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Após verão surpreendente, chefs europeus temem efeitos da 2ª onda da covid

Após reabertura e alta procura por restaurantes e bares, chefs estão apreensivos com a próxima temporada - Getty Images
Após reabertura e alta procura por restaurantes e bares, chefs estão apreensivos com a próxima temporada
Imagem: Getty Images

Rafael Tonon

Colaboração para Nossa

17/10/2020 04h00

Foi um verão muito melhor do que se podia sequer imaginar. Para muitos restaurantes na Europa, julho e agosto foram meses de um surpreendente fluxo de clientes — tanto de turistas (alguns) como de público local (a maioria).

Há até aqueles que reportam terem tido "o melhor agosto em anos", dado o faturamento que conseguiram conquistar para seus negócios, mesmo com a capacidade de lugares restrita por conta da pandemia (cerca de 40% na maioria).

Muitos atribuem os inesperados bons números à uma vontade latente das pessoas de desconfinar: depois de semanas trancadas em casa, elas passaram a se permitir experiências à mesa e a frequentar restaurantes mais gastronômicos.

Melhor que em 2019

No Aponiente, em Cádiz, na Espanha, os meses de verão foram de ocupação máxima. Reservas preenchidas em 90% até o final de setembro, sendo 80% de clientes espanhóis.

Aponiente, em Cádiz, na Espanha - Álvaro Fernández Prieto - Álvaro Fernández Prieto
Aponiente, em Cádiz, na Espanha
Imagem: Álvaro Fernández Prieto

Depois de uma abertura atrasada em quatro meses pela pandemia, o restaurante com três estrelas Michelin do chef Ángel León só passou a receber seus primeiros visitantes no começo de julho.

"É uma época que sempre trabalhamos muito, mas depois da pandemia tivemos muitas dúvidas em relação à reação e comportamento dos clientes. Mas a resposta não poderia ser melhor, esses últimos meses foram incríveis", diz León.

Até tivemos mais reservas em comparação com o ano passado no mesmo período de tempo", acrescenta.

No caso do Aponiente, pelo tamanho do restaurante permitir seguir as regras de distanciamento das mesas (de 1,5 metro) exigidas pelo governo espanhol, não foi necessário reduzir tanto os lugares. "E o fato de estamos localizados em um parque natural, em um lugar aberto, também estimulou mais visitas ao nosso restaurante", acredita.

O chef Ángel León, do Aponiente, em Cádiz, na Espanha - Álvaro Fernández Prieto - Álvaro Fernández Prieto
O chef Ángel León, do Aponiente, em Cádiz, na Espanha
Imagem: Álvaro Fernández Prieto

Localizado em El Puerto de Santa María, em Andaluzia, é uma região onde muitas pessoas costumam passar as férias de verão. "Este ano, além disso, tivemos mais turismo nacional e a temporada para isso nos ajudou a mantermos o bom fluxo".

Redescoberta do turismo local

Em Portugal, o Algarve também é a região mais frequentada durante as férias de verão, quando portugueses e principalmente estrangeiros (como os ingleses, franceses e os vizinhos espanhóis) costumam lotar suas praias.

Mas as exigências de alguns países, como os do Reino Unido, de que seus habitantes fizessem quarentena quando voltassem de lá diminuíram drasticamente os voos internacionais, o que levou os comerciantes locais, principalmente do setor de hospitalidade, a uma grande preocupação.

Mas mesmo com condições tão adversas, os restaurantes de alta gastronomia algarvios tiveram até lista de espera neste verão, como no Ocean, que fica localizado no resort de luxo Vila Vita Park, em Porches, e detém duas estrelas Michelin.

Restaurante Ocean, em Algarve - Divulgação/Vasco Célio - Divulgação/Vasco Célio
Restaurante Ocean, em Algarve
Imagem: Divulgação/Vasco Célio

"Fizemos projeções de atender cerca de 10 a 12 clientes por serviço. Mas no final das contas, atendemos mais que o dobro disso, que era a nossa capacidade máxima durante o cenário atual", explica o chef, o austríaco Hans Neuner.

Agora, ele diz, estão com reservas para todos os dias até o final de outubro, servindo um único menu de 14 cursos a um preço de 195 euros (cerca de R$ 1288).

Optamos por termos apenas uma opção de menu para facilitar a logística nesses tempos em que diminuímos a equipe em 50%", afirma.

