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Prova de amor em tempos de covid-19: "Por meu namorado, preferi não voltar"

Marina e Wlson na sacada do apartamento onde estão passando a quarentena em Buenos Aires - Arquivo pessoal
Marina e Wlson na sacada do apartamento onde estão passando a quarentena em Buenos Aires Imagem: Arquivo pessoal

Marina Rufino

Em depoimento a Luciana Borges. Colaboração para Nossa

31/03/2020 04h00

Marina Rufino é barista em São Paulo e foi viajar para Buenos Aires com o namorado, o bartender português Wilson Pires. A ideia era trabalhar e estudar por um mês. Com a explosão dos casos de covid-19 pelo mundo e a chegada da pandemia à América do Sul, ela teve que escolher entre voltar para casa sozinha ou ficar indefinidamente na capital argentina para não deixá-lo para trás. Este é seu depoimento:

"Era para ser apenas um mês de trabalho em Buenos Aires, com algumas escapadas para passear com meu namorado. Mas com a escalada da pandemia do novo coronavírus pelo mundo, o que aconteceu foi que precisei decidir entre voltar para o meu país ou não abandonar meu namorado na Argentina.

Moro em São Paulo e, atualmente, sou barista em um café da capital. Nos últimos anos, porém, trabalhei bastante no ramo de bebidas alcoólicas e tinha que visitar bares mais bacanas de São Paulo. Foi assim que conheci o Wilson. Ele é português, tem 30 anos, e também circulava por esses points, já que é bartender. Começamos a namorar em agosto de 2019 e, agora, moramos juntos.

O bartender trabalhando - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O bartender trabalhando
Imagem: Arquivo pessoal
A ideia do Wilson é viajar pela América Latina e ter São Paulo como base. Como seu visto é de turista, ele precisa sair do Brasil a cada três meses. Desta vez, no entanto, decidimos fazer uma viagem juntos e aproveitamos que a oferta de bares de coquetelaria em Buenos Aires é uma das melhores do mundo para passar um mês por aqui trabalhando, no caso dele, e aprendendo mais sobre café, no meu caso.

Cheguei em Buenos Aires no dia 8 de março. O Wilson já estava aqui havia uma semana. A verdade é que nem tivemos tempo para visitar pontos turísticos. Nos primeiros dias, meu namorado estava super atribulado criando um cardápio de drinques e eu selecionando quais treinamentos sobre café faria. A epidemia de coronavírus parecia estar bem longe da gente nesse momento.

Quarentena e separação

Mas nada saiu como planejado. Com a correria do trabalho, nenhum de nós dois estava acompanhando muito bem as notícias sobre a covid-19. No grupo de amigos do Wilson, tinham diversos estrangeiros, e foram eles que nos avisaram sobre o avanço da doença. Também comentaram que, provavelmente, logo se encerrariam os voos comerciais partindo da Argentina. Era 17 de março e muitos já tinham adiantado suas passagens.

Marina e Wilson em Buenos Aires antes de ser decretada a quarentena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marina e Wilson em Buenos Aires antes de ser decretada a quarentena
Imagem: Arquivo pessoal
A gente ainda estava um pouco tranquilo porque, afinal de contas, voaria para o Brasil - e não para outro continente. Mesmo assim, fomos procurar informação nos consulados brasileiro e português. No entanto, ninguém tinha orientações concretas do que aconteceria nos próximos dias.

Me lembro que, em 19 de março, um amigo italiano conseguiu desembarcar em São Paulo, vindo de Buenos Aires, e ficar na casa do irmão, mesmo sendo turista. Aquilo me deu um certo alívio. Só que, 24 horas depois, o governo governo argentino decretou quarentena total no país e ninguém mais podia sair de casa. As fronteiras foram fechadas, polícia e exército estavam nas ruas patrulhando e multando quem desobedecesse. Naquela altura, a Argentina tinha 128 casos confirmados do novo coronavírus e três mortes.

A partir daí entrei em desespero: temia que o Brasil também bloqueasse a chegada de estrangeiros em seu território, fechasse fronteiras com os vizinhos, que não tivesse mais como voltar para casa. Meu retorno a São Paulo estava marcado apenas para 8 de abril, enquanto o do Wilson ocorreria somente dia 14.

