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Animais famintos e mortos: o trágico fim do "zoo dos tigres" na Argentina

Tirar fotos dentro da jaula dos tigres era uma das atrações do zoo, perto de Buenos Aires: a dopagem dos animais para isso foi uma da práticas denunciadas  - Maria Martha Bruno/UOL
Tirar fotos dentro da jaula dos tigres era uma das atrações do zoo, perto de Buenos Aires: a dopagem dos animais para isso foi uma da práticas denunciadas
Imagem: Maria Martha Bruno/UOL

Luciana Rosa

Colaboração para Nossa, de Buenos Aires

24/09/2020 04h00

O Zoológico de Luján, localizado a 75 quilômetros de Buenos Aires, tornou-se uma das atrações imperdíveis para turistas que visitavam a capital da Argentina. Especialmente os brasileiros, público que liderava o ranking de visitantes estrangeiros no local e representava 70% da frequência.

O que levava tanta gente a se deslocar até a cidade vizinha era a possibilidade de viver a exótica experiência de entrar na jaula dos animais, alimentar filhotes de leão e garantir aquela foto estilo safári e campeã de likes alimentando um elefante.

Essa será uma cena de viagem que agora fica na velha normalidade. Na semana passada, o Zoológico de Luján foi interditado pela prefeitura da cidade em decorrência de uma decisão do Ministério do Meio Ambiente da Argentina desencadeada por suspeitas de maus-tratos aos animais.

Animais "não existiam" oficialmente

O peculiar comportamento dos animais selvagens mantidos no zoológico — que se deixavam acariciar e alimentar e interagiam com humanos durante longas jornadas — sempre levantou suspeitas. A principal delas é a de que os felinos eram dopados para apresentar tamanha docilidade e resistência física às horas de selfies.

zoológico de luján - Alex Alves - Alex Alves
Posar dentro da jaula dos felinos tornou o Zoológico de Luján uma atração famosa, especialmente entre turistas brasileiros
Imagem: Alex Alves

"Há vários indicativos de que os animais poderiam estar drogados. Por mais que eles tenham nascido em cativeiro, nenhum animal selvagem poderia suportar a quantidade de pessoas que passavam por suas jaulas para tocá-los, tirar fotos e até sentar sentar-se sobre eles", diz a ativista Malala Fontán, do SinZoo, grupo que encabeça o movimento pelo fim dos zoológicos na Argentina.

No entanto, essa prática é negada tanto pelo diretor do zoo, Jorge Semino, quanto por ex-funcionários que, ainda que denunciem maus tratos aos animais, alegam que estes não eram sedados.

Zoológico de Luján - Reprodução - Reprodução
Ambientalistas suspeitam de dopagem dos animais para o contato com os humanos
Imagem: Reprodução

Segundo disse Semino em entrevista a Nossa, os animais estavam acostumados ao contato humano por terem nascido no zoo e, desde filhotes, vivenciado uma interação bastante próxima com o público.

"Além de contarem com a presença de um 'macho alfa' nas jaulas, por meio da inclusão de cães que serviam como uma espécie de líder da alcateia. Os felinos acabavam imitando a conduta canina de docilidade junto aos humanos", diz o diretor.

zoo de luján - cães - Maria Martha Bruno/UOL - Maria Martha Bruno/UOL
Imagem de reportagem publicada no UOL, em 2013, sobre o método de treinamento do tigres no zoológico
Imagem: Maria Martha Bruno/UOL

Na opinião de Malala, no entanto, "não existe nenhum tipo de treinamento no mundo que faça com que os animais permitam o que era praticado com eles em Luján. Se isso fosse certo, já teríamos uma série de artigos científicos explicando o exitoso método", ironiza.

Segundo aponta a ativista, o problema mais evidente com o zoológico de Luján era a ausência de identificação dos bichos através de chips. "Por isso, são animais que, de certa forma, nunca 'existiram' de fato", explica.

Eles podiam fazer o que quisessem com os bichos, matá-los, vendê-los... E essa falta de transparência é flagrante"

As denúncias

Apesar de estar em funcionamento há cerca de 25 anos e frequentemente ser alvo de suspeitas de grupos ambientalistas, somente este ano as várias denúncias ecoaram junto ao governo.

"Nas últimas semanas, chegou até a Prefeitura de Luján a informação de que não estariam alimentando os animais, o que nos levou a empreender uma tentativa de busca e apreensão", diz Braian Vega, diretor de Proteção Ambiental da cidade.

Zoológico de Luján - Alex Alves - Alex Alves
Fotografia tirada por um ex-tratador do zoo em denúncia de maus tratos
Imagem: Alex Alves

Imagens que circularam pelas redes sociais aumentaram a comoção em torno do caso. Vizinha do zoológico, Amália contou à reportagem de Nossa que, assim como muitos moradores da região, recebeu as fotografias. "Elas foram tiradas pelos funcionários e mostravam a situação deplorável na qual se encontravam esses animais. Uns mortos, outros debilitados pela fome, sem nenhum cuidado", relata.

Diante da situação, Amália e outros vizinhos se reuniram para tentar alimentar os animais por espaços na cerca de proteção que circunda o zoológico.

Quando íamos dar comida, dava para perceber que estavam famintos, pelo desespero com que se aproximavam. Além disso, estavam desnutridos e em condições horríveis"

zoo luján - Alex Alves - Alex Alves
Com a pandemia, funcionários foram demitidos e cortada a verba para alimentar bem os animais
Imagem: Alex Alves

Boa parte dessas imagens foram compiladas pelo jornalista Osvaldo Cabral, que é de Luján e vem realizando uma extensa investigação sobre as irregularidades cometidas no lugar.

