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Quarenteners reinventam a casa com novos hábitos para enfrentar isolamento

Frederico Zarnauskas e Beatriz De Paula inseriram atividades e um tempo no cotidiano para aproveitar a laje no apartamento na Zona Oeste de São Paulo - Arquivo Pessoal
Frederico Zarnauskas e Beatriz De Paula inseriram atividades e um tempo no cotidiano para aproveitar a laje no apartamento na Zona Oeste de São Paulo Imagem: Arquivo Pessoal

Gustavo Frank

De Nossa

04/04/2020 04h00

Cheque como os seus amigos estão durante a quarentena. Esse é um dos principais conselhos que vejo na internet em meio ao isolamento em consequência do coronavírus.

Em uma troca de mensagens com uma amiga, enquanto compartilhávamos truques para deixar esses dias em casa menos tediosos, ela me contou sobre como a laje do seu apartamento se tornou um dos seus principais refúgios, principalmente durante a golden hour — período em que o sol está se pondo e somos agraciados por sua luz (quase) dourada.

"Agora que estou o dia todo em casa, a laje virou o único lugar que posso tomar sol, observar o céu, a vida lá fora", conta Beatriz de Paula, moradora da zona oeste de São Paulo. "As cadeiras de praia, que antes ficavam encostadas, agora servem para tomar sol pela manhã e no fim da tarde".

Com Beatriz, Frederico aproveita para reinventar atividades de lazer na laje do apartamento - Arquivo Pessoal
Com Beatriz, Frederico aproveita para reinventar atividades de lazer na laje do apartamento
Imagem: Arquivo Pessoal

Com o namorado, Frederico, os dois criaram um verdadeiro playground para adultos, com direito a cerveja e churrasco.

"No fim de semana, eu e ele usamos esse espaço para ouvir música, ler, tomar banho de chuveirão, beber uma cerveja. Até churrasco já fizemos", diz ela, complementada por Frederico: "Nesses dias, é o que tem nos salvado, nosso 'passeio' do fim de semana, sem sair de casa. Agora estamos com vontade de colocar mais plantas aqui, uma rede...".

Aí nascem os "quarenteners", expressão usada pelos jovens nas redes sociais para definir o status na quarentena.

E vamos de "quarentreino"

Kennedy Gomes ensaia passos das apresentações que faz com o grupo Hip Hop no Vagão agora na varanda de casa - Arquivo Pessoal
Kennedy Gomes ensaia passos das apresentações que faz com o grupo Hip Hop no Vagão agora na varanda de casa
Imagem: Arquivo Pessoal

No bairro Fazenda Juta, na zone leste de São Paulo, Kennedy Gomes, ou Pikeno Kebra, como se apresenta com o grupo de artistas e dançarinos Hip Hop no Vagão, a varanda de sua casa se transformou em um palco para ensaios.

"Costumo passar a maior parte do tempo dançando e me apresentando para muita gente", relembra. "Durante esse período de pandemia, poder fazer um 'quarentreino' na varanda tem me ajudado a ficar bem psicologicamente e a seguir praticando sem perder o contato com as pessoas".

Na vida, tudo é equilíbrio

Julia reaproveita o espaço tanto para a hora do trabalho como para o lazer - Arquivo Pessoal
Julia reaproveita o espaço tanto para a hora do trabalho como para o lazer
Imagem: Arquivo Pessoal

Já no Morumbi, zona sul de São Paulo, Julia Borges divide a varanda e a área no térreo da sua casa para trabalho, de segunda à sexta, e para "pegar um sol" nos finais da semana.

Quintal de Julia customizado com uma canga e música para tomar sol - Arquivo Pessoal
Quintal de Julia customizado com uma canga e música para tomar sol
Imagem: Arquivo Pessoal

"Não sou muito do tipo de pessoa que normalmente aproveita todos os espaços da casa. Mas, depois de mais de duas semanas trabalhando em casa, já não aguentava mais meu quarto ou a sala. Decidi então passar a trabalhar na varanda e, assim, pegar um pouco de sol e sentir um ar fresco", conta.

"Já no final de semana, eu estendo uma canga, coloco um travesseiro e ouço uma música por lá".

E do tédio, criou-se a arte

Ines aproveita o terraço do prédio onde mora na Holanda para sua própria oficina de arte - Arquivo Pessoal
Ines aproveita o terraço do prédio onde mora na Holanda para sua própria oficina de arte
Imagem: Arquivo Pessoal

E os "quarenteners" não são uma exclusividade do Brasil. A espanhola Ines Flor Garcia e o colega de apartamento, Santino, na Holanda, transformam tédio em arte.

Santino terminou, de uma vez por todas, a construção de sua prancha de surf - Arquivo Pessoal
Santino terminou, de uma vez por todas, a construção de sua prancha de surf
Imagem: Arquivo Pessoal

"Nossa criatividade basicamente aumentou nesse tempo", desabafa. "Decidimos, então ,retomarmos os projetos que deixamos no meio do caminho. Santino finalmente terminou a sua prancha de surf. Agora, sim, ela se parece com uma prancha [risos]".

"Enquanto isso, eu voltei à minha paixão pela pintura. Não pela simples prática de pintar, mas porque me ajuda a canalizar minhas emoções e encontrar alegria na simplicidade", conta Ines.

"Estamos fazendo tudo isso no terraço. Como não podemos sair para beber uma cerveja, vamos para nossa parte 'de fora' e aproveitamos o sol até o momento em que os prédios vizinhos cubram ele de nós".

E assim readapta-se a rotina dos jovens europeus, como Ines, Santino e Elvis, "aliás, Elverito", o cachorro de estimação.