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Em ofício "romântico", artesão transforma madeira em objetos únicos

Obras em madeira de Lucas Lopes das Neves, da Arbol - Reprodução/Instagram
Obras em madeira de Lucas Lopes das Neves, da Arbol Imagem: Reprodução/Instagram

Fernanda Fadel

De Nossa

11/05/2020 04h00

Lucas Lopes das Neves

Lucas Lopes das Neves

QUEM É

Arquiteto formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie se dedica à marcenaria e cria sua obras em ateliê próprio, além de vendê-las pela marca Arbol

"Quando você compra uma peça de design/arte, você compra também um pouco da pessoa que fez aquela obra", explica Lucas Lopes, que tem como obras autorias na marcenaria os batizados "banco sabiá", a "cadeira caipira", o "criado cubo".

É com matéria-prima, talento, protótipos e muita intuição que nascem as peças do acervo do arquiteto. A inspiração? As miudezas da observação; "da natureza e do mundo ao redor".

Em certo dia de calmaria da casa dos pais em Jundiaí (interior de São Paulo), uma delicadeza da natureza não passou despercebida aos olhos de Lucas. Limpando o quintal, notou que havia várias sementinhas que caíam e germinavam nos pés de uma frondosa árvore.

Vi que aquilo tinha um significado e pensei em criar algo representando que tudo o que é grandioso teve um começo muito pequeno"

Obra gotejador de Lucas Neves, do @arbol_arts - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Obra com gotejador de Lucas Neves, do @arbol_arts
Imagem: Arquivo pessoal

E fiz uma obra mostrando o início daquela planta". Uma obra interativa, que mistura partes em madeira e latão com uma lupa e um gotejador de vidro.

Parte da obra com gotejador de Lucas Neves - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Parte da obra com gotejador de Lucas Neves
Imagem: Arquivo pessoal

Trajetória "romântica"

Apesar da formação, a arquitetura não matou a fome artística de Lucas, que desde a infância reproduz figuras da flora e da fauna em papel-manteiga.

"Trabalhei em dois escritórios e ficava o dia inteiro no computador. Tinha pouco trabalho prático e manual que é o que sempre gostei. A arquitetura dá técnica e conhecimento, mas traz suas limitações", relembra. Dali em diante, fez um curso de marcenaria que veio para saciar um tanto da liberdade criativa e autoral que buscava.

Lucas Lopes das Neves em seu ateliê em Jundiaí, no interior de São Paulo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lucas Lopes das Neves em seu ateliê em Jundiaí, no interior de São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

Lucas se afastou das telas, ganhou o novo amor pela madeira e criou um ateliê no fundo da chácara dos pais, num terreno repleto de verde e de bichos, onde passou muito tempo dando vida aos projetos.

"Existe uma coisa até meio romântica de pensar no trabalho de artesão, onde ele faz tudo só, porque é algo bem diferenciado do esquema industrial. A humanidade foi do manual para o extremo industrial, e agora está dando valor de novo para o que é manual. Acho que é um ciclo que sempre volta atrás porque tudo se satura, né?".

Apesar da filosofia do ofício, Lucas não deixa de pensar o preço de uma obra, que tem outros valores invisíveis envolvidos — a escolha da matéria-prima, por exemplo.

"Só me frustro um pouco porque quem compra esse tipo de peça são as pessoas que tem mais poder aquisitivo. É um nicho específico que compra design".

Lucas Neves desenvolve uma de suas obras de marcenaria em seu ateliê - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lucas Neves desenvolve uma de suas obras de marcenaria em seu ateliê
Imagem: Arquivo pessoal

Marcenaria para o mundo

Em setembro, Lucas encostou as portas de seu ateliê e mudou-se para Portugal para fazer mestrado na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

O apetite pela arte e pelo fazer à mão ficou ainda maior com a trajetória na marcenaria e o próximo passo dele é estudar e se aprofundar nas artes plásticas no ramo da escultura.

"Quero experimentar para ver e, quem sabe, abrir portas melhores ainda", diz o artista que já morou e fincou raízes em Belém do Pará, Costa Rica, Estados Unidos, Jundiaí e Lisboa.

"Não tem caminho fechado, não tem certo e errado, é uma caminhada constante. Quando eu parar de buscar algo mais, meio que acabou a vida para mim", explica.