Não demorou muito para meu medo se concretizar: em 23 de março o Brasil passou a proibir o desembarque de estrangeiros vindos da Europa, da China e de outros países da América do Sul. Ou seja, a partir deste momento, somente eu conseguiria retornar a São Paulo. O Wilson sequer sairia da área do embarque do aeroporto de Guarulhos, ele não poderia mais ficar em solo brasileiro. Sendo português, seu voo deveria ter como destino Portugal, onde é cidadão.

#quedateemcasa: o pedido de ficar em casa deixou a famosa avenida 9 de Julio quase vazia - Getty Images - Getty Images
#quedateemcasa: o pedido de ficar em casa deixou a famosa avenida 9 de Julio quase vazia
Imagem: Getty Images

Nós ainda tentamos ir à embaixada brasileira explicar a situação. Ninguém mais podia entrar. Na porta, recebi um pedaço de papel cortado com um endereço de email e a informação de que deveria resolver meu problema por lá ou pelas redes sociais. No site do Itamaraty não havia nenhuma mensagem sobre covid-19 ou procedimentos que a gente pudesse seguir. Só recebi como retorno e-mails com respostas automáticas me enviando links de companhias aéreas que ainda faziam o trânsito Argentina-Brasil. O Wilson até olhou uma passagem para Lisboa, mas, a essa altura, ela custava mais de R$10 mil.

Vivendo em Buenos Aires

Quando fecharam a entrada de estrangeiros para o Brasil tive uma longa conversa com meu namorado. Chorei muito. A gente não sabia o que fazer. Eu queria estar na minha casa, com minha família, não pensava em enfrentar uma situação como essa em outro país. Ele, por sua vez, me pediu para fazer o que eu achasse melhor para mim, estávamos em uma encruzilhada. Não temos cidadania argentina, somos estrangeiros em meio a uma epidemia.

Liguei para uma amiga para desabafar e ela me aconselhou a voltar para São Paulo sem o Wilson. De lá, talvez pudesse fazer algo mais concreto. Só que eu sentia dentro de mim que deixar ele para trás não seria uma opção. Minha preocupação não era a gente terminar o relacionamento. Mas, sim, eu tomar uma decisão que pudesse custar a vida dos dois. Eu viajando no meio do surto de contaminação? Ele sozinho por tempo indefinido? E se ficasse doente?

Cena da quarentena obrigatória: a Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas de Buenos Aires, quase sem ninguém no sábado, 27 de março - Marcelo Endelli/Getty Images - Marcelo Endelli/Getty Images
Cena da quarentena obrigatória: a Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas de Buenos Aires, quase sem ninguém no sábado, 27 de março
Imagem: Marcelo Endelli/Getty Images

No fim das contas, decidi ficar com meu namorado em Buenos Aires. Negociamos o aluguel do apartamento em que estamos morando e temos grana para ir ao mercado. A situação do coronavírus aqui parece mais controlada - o presidente argentino, Alberto Fernández, já anunciou algumas medidas econômicas. No começo da quarentena, eu estava consumindo muita notícia, principalmente do Brasil. Tive que restringir para menos horas no dia, senão vou pirar.

Wilson Pires em Buenos Aires  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Wilson Pires em Buenos Aires
Imagem: Arquivo pessoal
Passamos do 12º dia da quarentena e não temos nenhum sintoma. O isolamento era para durar até 31 de março, mas já deve se estender para 13 de abril. Todos os dias eu acordo angustiada. Estamos numa espiral de emoções. Tem momentos em que estou bem, outros não. Me pergunto sempre se tomei a decisão certa e não tenho resposta concreta para isso. Estou tentando negociar também o aluguel do meu apartamento em São Paulo. Vamos ver o que acontece.

Já tive muito medo durante essa situação toda. Hoje, porém, meu maior receio não é mais o contágio. É a questão de segurança mesmo, de não saber quanto tempo vai durar tudo. Tento não direcionar meu pensamento para o futuro. Vamos esperar até o dia 13 de abril para decidir o que fazer a seguir.

A mais recente orientação que tenho do Itamaraty é de que a entrada ou não do Wilson no Brasil vai depender do "bom humor" do oficial da polícia federal que estiver lá na hora, recebendo as pessoas. Eu teria que apelar para o lado emocional da história, sem nenhuma garantia.

Outro dia estávamos, mais uma vez, conversando sobre essa situação e o Wilson fez uma sugestão: talvez devêssemos cogitar não voltar para o Brasil até as coisas, de fato, se estabilizarem. Eu não sei o que vai acontecer. De verdade. Mas pelo menos estamos juntos.