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Fenômeno #quarantini: beber em casa sozinho ou acompanhado é novo hábito

Beber em casa é o jeito que muita gente encontrou para não perder o happy hour - Unsplash
Beber em casa é o jeito que muita gente encontrou para não perder o happy hour Imagem: Unsplash

Rafael Tonon

Colaboração para Nossa

18/04/2020 04h00

Já que não tem bar, cada um fica no próprio lar. Mas com o devido copo ou a taça na mão, enquanto a outra segura o celular, digita no teclado ou passa um bom tempo correndo o menu da Netflix para decidir o que assistir.

A quarentena, recomendada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde para combater a pandemia de coronavírus, transformou a forma das pessoas consumirem suas bebidas favoritas e muitas delas passaram a usar hashtags para acompanhar as postagens "alcoólicas", como #drinkathome e #quarantini (junção, em inglês, de quarentena com o popular Martini).

A confeiteira Joyce Galvão, por exemplo, adquiriu o hábito do happy hour em casa. "Algo que nunca fizemos", ela diz. Ao final do dia, abre um vinho, ou o marido prepara um coquetel e eles aproveitam para relaxar e conversar um pouco em meio o cotidiano da casa, que tem sido atribulado com a filha de quatro anos.

Joyce Galvão e o marido aproveitam a quarentena para experimentar drinques - Aquivo pessoal - Aquivo pessoal
Joyce Galvão e o marido aproveitam a quarentena para experimentar drinques
Imagem: Aquivo pessoal

"A gente sempre saía de sexta ou sábado para ir a algum bar. Como perdemos isso com o confinamento, foi nossa maneira de manter a 'rotina'", ela explica. Dos vinhos aos coquetéis — aos quais eles têm se dedicado mais com o tempo em casa — passaram a beber mais. "A frequência segue maior de sexta e sábado, quando nos arriscamos a fazer as próprias receitas, como Negroni e caipirinha. No início foi um fiasco, mas estamos melhorando", brinca ela, que nos outros dias mantém "a boa taça de vinho todo dia".

Se beber, poste

Beber em casa tem sido sinônimo de beber mais - Unsplash - Unsplash
Beber em casa tem sido sinônimo de beber mais
Imagem: Unsplash
O fotógrafo André Padilla diz que, antes da pandemia da covid-19 mantê-lo em casa, ele bebia somente às sextas e sábados, mas que agora chega a beber até quatro vezes por semana. "No começo, estranhava esses memes sobre qualquer dia da semana ser literalmente um outro dia qualquer. Agora realmente já não sei que dia é, e bebo quando dá vontade", ri.

Embora beba geralmente assistindo televisão ou enquanto mexe em fotos e trabalhos no computador, diz que recentemente se percebeu com uma cerveja na mão para acompanhar uma live de música e até estudando. "Quase sempre vou de cerveja especial e vinho, e tenho evitado os coquetéis por conta do trabalho e para não perder o controle de álcool no sangue", brinca. Como os drinques têm maior teor alcoólico, acaba por perder o controle mais rápido.

Por ser fotógrafo também de comida, Padilla aproveita para fazer fotos e treinar luz, ângulos, ou até "exaltar ingredientes maravilhosos", como postou recentemente em uma foto de limões, que usou para fazer um gin tônica.

Companhia (quase) diária

Morando em Copenhague, na Dinamarca, a biomédica mineira Ana Laura Matos conta que tem ido no mercado da sua rua com mais frequência que o habitual. Tudo para manter o estoque de garrafas de vinho na sua geladeira sempre reposto e acompanhar a frequência que tem bebido desde que passou a ficar em casa, há algumas semanas.

Ana Laura Matos: "Vinho é melhor que pipoca" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Laura Matos: "Vinho é melhor que pipoca"
Imagem: Arquivo pessoal
"Tenho bebido quase todos os dias, umas cinco vezes por semana, pelo menos. Abro uma garrafa e bebo um pouco em um dia, o resto no outro", conta ela, que vive sozinha num apartamento de dois dormitórios. "Geralmente costumo beber quando cozinho, mas tenho usado a taça como companhia para arrumar a casa ou quando estou vendo TV", diz. "É muito melhor do que pipoca".

Ana Laura diz que, mais do que uma indulgência ou passatempo, a bebida tem sido uma boa companhia de confinamento. "É às vezes também meio psicóloga, né, quando precisamos pensar nos problemas", brinca. A taça também está presente nos encontros virtuais semanais que faz com as amigas. "As meninas nem sempre bebem, já eu sempre entro online bem acompanhada, já que sou uma das únicas solteiras", ri.

