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Guias e condutores de turismo se reinventam em tempos de pandemia

Sem turistas, o trabalho de guias e condutores deve mudar bastante. Até lá, eles se viram em outras funções - Getty Images
Sem turistas, o trabalho de guias e condutores deve mudar bastante. Até lá, eles se viram em outras funções Imagem: Getty Images

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

18/05/2020 04h00

Desde que a crise do coronavírus começou a fazer estragos, em meados de março, assistimos a uma enxurrada de promoções e campanhas, encabeçadas por companhias aéreas e agências de viagens.

Mas pouco se falou de um dos profissionais ainda mais afetados pela paralisação do setor turístico.

Acostumados ao trabalho autônomo e sem renda fixa, condutores e guias de turismo se viram obrigados a buscar alternativas para conseguirem fechar o mês com algum dinheiro no bolso.

Para ter uma ideia da capacidade de se reinventar nessa temporada de quarentena, tem guia que virou grafiteiro, catador de caranguejo no mangue e tem até alguns pensando em mudar de ramo com o sucesso do novo negócio.

Porém quando tudo se normalizar, nada deve ser como antes. E os guias, assim como toda a indústria do turismo, não devem passar ilesos ao "novo normal" que vem aí.

Criatividade e trabalho personalizado

Para Adriana Gradim Perdiza, presidente do Sindegtur SP (Sindicato Estadual dos Guias de Turismo de São Paulo), esse profissional vai ter que repensar seu trabalho. Por questões de saúde e segurança, a abertura do setor deve ser gradativa, com grupos reduzidos e em locais com pouca aglomeração.

"Vai sobreviver quem tiver mais criatividade, responsabilidade, ética e melhor capacitação na área", avisa Adriana em entrevista para o Nossa.

A empresária Érika Sanches, proprietária de um hotel boutique na Bahia, acredita que os guias levam o turista para atrativos que muitas vezes nem os moradores conhecem. "Daqui para frente, o guia deverá fazer um trabalho mais personalizado nesse novo turismo que deve surgir", avalia Érika.

Selma Barreto, 49 anos e Elias Jácome, 48 anos (Rio Grande do Norte)

Elias Jácome e Selma Barreto, do Rio Grande do Norte - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Elias Jácome e Selma Barreto, do Rio Grande do Norte
Imagem: Arquivo pessoal

Saem os famosos bugues coloridos sobre dunas de Natal; e entram shampoos, compressores e muita disposição para trabalhar.

Há 30 anos atuando no turismo da capital potiguar, esse casal de bugueiros tem feito sucesso no próprio condomínio onde mora, lavando os carros dos vizinhos.

"É assim que estamos conseguindo honrar nossos compromissos, pois o turismo não deve retornar esse ano", avalia Selma, cujas opções de serviço incluem também compras no supermercado para idosos em quarentena, socorro mecânico e até troca de pneu.

Apesar do sucesso ("tem que agendar com uma semana de antecedência"), o que ganhavam em um dia de tours representa, atualmente, uma semana inteira do novo trabalho.

Mas Selma adianta que o casal já está pensando em abrir um negócio do gênero, quando tudo isso passar. "Os clientes já estão preocupados em ficar sem o nosso trabalho quando o turismo voltar", diz Selma.

Yann Monteiro Estivil Bustos, 25 anos (Mato Grosso)

Yann Monteiro Estivil Bustos, de Mato Grosso - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Yann Monteiro Estivil Bustos, de Mato Grosso
Imagem: Arquivo pessoal
Com o fechamento dos atrativos e diminuição da malha aérea, Yann se mudou para Barra do Garças, na região da Serra do Roncador, para se dedicar a grafites em fachadas de lojas comerciais.

Mesmo com seu conhecimento em desenhos a carvão e alguns trabalhos no currículo, o condutor de turismo confessa que "a qualidade de vida caiu muito e as dívidas se acumularam". Yann estima uma perda de 70% na renda.

"Antes era um trabalho mais certo e eu tinha saídas com turistas pelo menos duas vezes por semana", lamenta esse guia da Chapada dos Guimarães.