Alguns eventos esportivos programados na região, como o Grande Prêmio de Portugal de Fórmula 1 que será realizado no final do mês, devem garantir ainda o alto fluxo de clientes, acredita Neuner.

Cenário incerto

"Mas novembro não sei como será, tudo depende da covid-19", diz ele, que viu nos últimos anos a temporada do Algarve se estender para além do verão. "Em 2019, por exemplo, ficamos cheios quase todos os meses abertos, entre março e novembro.

Mas 2020 é impossível prever qualquer coisa".

Ele tem razão. Uma segunda onda de casos na Europa fez com que países voltassem a tomar medidas mais drásticas para conter o avanço da doença. Na Catalunha, o governo local decretou o fechamento total de restaurantes e bares por 15 dias. A Holanda também ordenou o fechamento desses estabelecimentos.

Bar em Paris, França - Getty Images - Getty Images
Bar em Paris, França
Imagem: Getty Images

A Itália, por sua vez, proibiu que eles atendam clientes depois das 21h. Já Paris e outras regiões metropolitanas da França fecharam os bares, mas não os restaurantes. Liverpool, na Inglaterra, fechou seus pubs e na Alemanha está em vigor o fechamento noturno de bares e restaurantes.

Com Portugal tendo alcançado os mais de 2 mil casos por dia, o futuro dos horários dos restaurantes é incerto. Mas em uma pandemia, aliás, é difícil três certeza de qualquer coisa, como diz o chef João Rodrigues, do Feitoria, restaurante com uma estrela Michelin localizado no hotel Altis Belém, em Lisboa.

A cidade, que teve uma redução significativa no número de turistas, tem visto seus restaurantes cheios de portugueses. Desde que abriu em agosto — depois de duas adiadas e junho e julho — o Feitoria tem tido todas as suas oito mesas atuais ocupadas todas as noites de abertura do restaurante. "Em alguns dias, precisamos montar uma ou duas mesas a mais, seguindo os protocolos de distanciamento", diz o chef.

Feitoria, restaurante com uma estrela Michelin em Lisboa - Divulgação - Divulgação
Feitoria, restaurante com uma estrela Michelin em Lisboa
Imagem: Divulgação

Reverter a falta do turismo

Além de ter seguido com o horário e os quatro menus de degustação habituais, o restaurante criou a iniciativa Dine & Sleep, que oferece pacotes para os clientes que querem dormir no hotel depois do jantar.

É um modelo que está funcionando bem e que pode ser uma boa opção para reverter a baixa no turismo na cidade, como explica Rodrigues. "Temos tido pelo menos duas ou três mesas por noite neste modelo".

Nos próximos meses, ele acredita que o fluxo do restaurante deve se manter, se as portas puderem seguir abertas. "Já não há discotecas, os bares não podem atender até tarde, os restaurantes estão no panorama de lazer como uma das poucas opções restantes. Seguindo os protocolos, isso deve se manter", acredita.

O chef, entretanto, tem receio de como devem ficar as coisas em janeiro, fevereiro e março. "São meses normalmente mais fracos, por conta do frio, e provavelmente as pessoas cheguem a 2021 com seus negócios e finanças mais prejudicadas", acredita.

Isso, segundo Rodrigues, deve ser mais desafiador que os aumentos de casos que possam levar os restaurantes a fecharem novamente.

Vamos cada vez mais normalizar que isso aconteça eventualmente, mas acho difícil que voltemos aos meses de março e abril".

Garçom serve pizzas em restaurante próximo ao Coliseu, em Roma - Getty Images - Getty Images
Garçom serve pizzas em restaurante próximo ao Coliseu, em Roma
Imagem: Getty Images

Na semana passada, o responsável da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a covid-19 na Europa, David Nabarro, pediu que os governos locais não utilizem o confinamento como principal método para conter a pandemia.

Nesse sentido, os fechamentos devem ter períodos de duração mais estabelecidos no continente, segundo ele, e voltar a reabrir tão logo haja melhoras nos números de casos.

Isso indica que os restaurantes podem até passar por quinze dias encerrados em alguns lugares, mas devem ter seu funcionamento restabelecido pelos governos em seguida. Do contrário, vai ser difícil encontrar restaurantes abertos para os quais voltar quando tudo isso passar.