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Como o maior blogueiro de viagem do mundo sobrevive ao covid-19

Matthew Kepnes, em Madagascar: mais de 100 países carimbados no passaporte - Arquivo pessoal
Matthew Kepnes, em Madagascar: mais de 100 países carimbados no passaporte
Imagem: Arquivo pessoal

Adriana Setti

Colaboração para Nossa

02/05/2020 04h00

Em meados de fevereiro, o blogueiro americano Matthew Kepnes, de 38 anos, viveu o começo da crise do coronavírus em Taiwan, país insular ao leste da China, que vem dando o que falar por controlar a pandemia sem isolamento social. Saindo da Ásia, passou uns dias em Paris e ainda fez uma parada em Nova York, antes de chegar a Austin, capital do estado americano do Texas. Uma vez em casa, no começo de março, começou a sentir-se mal, com tosse forte, febre e dores no corpo.

Àquelas alturas, Austin acabara de confirmar os primeiros casos de coronavírus, mas ainda não estava preparada para lidar com a doença. "Foi incrivelmente difícil encontrar informação sobre como e onde fazer um exame", conta em entrevista a Nossa o autor do livro How To Travel The World on $50 a Day - Travel Cheaper, Longer, Smarter (sem tradução ao português), que já integrou a cobiçadíssima lista de best sellers do New York Times.

Depois de muito pesquisar, Kepnes descobriu que um hospital privado da cidade estava começando a fazer testes de covid-19. Então, preencheu um formulário on-line para saber se cumpria os quesitos de acesso à análise, pagou US$ 40 e passou de carro por um drive-thru, para coleta de material. No dia 15 de março, o fundador do site Nomadic Matt obteve o resultado positivo.

Tive sorte de ser um dos primeiros infectados por aqui, quando ainda havia capacidade para testar casos não muito graves, como o meu"

"Segui a recomendação de passar 14 dias realmente trancado em casa, mas não fui monitorado por ninguém", conta o blogueiro, que não chegou a ser internado.

Atualmente, o estado do Texas soma mais de 23 mil casos de covid-19 e os Estados Unidos é o país mais afetado do mundo pela pandemia, com mais de um milhão de positivos. "Tive febre na fase inicial e, depois, fiquei apenas com uma tosse forte, que durou até o dia 12", diz Matt.

Mas, para alguém que gosta de acordar cedo, a letargia que veio com a doença foi desmoralizante"

"Isso pesou muito no meu estado mental e acabou fazendo com que me sentisse fisicamente pior. Teoricamente, poderia ter aproveitado pelo menos trabalhar, ler e assistir filmes, mas passei a maior parte dos dias dormindo", conta Kepnes, que já está recuperado e acaba de doar plasma.

O blogueiro em viagem a Montana, antes da pandemia. Depois do novo coronavírus, ele perdou 90% da renda e dos acessos ao blog - Arquivo pessoal
O blogueiro em viagem a Montana, antes da pandemia. Depois do novo coronavírus, ele perdou 90% da renda e dos acessos ao blog
Imagem: Arquivo pessoal

Coronavírus e saúde econômica

Além de ter sentido na pele os efeitos da covid-19, Matt também teve sua saúde econômica duramente afetada pela pandemia. Assim como a maioria dos influenciadores digitais do setor do turismo, ele depende diretamente de viagens. Isso porque boa parte de seu faturamento anual - cerca de US$ 750 mil, segundo a revista americana Forbes - vem da renda gerada por marketing de afiliados. Ou seja, de vendas que derivam de suas recomendações em reservas de hotéis e voos, aluguel de carros, contratação de seguros, entre outras.

Antes do coronavírus obrigar o setor do turismo a hibernar, com bilhões de pessoas confinadas e fronteiras fechadas, Nomadic Matt tinha 1,5 milhão de visualizações únicas por mês, além de 310 mil inscritos em sua newsletter. "Perdemos 90% dos nossos ganhos e acessos", conta Matt, que mantém uma equipe fixa de cinco pessoas, além de colaboradores freelancers.

Estamos reduzindo custos ao máximo e usando nossas reservas para aguentar até o final do verão, quando imagino que as pessoas voltem a viajar, pouco a pouco"

Matthew em Bali, no sudeste asiático - Arquivo pessoal
Matthew em Bali, no sudeste asiático
Imagem: Arquivo pessoal
Se tudo correr conforme suas previsões, a reativação do turismo coincidirá com a próxima edição do congresso TravelCon que, até a publicação deste texto, estava marcado para 18 a 20 de setembro, em Nova Orleans.

Fundado pelo blogueiro, o encontro reúne profissionais da mídia relacionada ao turismo (jornalistas, fotógrafos, blogueiros, youtubers e influenciadores digitais), com mais de 60 palestrantes e entradas vendidas a US$ 399 (produtores de conteúdo) e US$ 999 (empresas).

