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Brasileira que mora na Argentina é isolada em hotel após voo tenso do Rio

Ruas vazias em Buenos Aires, na Argentina - NurPhoto/NurPhoto via Getty Images
Ruas vazias em Buenos Aires, na Argentina
Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

Luciana Taddeo

Colaboração para Nossa

25/03/2020 04h00

Após mais de um mês no Rio de Janeiro, a carioca Joyce Galvão, de 33 anos, levou um susto ao voltar para a Argentina, onde mora há três anos. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Ezeiza, na noite de domingo (22), ela foi impedida de voltar para seu apartamento, no centro portenho. Do aeroporto, ela foi levada diretamente para um hotel de Buenos Aires, onde está em quarentena e sendo examinada.

A medida que tenta diminuir a transmissão do coronavírus na capital argentina, é aplicada pela prefeitura de Buenos Aires desde o último sábado (21). Quinze hotéis da cidade cederam instalações para que os recém-chegados de países de alto risco (lista na qual o Brasil foi incluída, por ter transmissão local do vírus) que moram na cidade cumpram isolamento obrigatório em uma instalação extra-hospitalar.

O voo de Joyce estava cheio de argentinos que voltavam de viagem a diferentes países, como Inglaterra, Índia e Tailândia, e ela não era a única brasileira do grupo. Todos que ficariam na cidade de Buenos Aires foram levados a este hotel. "No começo fiquei um pouco brava porque não nos informaram nada antes, nem no voo", diz ela, por telefone, ao Nossa, do quarto onde está isolada.

Rotina do isolamento

Joyce Galvão - Arquivo pessoal
Joyce Galvão
Imagem: Arquivo pessoal
Analista de customer success, Joyce conseguiu trabalhar, nesta segunda, do hotel. Mas conta que viajou apenas com uma mala de mão de 10 quilos, na qual não tinha nem xampu, e que teve que pedir para levarem uma pasta de dente para ela no quarto. "Fui da minha casa na Argentina para a do Brasil. Também tenho pouquíssimas roupas, além da que trouxe suja. Espero que me liberem logo", diz.

Segundo o protocolo, essa quarentena pode ser de até 14 dias ou "a critério da autoridade sanitária". Mas Joyce esperava poder voltar para casa já nesta terça: "Um policial me disse que a equipe médica verificaria se alguém tem sintoma, e se ninguém tivesse seríamos liberados, provavelmente em até 48 horas". A informação que ela obteve no aeroporto, no entanto, é de que seriam de 7 a 14 dias de isolamento.

Corredor do hotel onde Joyce Galvão está isolada - Arquivo pessoal
Corredor do hotel onde Joyce Galvão está isolada
Imagem: Arquivo pessoal
Segundo Joyce, na chegada ao hotel havia um pequeno efetivo policial e uma equipe que os recebeu. "Disseram que não haveria serviço de quarto sempre ou limpeza todos os dias, então que era para a gente cuidar como se fosse nossa casa", conta ela, que não pode sair do quarto. As refeições são entregues de quarto em quarto por trabalhadores que usam touca, luvas e máscara, e não se aproximam muito. "Depois, a gente deixa a bandeja no chão para eles recolherem", explica.

Segundo Joyce, um médico vai ao quarto uma vez ao dia, mede a temperatura e a observa, mas sem qualquer contato físico. E ela não sabe o horário em que ele irá aparecer. "Não dão nenhuma informação. O moço do quarto ao lado perguntou quando entregariam comida para nós e responderam que tinha que esperar o médico", conta a carioca, explicando que corre para a porta sempre que escuta algum diálogo no corredor, na expectativa de ter alguma previsão de quando poderia ir para casa. "Fico atrás da porta escutando", revela, aos risos.

Quarentena não é unanimidade

Cidadãos argentinos reagem de formas diferentes à quarentena imposta pelo governo contra o coronavírus - NurPhoto/NurPhoto via Getty Images
Cidadãos argentinos reagem de formas diferentes à quarentena imposta pelo governo contra o coronavírus
Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

"Acho que a maioria dos passageiros aceitou a situação. Não tem o que fazer. Agora estou feliz por estar em um lugar onde o governo cuida das pessoas", relata sobre as medidas tomadas na Argentina para conter o coronavírus: o país está em quarentena obrigatória - a população somente pode sair de casa para comprar alimentos e remédios - e com as fronteiras fechadas. Somente argentinos e estrangeiros residentes, como Joyce, podem entrar.

E para os que chegam de países de risco, a verificação já começa no avião. "Mediram nossa temperatura e perguntaram se tivemos sintomas. Preenchemos formulários, inclusive afirmando que estamos cientes de que é proibido desobedecer a quarentena. Depois, passamos pela câmera [infravermelha] que verifica a temperatura de novo, antes de nos levarem para um lugar reservado para dar instruções da quarentena. Foi quando explicaram que iríamos para um hotel, com tudo custeado pelo governo", conta.

A medida, porém, não é bem aceita por todos. Também na noite de domingo, um casal de argentinos que chegou em um voo proveniente de São Paulo foi detido pela Polícia de Segurança Aeroportuária do país por se negar ao isolamento. Segundo o governo argentino, a mulher, uma docente de 57 anos, e seu marido, aposentado de 61, começaram a chutar portas e a desobedecer os oficiais no terminal. Na manhã seguinte, eles foram levados a um hotel para cumprir a quarentena.

Turistas usam máscaras por medo de contrair coronavírus no Aeroporto Internacional de Ezeiza, em Buenos Aires, Argentina - Mario De Fina
Turistas usam máscaras por medo de contrair coronavírus no Aeroporto Internacional de Ezeiza, em Buenos Aires, Argentina
Imagem: Mario De Fina

"Fui motivo de briga porque espirrei"

Joyce foi ao Rio em meados de fevereiro, em uma viagem planejada para 20 dias, que acabou prolongada porque seu pai ficou doente. Com o anúncio do fechamento das fronteiras argentinas, ela decidiu voltar, preocupada com suas coisas em Buenos Aires e principalmente com seu gato, o "Poroto" ("feijão" em espanhol), que ficou aos cuidados da vizinha e do zelador do prédio.

O período de Joyce no Brasil coincidiu com a chegada do coronavírus à América Latina e a crescente preocupação com o aumento dos casos. E na volta, a tensão já se evidenciava no aeroporto: "Na fila, um homem começou a gritar, para a segurança escutar, que não estávamos a um metro de distância", conta.

Dentro do aeronave, outro indício de tensão: "Espirrei duas vezes e um homem falou que eu tinha que espirrar no banheiro. Expliquei que o senhor do meu lado estava usando álcool em gel com cheiro e que tenho rinite, mas mesmo assim ele disse que eu tinha que usar máscara. Aí outro interveio e disse que ninguém era obrigado a usar e que a que ele estava usando não servia para nada", relata, concluindo: "Fui motivo de briga porque espirrei".

Ruas vazias em frente à Casa Rosada, residência presidencial em Buenos Aires, na Argentina - NurPhoto/NurPhoto via Getty Images
Ruas vazias em frente à Casa Rosada, residência presidencial em Buenos Aires, na Argentina
Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

"O povo está tão paranoico que tenho até medo", confessa ela, que depois acaba admitindo, porém, que após apenas uma noite no hotel, percebeu o impacto psicológico de tudo o que está vivendo: "Acordei com alergia e jurava que estava com coronavírus", diz ela, que ressalta, no entanto, que sempre tem rinite quando volta do Rio. "Quase surtei, mas agora estou bem", conclui.