Maior busca por voos só de ida revela improvisação forçada em viagens

O Brasil registrou um aumento de 60% na busca por viagens domésticas só de ida, segundo estudo - Getty Images
O Brasil registrou um aumento de 60% na busca por viagens domésticas só de ida, segundo estudo
Imagem: Getty Images

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

27/10/2020 20h54

"É hora de esperar para viajar". A frase não causaria tanto estranhamento se viesse de um familiar ou de um profissional da saúde. Mas a afirmação é de um executivo do setor.

"Estimular o turismo no Brasil é bem difícil porque isso depende da evolução sanitária", declara Josian Chevallier, vice-presidente de vendas do Viajala.com.br.

Nossa conversou com exclusividade com o executivo por conta do lançamento da 3ª edição do Barômetro, um estudo anual que busca identificar as tendências das viagens na América Latina.

Mas se o estrago causado pela crise sanitária parece longe de chegar ao fim — a Organização Mundial do Turismo (OMT) anunciou na última terça-feira (27) que a queda no setor é de 70% nos oito primeiros meses de 2020 —, a pandemia de coronavírus deve ser responsável por um novo perfil de viajante.

Famoso pelo hábito de deixar tudo para a última hora, o brasileiro agora já pode colocar a culpa na "improvisação forçada".

De acordo com o estudo, o Brasil registrou um aumento de 60% na busca por viagens domésticas só de ida. Para Chevallier, o adiamento do retorno é consequência do trabalho remoto que permite que as pessoas trabalhem de qualquer lugar e decidam depois quando querem voltar para casa.

homem trabalhando piscina turismo pandemia - Getty Images - Getty Images
A possibilidade de trabalhar em "resort office" contribuiu para aumento de viagens sem volta definida
Imagem: Getty Images

O levantamento a partir das buscas feitas pelos brasileiros no site, entre abril e outubro de 2020, indica também um aceleramento tecnológico no setor, "para atender à demanda massiva de cancelamentos e alterações", e uma procura por viagens que proporcionem independência ao viajante, em destinos domésticos em meio à natureza.

A seguir, você confere trechos da entrevista com o executivo.

Assim como outras pesquisas recentes, o Barômetro 2020 revela as tendências de viagens domésticas, de curta duração e em meio à natureza. Que outros pontos o estudo indica para o setor do turismo?

Josian Chevallier, vice-presidente de vendas do Viajala.com.br. - Divulgação - Divulgação
Josian Chevallier, vice-presidente de vendas do Viajala
Imagem: Divulgação

Tendências de largo prazo como flexibilidade, viagens sustentáveis e experiências exclusivas. A covid não trouxe só uma aceleração dessas tendências, mas também uma mudança do perfil do viajante, que passa a ser mais improvisado porque é impossível planejar. Ninguém sabe qual será o futuro da pandemia, nem a evolução econômica de cada pessoa.

Um dado que chama a atenção no estudo é o aumento de 60% na procura de viagens "só de ida". O que está acontecendo?
É o conceito da improvisação forçada. Como viajante, tenho mais controle sobre o que vai acontecer nas próximas semanas. Depois, quem sabe? Por isso a compra só de ida, depois ele pensa na volta. Os viajantes precisam de mais flexibilidade.

Mas isso não encarece a compra?
Eu acho que agora não, especialmente em voos domésticos, que tiveram uma queda nos preços de 22%, em média. O viajante prefere pagar um pouco mais e ter mais controle da sua viagem. Com a covid, 75% dos viajantes do Viajala tiveram que cancelar seus voos nas companhias aéreas e não foi uma experiência fácil. Acho que as pessoas não querem sem arriscar e por isso preferem esperar para decidir o retorno.

Isso quer dizer que a compra está sendo feita com menos antecedência por conta dessa incerteza mundial?
É importante destacar que a antecedência na hora da compra é muito menor agora. No ano passado, eram 42 dias entre a pesquisa no site e o dia da viagem. Em 2020, essa antecipação é de 32 dias, uma queda bem forte de 10 dias. As pessoas não estão pensando no futuro e só viajam por necessidade.

mulher no aeroporto - Getty Images - Getty Images
Por conta de incertezas, as viagens estão sendo planejadas com menos antecedência
Imagem: Getty Images

Quais as expectativas da empresa para os próximos meses?
O número de buscas caiu bastante, mas o de vendas, muito mais. As pessoas queriam ofertas, tinham tempo para buscar viagens futuras, mas ninguém podia planejar. Foi um ano bem difícil, mas como somos uma empresa de tecnologia, poderemos oferecer funcionalidades que serão usadas no futuro.

Quais?
A aceleração digital, por exemplo. Seis meses de pandemia equivalem a 5,3 anos de aceleração de tecnologia. No futuro, mais pessoas vão procurar compras online de viagens e isso é uma oportunidade para nós. A situação vai seguir bem difícil para o setor, em todo o mundo. Mas, ao mesmo tempo, há possibilidades de aumentar a participação no mercado de empresas digitais que se ajustem às necessidades dos viajantes futuros.

A situação ainda é bem incerta para o setor, como redução na malha aérea e um abre e fecha de destinos. Já é seguro viajar?
O problema número um é que está impossível planejar, pois estamos em uma crise financeira. Viajar é menos importante do que comer e estamos vivendo todas as consequências de uma pandemia. As pessoas preferem esperar. Por outro lado, é hora do turismo doméstico e no meio da natureza. Menos viagens longas e menos reservas de hotéis, mas procura por casas para alugar e de desenvolvimento de ferramentas como Airbnb.

Que lição o Brasil pode tirar dessa pandemia?
A oportunidade é favorecer o turismo dos brasileiros no Brasil. O país é um continente e qualquer brasileiro pode descobrir um novo lugar. Não precisa sair para ter novas experiências, é o momento de aproveitar o turismo local, como Aracaju (SE) que teve um aumento de 35% na procura.

Para o estrangeiro ainda é bem difícil [estimular turismo no Brasil] por conta da situação sanitária nos outros países. Mas para um argentino, por exemplo, vai ser a oportunidade de descobrir lugares no Brasil com menos aglomerações. O Brasil é gigante, não tem só Florianópolis.