Enquanto não podemos sair por aí, nos dedicamos a contar histórias de viagens passadas, porque as pessoas ainda estão em busca de inspiração para quando puderem cair na estrada novamente"

"Também estamos trabalhando em programas focados na nossa comunidade e cursos para blogueiros", conta Kepnes, referindo-se à sua escola virtual Superstar Blogging.

Para tentar reverter os efeitos colaterais do covid-19 em suas finanças, Nomadic Matt também acaba de lançar Patreon, um sistema de assinaturas cuja quota mensal, de US$ 3 a US$ 10, dá acesso a posts exclusivos, guias de viagem, lives e entrada grátis a conferências, entre outros benefícios. "Já estávamos caminhando para um modelo mais centrado em nossa comunidade através de eventos, o coronavírus apenas acelerou esse processo" diz Matt, que não revela quantos assinantes conseguiu captar.

Enquanto a pandemia não passa, ele se dedica a contar histórias de viagens passadas, como esse hiking na Tailândia - Arquivo pessoal
Enquanto a pandemia não passa, ele se dedica a contar histórias de viagens passadas, como esse hiking na Tailândia
Imagem: Arquivo pessoal

O futuro do turismo e dos blogueiros de viagem

Ainda que o confinamento não seja obrigatório em Austin, o governo local recomenda que as pessoas fiquem em casa até, pelo menos, 8 de maio. Responsável por colocar a cidade no circuito hipster internacional, o festival South by Southwest (SXSW), de música, cinema e tecnologia, que aconteceria em março, foi cancelado. Além disso, as aulas estão suspensas e o comércio não essencial permanece fechado.

Proprietário do hostel HK Austin, Matt só voltará a abrir as portas no final de maio. "Os albergues vão ser diferentes depois do coronavírus e, quanto mais durar esta crise, menos conseguirão sobreviver", diz o blogueiro, que prevê medidas de limpeza mais rígidas para o setor, dormitórios coletivos com capacidade reduzida e, consequentemente, preços mais altos. "Nosso hostel tem lugar para poucos hóspedes e quartos espaçosos, ainda assim, nos próximos meses tentaremos espalhar as pessoas o máximo possível".

O blogueiro é também proprietário do hostel HK Austin, que permanecerá fechado até o final de maio - Divulgação
O blogueiro é também proprietário do hostel HK Austin, que permanecerá fechado até o final de maio
Imagem: Divulgação

O americano também vem divagando sobre como será a indústria do turismo daqui para frente. "Viajantes fanáticos continuarão rodando o mundo, mas a maioria vai esperar, observar as regulamentações de cada país e, pelo menos por um tempo, focar em destinos locais e domésticos", diz.

As viagens internacionais só vão ganhar força quando novas ondas de contágio deixarem de ser uma preocupação, fazendo com que não haja risco de que mais períodos de quarentena deixem turistas presos no exterior".

Para o blogueiro, que já visitou mais de 100 países, enquanto as regras da nova normalidade não estiverem definidas, as pessoas serão extremamente cautelosas ao embarcar em grandes viagens. "Com o encolhimento da indústria do turismo, também veremos uma redução do número de blogueiros", diz. "Para as pessoas que tocam um blog como atividade paralela, talvez a crise não seja tão dramática. Mas, quanto mais tempo o mercado demorar para voltar ao normal, menos gente conseguirá se manter essa profissão como fonte de renda principal".

"Assim que puder, viajarei para qualquer lugar", diz Matthew, aqui em uma caminhada em Madagascar - Arquivo pessoal
"Assim que puder, viajarei para qualquer lugar", diz Matthew, aqui em uma caminhada em Madagascar
Imagem: Arquivo pessoal

Adeus ao nomadismo digital

Em 2006, o blogueiro largou o emprego em um hospital de Boston, sua cidade natal, para cair na estrada. Depois de uma década sem endereço fixo (tema de Ten Years a Nomad: A Traveler's Journey Home, seu livro mais recente, sem tradução ao português), abandonou a vida de nômade digital para fixar-se em Nova York e, mais recentemente, Austin.

"Quanto maior o site ia ficando, mais difícil era evitar a sensação constante de não estar nem aproveitando a viagem, nem fazendo o meu trabalho direito", diz. "Para minha sanidade mental, agora tento trabalhar apenas quando estou em Austin".

Para isso, costumo intercalar viagens de aproximadamente 30 dias com dois ou três meses em casa"

A crise do coronavírus coincidiu com um desses períodos em terra firme, programado para durar até o fim de maio. "Ainda assim, sinto falta de estar ao ar livre, encontrar meus amigos pessoalmente, tomar taças de vinho em restaurantes e frequentar bares. Estou com saudades da liberdade".

O blogueiro ainda não sabe qual será a sua próxima aventura, mas não pretende aderia à tendência de destinos de proximidade por medo de novas ondas de contágio. "Não me importo, assim que puder, viajarei para qualquer lugar".