Aline de Jesus Viana, 32 anos (Rio de Janeiro)

Aline de Jesus Viana, do Rio de Janeiro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aline Dias Viana, do Rio de Janeiro
Imagem: Arquivo pessoal
Apesar da formação em engenharia e história da arte, essa guia carioca viu seus rendimentos praticamente desaparecerem. "Caiu 100%, eu não tinha outra renda", analisa.

Para segurar as pontas em tempos de escassez, Aline trocou os passeios presenciais em atrativos do Rio por tours virtuais em lives do Facebook com softwares usados em streaming de videogame.

Com seu 'Quarentour Colaborativo', como chama o novo trabalho, a guia vive agora de contribuições voluntárias dos turistas virtuais que a acompanham em roteiros online com foco em arquitetura e com cerca de duas horas de duração, em endereços como a Praça Mauá e a Cinelândia.

"Não dá para pagar as contas e não consigo me sustentar com essas doações, mas ajuda no pagamento de uma conta ou nas compras de mercado", explica Aline. De acordo com seus cálculos, atualmente, recebe cerca de 10% da renda que tinha antes da pandemia.

Léo Nascimento, 35 anos (Bahia)

Léo Nascimento, da Bahia - Aquivo pessoal - Aquivo pessoal
Léo Nascimento, da Bahia
Imagem: Aquivo pessoal
"O turismo de massa vai acabar e uma nova consciência vai se formar. Serão novas possibilidades de viajar de uma maneira mais sustentável".

É assim que esse capixaba vê o mundo do turismo pós pandemia.

Guia em Arraial d'Ajuda, distrito de Porto Seguro, Léo tem usado seus conhecimentos em ecoturismo e turismo de aventura para a reformulação de passeios para uma agência local focada no turismo de experiência.

"Foi uma alternativa que a agência me deu para que eu conseguisse me manter nessa paradeira", explica Nascimento, que também faz trail running (corrida em trilha) e tem produzido material publicitário, como fotos e vídeos de suas atividades como atleta.

"A cidade respira turismo, mas como tudo parou, ficamos de mãos atadas. Mas minha renda atual não chega nem perto do que eu ganhava antes", conclui.

Giles Santos, 26 anos (Bahia)

Giles Santos, da Bahia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Esse baiano acredita que as perspectivas para o turismo são só para 2021. Ainda assim, projeta uma perda de cerca de 70% do trabalho na próxima temporada de verão no estado.

"Não vai ter turista suficiente e o público não terá dinheiro", avalia.

Para compensar a perda de 100% da renda que tinha como profissional cadastrado do turismo, Santos agora ajuda a mãe marisqueira e, diariamente, sai com ela para pegar caranguejo em mangues do Rio Buranhém, em Porto Seguro.

Nas quatro horas que costumam ficar dentro do manguezal, chegam a pegar até 50 caranguejos, que são vendidos para moradores locais e restaurantes (quando ainda estavam abertos para o público).

Cecília Kawal, 54 (Mato Grosso)

Cecília Kawal, do Mato Grosso - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cecília Kawal, do Mato Grosso
Imagem: Arquivo pessoal
Com uma perda de cerca de 90% da renda, essa guia da Chapada dos Guimarães teve que trancar a faculdade e devolver o carro que havia comprado.

Para sustentar os quatro filhos e manter a casa, desde março, se dedica a produzir e vender pães caseiros. "Os pães garantem a feira da semana", conta Cecília, que também acredita que o movimento turístico da próxima alta temporada na região não deve ser superior a 20%.

"Esse ano, só no ano que vem", conclui.

Guia ou condutor?

Segundo definição do Ministério do Turismo, um guia de turismo é o profissional com registro no Cadastur (Cadastro dos Prestadores de Serviços Turísticos) e com curso de formação específica para "acompanhar, orientar e transmitir informações", nas esferas regional, nacional e internacional.

Como lembra Adriana Gradim Perdiza, um guia deve passar, obrigatoriamente, por um curso de no mínimo 800 horas, o que lhe garante maiores conhecimentos técnicos e pedagógicos da sua área de atuação.

"O guia é o único profissional do setor do turismo regulamentado por lei", explica.

Já o condutor é aquele que tem capacitação para atuar em uma determinada unidade de conservação ou atrativo, conduzindo visitantes em "espaços naturais e/ou áreas legalmente protegidas".