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Após 4 anos isolada em veleiro, brasileira enfrenta epopeia para viajar

No barco, Marina participa de festa com moradores de Fiji, em 2018 - Arquivo pessoal
No barco, Marina participa de festa com moradores de Fiji, em 2018 Imagem: Arquivo pessoal

Marina Guedes

Colaboração para Nossa

19/07/2020 04h00

Nunca imaginei que "voltar a viver na civilização" fosse se transformar em algo tão diferente do que estava acostumada, principalmente no que diz respeito às viagens aéreas internacionais. Nos últimos quatro anos morei em um veleiro, monocasco, de pouco mais de 12 metros de comprimento.

Nele percorremos o oceano Pacífico Sul, dos Estados Unidos até a Austrália. Para meu espanto, porém, a travessia mais confusa que experimentei aconteceu há mais de duas semanas, quando voei da terra dos cangurus ao velho continente.

O barco, felizmente, foi vendido em janeiro. No momento certo, acredito, tendo em vista que, em tempos de pandemia, a prioridade das pessoas não deva estar focada na compra de um veleiro, principalmente sabendo que a maioria das fronteiras permanece fechada. Até março, viajávamos de carro pela Tasmânia, única ilha-estado australiana. Foi lá onde passei dois meses em lockdown.

Vista da casa onde Marina permaneceu em lockdown, na Tasmânia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vista da casa onde Marina permaneceu em lockdown, na Tasmânia
Imagem: Arquivo pessoal

O projeto seguinte - ir até a Itália - teve que ser "engavetado" até a primeira semana de julho, quando a Europa finalmente autorizou a entrada de 14 países fora da União para o turismo. Austrália, para nossa sorte, fazia parte da lista. A maior dificuldade não foi encontrar opções de voos com preços razoáveis, mas entender as regras de viagem para cada local, mesmo estando os destinos dentro de um mesmo continente.

Começa a epopeia

Na primeira parte da viagem - da Tasmânia até Melbourne, em um voo doméstico de uma hora de duração - tudo tranquilo. Não fosse a calmaria no aeroporto de Launceston, ao norte, de onde partimos, era quase impossível perceber qualquer mudança em razão da pandemia.

Ninguém usava máscara e todas as poltronas ocupadas. Mas, foi na segunda cidade mais populosa da Austrália que a confusão começou.

Um dia antes do embarque, para ficarmos tranquilos, decidimos ir ao Consulado Italiano em Melbourne. Em tom de brincadeira, uma das funcionárias nos explicou que eu poderia seguir. Disse, ainda, que "eram sempre os últimos a saber", mas garantiu que não haveria problema quanto à minha entrada no país.

Prestes a fazer o check-in na Qatar, ao apresentar meu passaporte brasileiro, a desagradável surpresa: não poderia viajar".

Segundo o gerente da empresa, somente por razões específicas, contradizendo as informações no site do governo italiano.

A orientação do site do Ministério das Relações Exteriores da Itália determina que seja preenchido e apresentado um documento atestando relacionamento estável, por exemplo, como razão para a entrada de estrangeiros. Foi justamente o que providenciamos, já que meu companheiro é cidadão italiano e residente naquele país.

Entretanto, não há consenso, e sim grande confusão nas informações, pois o mesmo formulário oficial não foi aceito pela empresa aérea. Também tivemos o cuidado de verificar, dias antes, por telefone, junto à polícia de fronteira no aeroporto de Fiumicino, em Roma, como estava a situação. A informação passada endossava que não haveria qualquer impedimento.

Voo de Melbourne, na Austrália, a Doha, no Qatar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Voo de 14 horas entre Melbourne, na Austrália, e Doha, no Qatar
Imagem: Arquivo pessoal

O primeiro deslocamento seria de 14 horas até Doha, no Catar. Na sequência, outras cinco horas para Roma. Àquela altura, a solução foi mudar o destino final e desembarcar na capital francesa, sem restrições.

Felizmente, isso foi possível porque havia vaga em outro voo, no segundo trecho, de Doha até Paris, que também partiria no dia seguinte pela mesma companhia.

