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Técnica ancestral transforma lã natural em matéria-prima de objetos e arte

Fifi Tong
Imagem: Fifi Tong

Carol Scolforo

Colaboração para Nossa

29/09/2020 04h00

Inês Schertel

Inês Schertel

Quem é

Inês Schertel é designer têxtil à frente de sua marca homônima que trabalha com feltragem de lã natural, arquiteta por formação.

Inês Schertel era uma pessoa urbana. Tão urbana que comprou um terreno no campo pelo telefone, sem ver de perto, apenas acreditando no que seus amigos diziam sobre a propriedade. Eram 100 hectares que ela dividiria com eles, para passar fins de semana e temporadas. Depois, se tornariam sua fazenda, definitivamente.

Há 8 anos, quando deixou São Paulo para voltar ao Rio Grande do Sul, sua terra natal, ela e o marido, Neco Schertel, olharam para aquelas terras e não souberam o que fazer. "Não temos raízes rurais. Foi curioso que nós, tão urbanos, cogitamos criar ovelhas para que o campo se pagasse", ri. Na verdade, uma sorte.

Surpresas da vida

Inês Schertel trabalhando com a lã natural no ateliê - Victor Affaro - Victor Affaro
Inês Schertel trabalhando com a lã natural no ateliê
Imagem: Victor Affaro

A dupla não imaginava o que viria pela frente. "Começamos a aprender a criá-las e percebi que, anualmente, era necessário fazer a tosquia. As ovelhas ficavam muito faceiras depois disso. A tosquia as deixa felizes, porque elas se sentem mais leves", diz Inês.

A lã residual que surgia da tosquia era trocada no mercado por ração para os cavalos. "Eu sempre pensava em fazer algo com aquilo. Não era justo ser algo tão desvalorizado. Pesquisando, vi que é um material nobre, renovável, biodegradável e completamente sustentável. Nunca achei que trabalharia com lã, pois técnicas como tricô nunca foram meu forte."

Momento mágico

Banco criado por Inês Schertel  - Fifi Tong - Fifi Tong
Banco criado por Inês Schertel
Imagem: Fifi Tong

O destino trazia uma técnica bem antiga ao seu encontro: a feltragem. Ao aproveitar um resíduo da ovelha dando novo significado e homenageando uma tradição ancestral, Inês, que antes havia trabalhado como arquiteta e diretora de arte, encontrou uma linguagem única e contemporânea. Tornou-se designer de sua própria marca.

"Há 4 ou 5 mil anos atrás já feltravam a lã da ovelha. Para feltrar, fazemos a fricção manual das fibras, que com água e sabão encolhem junto. Esse é um momento mágico: as tramas grudam e surge o feltro. Depois disso, o material é irreversível", ela conta.

Processo 100% manual

Tosquia, beneficiamento, lavagem e todos os outros processos exigem a mão humana. Antes disso vem o pastoreio, feito por Neco. "O papel dele é essencial como pastor das ovelhas. Além disso, ele sempre acompanhou e deu força ao meu trabalho", diz Inês.

Para aprimorar a técnica, ela fez cursos em lugares como Irlanda, Itália e o Quirguistão, que é um berço de nômades que utilizam a lã em suas casas como isolante térmico, tanto para enfrentar frio como para fugir do calor.

Inês também descobriu a Campaign for Wool, capitaneada pelo Príncipe Charles, um defensor da criação de ovelhas e dos inúmeros benefícios da lã natural: ela atrai menos ácaros que fibras sintéticas e no mobiliário oferece mais conforto do que estofados convencionais.

A ovelha Rita Lee

Banco criado por Inês Schertel  - Fifi Tong - Fifi Tong
Banco Hera
Imagem: Fifi Tong
Luminária Marga - Fifi Tong - Fifi Tong
Luminária Marga
Imagem: Fifi Tong

Na fazenda de Inês, em São Francisco de Paula, um rebanho de 500 animais já esteve por lá. Hoje são menos de 100, de onde vem a lã merino. O slow design começa aí: eles respeitam e cuidam com tanto carinho que enxergam até as diferenças entre as ovelhas. Já batuzaram de Rita Lee uma ovelha negra que nasceu por lá. "Elas são muito dóceis. Temos uma relação de família."

Do Brasil para o mundo

Biombo Camélia, da Coleção Botânica com a Etel - Fernando Laszlo - Fernando Laszlo
Biombo Camélia, da Coleção Botânica com a Etel
Imagem: Fernando Laszlo

Quem vê as peças de Inês brilhando nas feiras mundiais não imagina o trabalho nos bastidores. Há muitas etapas. É preciso esperar a época da tosquia, respeitando cada processo com paciência. Um banco com 400 flores para a Coleção Botânica, com a Etel, levou três meses para ficar pronto.

Hoje está em uma exposição em Milão, na Itália. Outras peças estarão na Holanda, em São Paulo e no mundo todo. Inês respeita o tempo de tudo. Mas ela não para de criar.

O conceito de slow design é um estilo de vida. Falar sobre o meu trabalho é falar da verdade que vivo. Não penso em aumentar a produção. Quero fazer cada vez menos e melhores peças."

@s que me inspiram

@atelierhugofranca

O trabalho do Hugo é valorizar a natureza, com raízes de árvores que morreram, encontradas. O que me encanta é a pesquisa que ele faz e a forma com que faz, sem prejudicar o meio ambiente.

@domingostotora

Domingos é um gênio do papel e do papelão. Nunca me canso de admirar o trabalho dele, que é incrível e também tem sustentabilidade.