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Óculos ostentação: por que acessórios da Prada e outras grifes são caros?

Vídeo sobre o óculos Prada viralizou no Twitter e causou reações entre os internautas, como o meme que lembrou do filme famoso - Reprodução/Twitter
Vídeo sobre o óculos Prada viralizou no Twitter e causou reações entre os internautas, como o meme que lembrou do filme famoso Imagem: Reprodução/Twitter

Maria Carolina Gimenez

Colaboração para Nossa

22/07/2020 17h17

A palavra Prada entrou nos Trending Topics do Twitter depois que uma usuária do TikTok postou um "vídeo-ostentação" sobre um óculos da grife italiana que, segundo ela, apenas a armação custou R$ 1,2 mil. O valor despertou a pergunta: por que os óculos de grife são tão caros?

Quando falamos em valor agregado de uma marca, pensando, neste caso, nas grifes de luxo do mercado de moda, o conceito "exclusividade" quase se sobrepõe a tradição e qualidade desejadas de um produto desse setor. Ao adquirir um óculos de uma marca de luxo, espera-se uma criação única, acabamento impecável, com design diferenciado e melhor matéria-prima.

Não é difícil crer no prestígio da etiqueta, uma vez que — das maiores marcas conhecidas — Louis Vuitton, Chanel, Gucci, Dior e Prada estão no ranking das 100 marcas mais valiosas do mundo, segundo relatório elaborado em 2019 pela consultora inglesa Interbrand.

Mas, certo, sabemos então que essas grifes têm seu valor quase inacessível, justificado com peças que atendem a todas as especificações de um artigo de luxo e mantém, de certa forma, um status de "pertencer" para quem os possui. Agora, excluindo um pouco o hype, o que no processo de produção realmente encarece um óculos de sol ou de grau?

óculos luxo - Getty Images - Getty Images
Muito além de óculos: exclusividade conta pontos na hora de estabelecer o preço
Imagem: Getty Images

O preço da qualidade

Em entrevista com a gerente de marcas do Grupo Luxottica, maior empresa ótica do mundo, fabricante e distribuidora com uma gama de licenciamento que atende às principais marcas de luxo do mercado, uma questão ficou clara: o minucioso trabalho manual em fábricas especializadas e a confecção à base de matérias-primas de alta qualidade entram como uma boa justificativa para o valor elevado.

Uma rápida aula teórica explica que existem três materiais para produção da armação de óculos. São eles o metal, mais barato e de rápida manipulação; o acetato, material orgânico, originado do pó de algodão, misturado com solventes específicos num processo artesanal que resulta em uma massa, pigmentada na coloração desejada — aqui inclui cores e efeitos diferentes que não são possíveis se fazer nos demais materiais — e cortada manualmente no formato dos óculos, como uma escultura; e, por último, a fibra de náilon, material extremamente resistente, com manuseio apenas em temperaturas acima de 400 graus, normalmente utilizada para óculos de modelo esportivo, com a técnica de injeção dentro de um molde específico e pré-estabelecido.

Quanto às lentes, na maioria das vezes as marcas de luxo utilizam o cristal como matéria-prima, o que significa compararmos a qualidade de uma lente de vidro a uma de plástico. Então, a pureza visual é, de fato, muito maior. Obviamente, o tratamento é diferente e essas características agregam valor ao produto — como, por exemplo, óculos com lentes espelhadas, degradê ou polarizadas, que funcionam como um filtro removedor de reflexos do sol.

Manufatura quase artesanal

Ainda sobre o processo de produção, é interessante ressaltar que, quando falamos na Persol, por exemplo, uma marca italiana do Grupo Luxottica, fundada em 1917 e famosa pela presença no cinema — desde Steve McQueen até 007 —, a execução de uma única peça conta com cerca de 100 passos manuais.

Soma-se a essa característica o fato de existir apenas uma fábrica da marca no mundo, localizada em Turin, cidade nortenha da Itália, que produz uma quantidade limitada de peças.

Deve-se levar em conta ainda um adendo importante: como são produtos importados, as altas tributações de exportação da Europa para o Brasil impactam diretamente o custo final dos óculos.

Preço justo?

Conversando com Arthur Blaj, fundador da Livo Eyerwear, marca nacional que carrega a assinatura "óculos de design não precisam custar os olhos da cara", a prática do "preço justo" no setor ótico é relativa, uma vez que, segundo ele:

Muitas das grifes não produzem os óculos, elas são licenciadas e os produtos têm uma qualidade de confecção de indústrias de outras marcas que vendem os óculos a um terço do preço das grifes de luxo".

Para exemplificar, Arthur conta que a própria Livo faz isso: fabrica peças nas mesmas indústrias e com o mesmo padrão de qualidade de grifes que vendem muito mais caro. "Então, isso é uma questão-chave e relevante, pois, literalmente, por conta de uma logomarga, um acabamento e questões estratégicas comerciais, a precificação é feita de uma forma muito aleatória", comenta o empreendedor.

Ao criticar a modernização que nunca aconteceu no processo de distribuição do setor ótico, Arthur conta que a Livo foi montada em cima da tese de que, sim, é possível oferecer óculos de design e qualidade, com experiência incrível e a "preço justo" por conta dessas aleatoriedades do mercado ótico, e ressalva:

Na minha visão, o luxo do inacessível, do caríssimo só por ser caríssimo é antiquado. Os conceitos luxo e sofisticação são outras coisas hoje em dia".