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Sem brasileiros, tango e voos do exterior, turismo de Buenos Aires agoniza

Cena durante quarentena: Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas, quase sem ninguém - Marcelo Endelli/Getty Images
Cena durante quarentena: Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas, quase sem ninguém
Imagem: Marcelo Endelli/Getty Images

Luciana Rosa

Colaboração para Nossa, de Buenos Aires

11/09/2020 04h00Atualizada em 11/09/2020 10h21

A Argentina recebeu 7,3 milhões de visitantes em 2019. A maioria optou por passar as férias dando os primeiros passos de tango e saboreando um bom bife de chorizo em Buenos Aires. Ano passado, a capital teve um recorde de visitantes, que injetaram US$ 2,5 bilhões de dólares na economia local. Foram 2,93 milhões de turistas estrangeiros, 28% deles provenientes do Brasil.

No início de 2020, tudo transcorria bem para o turismo dos hermanos. Nos três primeiros meses do anos, 187 mil brasileiros já tinham colocado seus pés nas alamedas da capital. Porém, no dia 20 de março, início da quarentena, a cidade começou a contabilizar os prejuízos.

Com o fechamento das fronteiras e a paralisação inclusive dos voos internos, o setor de turismo foi um dos primeiros a sentir o impacto econômico da pandemia e, provavelmente, será um dos últimos em retomar as atividades por completo.

"Até este momento, contabilizamos uma queda de 73,3% de turistas e um prejuízo de US$ 1,1 bilhão para a cidade no setor", informa o departamento de turismo da intendência de Buenos Aires. "Sabemos a grande contribuição que representa no PIB do país, bem como nas economias regionais", reconhece o Ministério do Turismo.

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O fluxo de turistas na capital caiu mais 70% no últimos meses
Imagem: Getty Images

Setor gastronômico é uma dos mais afetados

Ao passear pela região próxima ao cemitério da Recoleta, onde está sepultada Evita Perón e outras personalidades da política argentina, era muito comum ouvir o idioma português. Em um dos lugares que mais atraía os brasileiros, está localizado também o Café La Biela desde 1942.

Seu proprietário, Carlos Gutiérrez, um espanhol estabelecido na Argentina há mais de 50 anos, conta a Nossa que as perdas ocasionadas pelo novo coronavírus conseguiram superar até mesmo os prejuízos da grande crise de 2001.

Aquela crise foi uma piada perto desta. Porque em 2001 seguíamos abertos, ainda havia turismo. Agora, estivemos fechados por quase 5 meses"

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Fachada do La Biela, no turístico bairro da Recoleta: atendimento apenas em mesas na calçada
Imagem: Luciana Rosa/UOL

"O turismo corresponde a 50% do nosso faturamento, portanto quando nos permitirem abrir o salão (porque agora só podemos atender na calçada), o turismo vai, sim, fazer muita falta, especialmente o brasileiro", explica o empresário.

Gutierrez está à frente do La Biela desde 1966. Antes, o lugar se chamava AeroBar e costumava abrigar encontros de jovens fãs de automobilismo.

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Estátuas do piloto de F1 argentino Manuel Fangio recebem os visitantes no La Biela
Imagem: Luciana Rosa/UOL

Por esta razão, na porta de entrada os clientes são recepcionados por estátuas do piloto argentino Manuel Fangio, ícone da Fórmula 1. Antes disputadas para selfies, as representações do ídolo nacional atualmente aguardam solitárias a chegada de mais gente.

No salão interno, estátuas com representações em tamanho real de ícones da cultura argentina, como Jorge Luis Borges, que era vizinho do bairro, são os únicos "clientes" permitidos nas mesas e no balcão.

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Reprodução em tamanho real de ícones da Argentina: únicos "clientes" do salão interno atualmente
Imagem: Luciana Rosa/UOL

Prejuízo à mesa

Na cidade de Buenos Aires a perda para o setor gastronômico foi enorme: estima-se que 2 mil estabelecimentos tenham fechado suas portas durante a pandemia. "E acho que, sem o turismo, vão seguir fechando", sentencia Gutiérrez.

Outras casas sofrem não apenas com a redução da clientela. É o caso do restaurante de comida mexicana gourmet Ulua, de Jesus Cabrera, que hoje fatura 25% do que arrecadava antes de março.

Para Cabrera e seus sócios, um dos problemas é conseguir matéria-prima para as receitas. "Com o fechamento das fronteiras, temos dificuldade para trazer ingredientes", diz o empresário.

Um ají ou um chile [tipos de pimenta], que antes de março importávamos por R$ 28 o quilo, hoje está custando R$ 285"

"Nós tínhamos aberto há apenas 6 meses quando tudo isso aconteceu, e jamais havíamos planejado ter produtos para delivery. Tivemos que repensar todo o serviço", relata Cabrera, dono do restaurante que chegava a ter filas de espera de até 40 minutos.

Caminito sem cor

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Caminito: de "mar de gente" a ruas desertas durante a pandemia
Imagem: Luciana Rosa/UOL

Outro ponto da cidade que se alimentava da circulação de turistas, em especial dos brasileiros, é o Caminito, tradicional bloco de ruas no bairro de La Boca, conhecido por suas casinhas coloridas, lojas de artesanato e locais para lanches, tragos e refeições.