Antes de embarcar para Paris, em Doha - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Antes de embarcar para Paris, em Doha
Imagem: Arquivo pessoal

Dois embarques e pouco mais de 20 horas depois - com o incremento, desconfortável, de máscara e escudo de plástico sobre o rosto durante toda a viagem, a chegada na França ocorreu sem complicações. Tais proteções faciais só podiam ser temporariamente removidas durante as refeições. Distraídas, algumas pessoas chegavam a derramar líquidos sobre os acessórios quando esqueciam de removê-los, minutos antes de começarem a jantar - situação, a meu ver, renderia tema para comédia nos palcos, não fosse trágica.

No setor de imigração e verificação de passaportes, uma realidade bem diferente, com uso obrigatório de máscara. Além disso, algumas pessoas, na dúvida, continuavam a portar o escudo protetor facial. Todos os viajantes na mesma fila, sem distinção de nacionalidade como tradicionalmente ocorria.

Saga terrestre

Passaporte carimbado, decidimos alugar um carro por conta do preço. O limite de bagagens despachadas nos voos da Qatar é de 30 quilos por pessoa, ou seja, sete a mais do permitido entre voos europeus na categoria econômica.

Na prática, custava menos ir até a Itália pela estrada do que pagar a diferença referente aos 14 quilos que tínhamos em excesso, caso viajássemos novamente de avião. A chance de conhecer cenários franceses onde não havia obrigatoriedade de quarentena também pesou a favor na decisão de ir de carro.

Antes, porém, um trecho de trem que durou cerca de seis horas até a Costa Azul, famoso destino de verão europeu. A bordo, todos de máscara.

No trem, em Paris - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No trem, em Paris
Imagem: Arquivo pessoal
No trem, já em Paris - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No vagão que antes funcionava como restaurante, apenas a compra era permitida; o consumo deveria ser feito na poltrona de viagem. Havia sinalização em todos os cantos, orientando para que respeitassem a regra de distanciamento de 1 metro entre cada um, mesmo que, na prática, isso não fosse possível.

Terminada a viagem ferroviária, os 500 quilômetros seguintes foram de carro até o destino final, nas proximidades de Roma. Para nossa surpresa, não houve qualquer fiscalização.

Marina passa, de carro, pela fronteira entre França e Itália - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marina passa, de carro, pela fronteira entre França e Itália
Imagem: Arquivo pessoal

Ao contrário da França e dos demais países que agora permitem turistas estrangeiros, a Itália determina duas semanas de quarentena domiciliar aos recém-chegados que, nos últimos 14 dias tenham estado em localidades fora dos estados da União Europeia e Acordo de Schengen. Assim, as duas primeiras semanas em solo italiano foram em casa, recuperando do cansaço físico da viagem que, por vezes, parecia não ter fim.

Desde o início do lockdown ouvi, de familiares e amigos, comentários sobre minha suposta facilidade em lidar com a situação, afinal, depois de tanto tempo embarcada, deveria estar acostumada a viver em espaços limitados. De certa forma, acho que aprendi a ser mais paciente.

Vista do isolamento, já na Itália - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vista do isolamento, já na Itália
Imagem: Arquivo pessoal

Mas, viver em um veleiro é completamente diferente do que está havendo em escala global. Além da incerteza, ainda há uma enorme preocupação quanto à possibilidade de contaminação pelo vírus. No barco, mesmo que os planos não saíssem como desejávamos, a vida era bem mais tranquila.

Concluído o período de confinamento domiciliar exigido nacionalmente, avalio que o momento não empolga para o turismo. Um dos primeiros locais que visitei foi a vila de Castellucio di Norcia, na região de Úmbria, famosa pelos campos floridos das plantações de ervilha. Um espetáculo natural, é verdade. Porém, a sensação geral ainda é de preocupação e estranhamento frente ao sério problema de saúde não solucionado.

Visita à vila de Castellucio di Norcia, na região de Úmbria - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Visita à vila de Castellucio di Norcia, na região de Úmbria
Imagem: Arquivo pessoal