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Artesão mudou de vida graças à arte cerâmica, há cinco gerações na família

As carrancas, tradicionais de Tracunhaém (PE), ganharam releitura por Edson Batista - Arquivo pessoal
As carrancas, tradicionais de Tracunhaém (PE), ganharam releitura por Edson Batista Imagem: Arquivo pessoal

Carol Scolforo

Colaboração para Nossa

07/07/2020 04h00

Edson Batista

Edson Batista

QUEM É

Ceramista da quinta geração de artesãos em Tracunhaém, Pernambuco. É neto da mestra Severina Batista, mas iniciou no ramo há pouco tempo, imprimindo uma identidade própria às tradicionais figuras de carrancas e santos.

Em Tracunhaém, Pernambuco, o barro se transforma em arte e evoca o saber ancestral. Neto da mestra artesã Severina Batista (1933-1981), Edson Batista sempre sentiu a responsabilidade de carregar o legado e o nome dela.

Dona Severina havia aprendido com a mãe e a avó a fazer santos, transmitiu ao filho Luiz Gonzaga, tio de Edson — e assim a linhagem de artesãos chegava à quinta geração com ele.

No entanto, até quatro anos atrás, Edson trabalhava em uma empresa de telecomunicações. "Eu não era muito interessado nisso. Foi só no final de 2016, quando passei um tempo desempregado, que quis fazer arte. O despertar veio com o incentivo do meu tio, que me levava para a Fenearte".

Naquela época, Edson precisou voltar a trabalhar na empresa de dia por três anos, para pagar as contas. À noite, fazia arte em casa. "Comecei a vender bem, cinco peças por mês. Para um começo, era bom e eu passei a gostar."

Era assim: de dia instalava telefone e internet pensando nas peças, à noite, chegava em casa e criava"

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Autoditada, Edson imprime uma visão original em suas obras
Imagem: Arquivo pessoal
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O artista faz releituras em figuras tradicionais da arte cerâmica
Imagem: Arquivo pessoal

Começo do sucesso

Os elogios vinham dos mestres e dos turistas que iam ver sua arte de perto. O movimento crescia, até chegar a pandemia. "Isso me estimulou muito. Fiquei trabalhando até conseguir um terreno e construir meu ateliê", conta.

Na primeira Fenearte que participou, em 2019, das 80 peças que Edson expôs, apenas 10 não foram vendidas — imagine só. Muitas delas tinham destino certo: as mãos de decoradores e colecionadores.

"Quando comecei, queria criar coisas que ninguém nunca viu. Precisava colocar os traços da minha família, mas procurar minha identidade. Olhei muitas fotos do que minha avó fazia e nas feiras eu observava as carrancas. Pensava: as minhas vão ser outra coisa"

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As figuras de santos estão entre as mais procuradas
Imagem: Arquivo pessoal
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Inclusive nelas, o artesão busca uma linguagem própria
Imagem: Arquivo pessoal

Processo manual e lento

Assim nasceram as carrancas leão e dragão. "Todas têm uma história. Tem mês que faço 10, 15 peças, mas variam os tamanhos e o trabalho é todo manual", diz Edson.

A técnica leva um processo de muitas etapas: primeiro as mãos moldam o barro para fazer o bojo e os furos para tirar o ar. Depois, as esculturas vão ao vento, para ganhar movimento natural, segundo o artesão.

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O artesão produz até 15 peças por mês, em um processo cuidadoso e criativo
Imagem: Arquivo pessoal

No outro dia, as peças são trabalhadas durante horas — seguindo a criatividade de Edson — e são passadas na bucha, para enfim ganharem um ar rústico, detalhado. Em forno primitivo, com lenha degradada encontrada na floresta, ele faz a queima. E pronto: a peça já pode ser despachada para seu dono.

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Obra Reclusão, criada durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal
No momento, o carro-chefe de vendas é a obra Reclusão, que evoca o tempo da pandemia da covid-19. "As imagens de santos também saem muito", diz.

Se a arte muda vidas? "Larguei emprego e hoje vivo só dela. Amanheceu o dia, estou no ateliê. Vou lá de domingo a domingo por prazer, o dinheiro é consequência. Um dia faço um museu com as melhores peças, porque algumas não tenho vontade de vender", conta Edson. Fica aqui nossa torcida!

Artistas que me inspiram

Alceu Valença

Trabalho ouvindo as músicas dele diariamente. É uma inspiração constante.

Severina Batista

Minha família é minha maior inspiração. E tudo ganhou força com o trabalho da minha avó Severina.