Ele conta, por exemplo, que todo ano "nasciam entre 30 e 40 novos leões, exibidos em jaulas quando filhotes, pois são fotogênicos para as fotografias, mas essa prática está proibida por lei".

De acordo com Cabral, o problema principal começava quando os felinos cresciam e eram levados para jaulas de madeira, cuja precária estrutura contava apenas com alguns orifícios para passar a comida.

"Eles ficavam ali confinados para fins de reprodução. Em outros casos, quando não serviam mais a esse propósito, deixavam de ser alimentados para que morressem, pois já haviam perdido também seu encanto junto aos visitantes", denuncia o jornalista.

zoo luján - Reprodução - Reprodução
Os felinos que não estavam "em exposição" viviam em locais pequenos
Imagem: Reprodução

As suspeitas foram confirmadas a Nossa pelo ex-guia do local Alex Alves, brasileiro que trabalhou por 2 anos como faz-tudo no zoológico e, nos últimos tempos, era o guia responsável pelas dezenas de vans que transportavam os turistas brasileiros até Luján.

Os felinos que não tinham contato com as pessoas permaneciam em jaulas de 2 por 2 metros. E algumas não chegavam nem a 1 metro de altura"

Ele explica algumas das imagens que vieram à tona nas semanas anteriores à interdição do lugar. Segundo Alves, uma parte delas são registros de práticas do zoológico em épocas anteriores à pandemia:

"Tinha um setor do zoológico onde acontecia a queima dos cadáveres dos animais que morreram no zoo", diz Alves, acrescentando que eram incineradas as espécies que não poderiam servir de alimento aos outros bichos.

Atenção: imagens fortes. As fotografias que circularam nas redes

Essas imagens de animais mortos empilhados, somadas às denúncias recentes de que os bichos estariam em péssimas condições, culminaram no pedido de investigação judicial por parte do Ministério do Meio Ambiente e na interdição do zoológico.

Zoológico de Luján - Reprodução - Reprodução
Imagem que circulou na internet
Imagem: Reprodução

Apesar disso, na manhã do dia 14 de setembro, quando houve a tentativa de busca e apreensão no local, supostos funcionários do zoológico bloquearam a entrada.

A moradora Amália relata que moradores de Luján presenciaram a movimentação de funcionários transportando os animais mortos para um terreno no fundos do estabelecimento. "Acredito que estavam escondendo as provas, levando em carretas os animais mortos para apagar as evidências. Queriam ganhar tempo para que, quando a prefeitura ingressasse, não se desse conta das irregularidades", opina.

Pandemia foi o estopim

Apesar da luta de anos dos ambientalistas para tentar o fechamento definitivo do lugar, foram denúncias de violação de leis trabalhistas geradas pelo contexto de pandemia do novo coronavírus o estopim para mobilizar as autoridades.

A paralisação da atividade turística gerada pelo fechamento das fronteiras fez com que o zoo cessasse suas atividades. Os trabalhadores, que eram mantidos em regime informal, ficaram à mercê da própria sorte. Já em março, o diretor dispensou metade dos funcionários. Restou um número pequeno de empregados.

"Em junho, despediu o restante e começou uma política de redução de gastos com relação aos bichos", conta o ex-guia Alex Alves.

Com os cortes de custos, a administração deixou que alguns animais morressem de fome e sacrificou outros tantos"

Sem dinheiro nem qualquer garantia de retorno ao antigo trabalho, os ex-funcionários protagonizaram a série de denúncias de maus-tratos aos animais mantidos em cativeiro.

"A pandemia dificultou a compra de carne não-inspecionada que servia de alimento para os bichos e, como no zoológico há um descontrole no número de leões e tigres, eles começaram a morrer por falta de comida", diz Alex, corroborando as denúncias que chegaram ao Ministério do Meio Ambiente da Argentina.

Em fevereiro, aconteceu a primeira intervenção do Ministério no local, após constatar cerca de 600 situações de transgressão. O Estado dará entrada em um processo de investigação para esclarecer as denúncias feitas pelas entidades protetoras dos animais e determinar seu fechamento definitivo.

"Queremos averiguar as denúncias feitas pela internet, algumas anônimas ou de ex- funcionários", disse à agência Télam o secretário de Controle e Monitoramento Ambiental, Sergio Federovisky.

Diretor do Zoológico nega irregularidades

Sérgio Semino, diretor do zoológico, disse a Nossa que o lugar "cumpre uma importante função social como centro de resgate de animais feridos encontrados na via pública".

"Criamos nossos amigos de quatro patas com muito amor e carinho", diz, acrescentando que planejava ampliar os espaços destes animais para que se sentissem "mais confortáveis" dentro do cativeiro.

Sérgio alega que o fechamento do zoológico é injustificado e que responde apenas à "intenção política de criar uma boa imagem juntos aos defensores dos animais".

O futuro do zoo

Zoológico deve dar lugar ao ecoparque de Luján - Reprodução - Reprodução
Zoológico deve dar lugar ao ecoparque de Luján
Imagem: Reprodução

O governo da Argentina pretende que o zoológico seja transformado em um ecoparque. "O modo de comércio que era feito com os animais não poderá seguir", diz Sérgio Federovisky, secretário de Controle e Monitoramento Ambiental.

Segundo ele, será feito um inventário do contingente de animais e a aplicação de chips e de marcações em cada uma das espécies. "Nenhuma atividade que envolva a interação dos visitantes com os animais voltará a ser realizada no lugar", completa.