A biomédica diz não sentir nenhum tipo de estigma por beber sozinha em casa. "Só me permito tomar uma taça quando sei que já fiz todas as minhas tarefas, e que então posso relaxar. Mas não vejo um problema em manter esse hábito, especialmente durante esses dias, se estou dentro de casa", afirma ela, que às vezes também prepara coquetéis, como o Aperol Spritz, quando está mais disposta.

Novos hábitos

A Sociedade da Mesa, um dos primeiros clubes de assinatura de vinhos do país, registrou um aumento na ordem de sete vezes nas garrafas avulsas que vende pelo seu e-commerce (que, antes da crise, representavam apenas 10% do faturamento da empresa). "As quantidades por compra também aumentaram, passando de 4 a 6 garrafas por pedido", afirma Stephane Kaloudoff, CEO da empresa.

Mas, sobretudo, aumentou a frequência com que elas bebem — e até o volume que passou a ser consumido — ainda que, nesta semana, a própria OMS tenha afirmado que os governos deveriam limitar a venda de bebidas alcoólicas durante a pandemia, já que o álcool pode diminuir a imunidade, e seu consumo em excesso possa ser prejudicial à saúde física e mental.

Mas pouca gente parece seguir a recomendação. Embora as vendas de bebidas alcoólicas tenham caído mais de 50% na segunda quinzena de maio, segundo a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), outra associação, a Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) informa que algumas lojas virtuais registraram alta de mais de 180% em transações nas categorias de alimentos/bebidas no mesmo período.

Sozinho, sim

Jean Ponce, do Guarita, dá as dicas para beber só e muito bem acompanhado - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Jean Ponce, do Guarita, dá as dicas para beber só e muito bem acompanhado
Imagem: Reprodução/Instagram
Para o bartender Jean Ponce, do Guarita, em São Paulo, beber sozinho é um ótimo auto-agrado. "Quer se perguntar se você está bem consigo mesmo? Faça um coquetel para você mesmo e o beba com prazer. A cada gole, seus pensamentos vão ao infinito e a sensação de prazer será única. E só leva alguns minutos?", ensina ele, para quem beber sozinho sempre foi motivo de relaxamento ou um momento de pesquisa ou estudo.

Desde 2016, o balcão do seu bar, em Pinheiros, recebe pessoas que sentam ali para beber sozinhas. "Eu particularmente acho bárbaro e muito plausível. Fazer coisas por si mesmo, como beber sozinho, viajar sozinho são boas oportunidades para estarmos com nossos pensamentos. Dentro do possível, se tudo isso tiver equilibrado, só vejo progresso e sabedoria nisso", ele defende.

Ponce também dá dicas para quem quer aproveitar o período em casa para montar um home bar digno de um bartender — ou quase. "É preciso despertar a curiosidade de pesquisar uma receita e poder replicá-la. Para isso, todo mundo deveria ter em casa um dosador, uma colher bailarina, uma boa faca para fruta, uma coqueteleira e um macerador, que são os equipamentos básicos e muito utilizados", ele elenca.

Em termos de garrafas para ter, a lista passa por um Bourbon, um Campari, um Fernet, vermouth tinto ("que seja de boa qualidade, ou nem tenha", adverte), um amaro italiano, e, claro, algumas cachaças artesanais branquinhas, "e também as envelhecidas em madeiras brasileiras", aponta.

No final das contas, para fazer coquetéis, é preciso ter conhecimento sobre o que está misturando. "Por isso a dica que deixo é sempre prove, prove, prove e prove TUDO... um ingrediente costuma ter muitos sabores, quando se conhece o ingrediente, você consegue tirar o melhor dele e das combinações. E anda evita o desperdício", conclui.

Drinque Solidez, de Jean Ponce - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Drinque Solidez, de Jean Ponce
Imagem: Arquivo pessoal
Para deixar sua "quarantini" ainda melhor, Ponce criou o Solidez, um coquetel exclusivo para o Nossa, que você pode fazer sozinho levando em conta as dicas que ele deu e o seu tempo de confinamento para se dedicar à tarefa de montar um drinque digno de bar. Mesmo que no seu próprio lar.

Não esqueça de postar — e marcar a gente.

Solidez

Ingredientes:

  • 30 ml de Magnífica Solera
  • 10 ml de Cachaça Coqueiro Azulada
  • 10 ml de Jerez fino
  • 10 ml de Vermute seco Fardo

Modo de preparo:

Colocar todos ingredientes no copo misturador (mixing glass), adicionar gelo em cubo e mexer para resfriar rapidamente. Em seguida, faça uma coagem simples em uma taça Martini gelada.

Guarnição: Folha de limoeiro com aroeira, apenas decorativo.