Apesar da flexibilização da quarentena, na última semana, com a autorização para bares e restaurantes atenderem nas calçadas, o cenário ainda é desértico.

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Mesmo com a permissão de atendimento em mesas externas, a falta de turistas estrangeiros não permite a retomada
Imagem: Luciana Rosa/UOL

Com a maioria dos restaurantes e lojas de souvenires fechados, a sensação é de que, enquanto as fronteiras permanecerem fechadas, o ponto de visita obrigatória para qualquer turista que passa por Buenos Aires não poderá se recuperar.

Antes, era um mar de gente caminhando por aqui. Agora, temos algo em torno de 5% de circulação -- e olha que estou exagerando um pouco"
Federico Muguinai, gerente da parrilla Vieja Rotisseria.

"Nosso foco principal sempre foram os turistas, principalmente os brasileiros, que representavam entre 60% e 70% da clientela. Eu espero que para o verão já se comecem a abrir as fronteiras", diz Federico. Ele conta que pelo menos três restaurantes do Caminito já fecharam suas portas definitivamente.

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A clássica foto no banco com a personagem Mafalda: agora sem filas para a selfie
Imagem: Luciana Rosa/UOL

Será o fim do Tango?

É impossível pensar em Argentina sem lembrar-se de tango, uma de suas manifestações culturais mais difundidas ao redor do mundo. Entre as mudanças trazidas pela pandemia do novo coronavírus, está a interrupção das milongas.

A proibição das tradicionais reuniões para dançar tango e das aulas do ritmo levou o setor a uma crise da qual não sabem se poderão sair.

Com 5 meses e meio da pandemia, o governo da cidade não destinou nenhum centavo de ajuda extraordinária para os profissionais do tango e da cultura"
Julio Bassan, presidente da associação dos organizadores de milongas

O Ministério da Cultura da Cidade de Buenos Aires mantém um fundo chamando Bamilonga, que visa prover auxílio econômico às milongas. Porém, segundo relata Bassan, a ajuda acabou não chegando no bolso da maioria dos profissionais do setor.

tango - Ente de Turismo de la Ciudad de Buenos Aires/Divulgação - Ente de Turismo de la Ciudad de Buenos Aires/Divulgação
Cerca de 1,4 milhão de profissionais dependem do tango, cujos salões estão proibidos de funcionar
Imagem: Ente de Turismo de la Ciudad de Buenos Aires/Divulgação

É difícil imaginar a capital portenha sem um casal dançando a cada esquina. Mas, além da questão identitária, está o grande vazio econômico deixado pela falta de atividade cultural e turística de uma indústria que gera milhões de dólares anualmente. Segundo estimativa da Assembleia Federal de Trabalhadores do Tango, cerca de 1,4 milhão de pessoas dependem de alguma atividade ligada ao ritmo de Gardel.

Os novos protocolos de distanciamento social e proibição de reuniões de mais de dez pessoas trazem a dúvida sobre se esse seria o fim das milongas.

O tango não vai morrer nunca, os que estão morrendo de fome são os trabalhadores da área"
Julio Bassan

Para tentar solucionar o problema, na semana passada foi aprovada na Câmara de Deputados a Lei Emergencial de Sustentabilidade e Reativação do Turismo. O projeto destinará aproximadamente US$ 1 milhão para ajudar os trabalhadores do setor.

Corredores de turismo

Outro projeto a ser posto em prática pelo Ministério do Turismo é a criação de "corredores seguros" para promover o intercâmbio turístico entre cidades argentinas e da América do Sul, como Montevidéu (Uruguai), Assunção (Paraguai) e Santiago (Chile). De acordo com a proposta, para estes destinos estaria permitido viajar sem justificativa prévia.

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A cidade de Buenos Aires tenta, junto à OMT, o selo de destino seguro
Imagem: Getty Images

Numa segunda fase, outros destinos entrariam na rota, como Rio de Janeiro, São Paulo, Lima e Bogotá. Eles comporiam o que o governo argentino pretende impulsionar como a Rede de Destinos Seguros.

A execução de protocolos de segurança sanitária homologados internacionalmente permitiria a retomada da circulação entre estes destinos, que representam 60% dos visitantes estrangeiros que chegam aos país anualmente.

Para adequar-se às medidas, o governo da cidade de Buenos Aires elaborou uma série de protocolos que foram enviados ao Conselho Mundial de Viagem e Turismo (WTTC) com o objetivo de obter o selo de destino seguro.

"Este é o ponto de partida para reativar a indústria. Estamos trabalhando em um plano integral para potencializar o turismo nos bairros, a partir de circuitos de caminhada e tours em bicicleta, o que permitiria reativar os comércios locais e reaquecer a economia", afirma em nota o órgão de turismo portenho.

O governo local estima que irá reabrir para os visitantes estrangeiros neste verão. No entanto, ainda não existe uma data para o retorno dos voos domésticos ou internacionais ao país e companhias aéreas como Latam, Qatar e Emirates deixaram de operar na Argentina.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, em 2019, o turismo injetou US$ 2,5 bilhões de dólares na economia de Buenos Aires; e não U$ 2,5 milhões.