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Os três piqueniques mais famosos da história

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Redação - BBC News Mundo

19/07/2021 09h29

Eventos semelhantes a piqueniques já aparecem nos escritos de Ovídio, Plutarco e Sêneca. Mas a palavra 'piquenique' é mais recente. Conheça alguns desses eventos que marcaram época.

"A vida é um piquenique em um penhasco", apontou o escritor W.H. Auden, enquanto para seu amigo, o autor W. Somerset Maugham, havia "poucas coisas tão agradáveis — quanto um piquenique".

Colocada nessa ordem, a conclusão é tão animadora quanto a ideia de embalar comida em uma cesta e se encontrar com amigos ou familiares em algum lugar do campo para desfrutar de um momento de "alegria ao ar livre".

Comer ao ar livre é algo que, naturalmente, fazemos desde os primórdios da humanidade, e eventos semelhantes aos nossos piqueniques aparecem nos escritos do filósofo grego Plutarco e de romano Sêneca, bem como do poeta Ovídio.

No entanto, segundo historiadores, a ideia do piquenique como a conhecemos hoje começou a ganhar corpo na Idade Média, com banquetes servidos após expedições de caça.

O piquenique era, como foi durante vários séculos, um passatempo aristocrático por dois motivos: ele exigia horas de recreação e não de trabalho, e certo tipo de comida restrita às classes mais altas.

Grandes bandejas de comida eram servidas em mesas pesadas ao lado de lustres, talheres e taças de cristal.

O motivo dessa pausa no campo era a caça e não, como mais tarde, uma refeição ao ar livre como fuga da rotina.

'Piquenique no campo, no jardim de uma pousada nos arredores de Estrasburgo', 1750, de Teófilo Schuler (1821-1878). - Getty Images - Getty Images
'Piquenique no campo, no jardim de uma pousada nos arredores de Estrasburgo', 1750, de Teófilo Schuler (1821-1878).
Imagem: Getty Images

E se você dissesse àqueles caçadores que um piquenique os esperava no final do dia, eles não o teriam entendido, porque a palavra não existia na Idade Média.

Origem

Se abraçarmos a ideia de que nada existe até que seja nomeado, temos um problema, pois a história da origem da palavra piquenique é um mistério.

Aparentemente ela vem do francês e remonta ao século 17, quando o termo 'pique-nique' era usado. 'Piquer' (pegar), e 'nique' - uma pequena quantidade ou nada.

Uma edição de 1692 de Origines de la Langue Françoise menciona o piquenique, indicando que o termo havia sido usado por algum tempo na França.

É possível que ele seja derivado nome do protagonista de uma sátira francesa do século 17, Les Charmans efetua as barricadas, ou l'amité durável de la compagnie des frères Bachiques de Pique-Nique (1649). O texto conta a história de um glutão que não para de comer, apesar de seus companheiros sofrerem com escassez de comida.

"Almoço na Relva" - HERITAGE IMAGES - HERITAGE IMAGES
"Almoço na Relva"
Imagem: HERITAGE IMAGES

Em todo caso, um piquenique era um evento social, geralmente realizado dentro de casa, em que os convidados levavam algo, seja um prato, uma bebida ou uma contribuição em dinheiro.

No século 18, o piquenique virou um dos passatempos favoritos da aristocracia francesa, às vezes incluindo a dança.

A revolução

Com a eclosão da Revolução Francesa, os aristocratas que foram salvos da guilhotina encontraram refúgio em países europeus e nos Estados Unidos.

Muitos acabaram em Londres, onde, apesar de não usufruírem da fortuna de outrora, insistiram em manter seu estilo de vida, que incluía os piqueniques.

Em 1801 nasceu a "Pic Nic Society", reunindo cerca de 200 francófilos abastados que realizavam reuniões extravagantes nas quais competiam com os mais luxuosos pratos ou bebidas. Nos encontros também havia música, dança, teatro e jogos de azar.

Esse formato permaneceu vivo por apenas algumas décadas, mas, nesse ínterim, as classes médias substituíram a festa dentro de casa por uma versão no lado de fora, cuja ênfase era comer no campo para desfrutar da atmosfera rural. Apesar de serem diferentes, os novos encontros adotaram o nome pelo qual o conhecemos.

Na França, a revolução abriu a entrada dos parques reais ao público pela primeira vez, o cenário perfeito para a versão não aristocrática dos piqueniques que os cidadãos recém-emancipados podiam desfrutar.

Em meados do século 19, eles viraram uma atividade popular entre todas as classes sociais.

A atividade agradável, uma trégua da urbanização sufocante, foi adotada em todos os lugares e inspirou todos os tipos de artistas, escritores e até políticos.

Aqui estão três dos piqueniques mais famosos da história.

Édouard Manet - Almoço na Relva (1863)

Como a maioria das pinturas impressionistas, a cena é mundana: quatro pessoas em um piquenique.

Almoço na Relva, de Édouard Manet (1863) - Getty Images - Getty Images
Almoço na Relva, de Édouard Manet (1863)
Imagem: Getty Images

Mas há um detalhe peculiar. Uma das duas mulheres está completamente nua. Ela olha para o espectador sem nenhuma timidez, e com interesse.

Almoço na Relva é uma obra-prima que quebrou todas as regras e desencadeou um dos maiores escândalos da história da arte.

Quando Napoleão III viu o quadro, disse que era "uma ofensa contra a decência"; sua consorte, a imperatriz Eugenia, fingiu que a imagem não existia.

Embora os nus femininos fossem comuns na arte, até então sempre representaram figuras da mitologia ou eram usadas como alegoria. No quadro de Manet, ela era uma mulher anônima, sem roupas, em um ambiente cotidiano.

"Eles prefeririam que eu fizesse um nu, certo?", escreveu Manet em uma carta ao jornalista francês Antonin Proust, em 1862. "Bom, eu farei um nu..."

A imagem foi chocante, incompreensível, irônica, irreverente. Mas também visualmente desafiadora.

Com seu piquenique particular, Manet abriu um novo capítulo na história da arte.

O Piquenique Pan-Europeu

Em 19 de agosto de 1989 havia um piquenique planejado, mas não qualquer piquenique.

Foi o "Piquenique Pan-Europeu", uma reunião política e simbólica em frente à fronteira entre a Hungria e a Áustria, uma linha divisória entre o bloco comunista e o Ocidente.

Imagens do Piquenique Pan-Europeu - Getty Images - Getty Images
Imagens do Piquenique Pan-Europeu
Imagem: Getty Images

Foi uma demonstração de apoio a uma Europa sem barreiras. Milhares de pessoas compareceram ao evento.

Como um piquenique, ele foi um desastre, pois densas nuvens cinzentas cobriram o céu desde o início, e uma forte chuva atingiu o local.

Mas centenas de alemães orientais aproveitaram a oportunidade para cruzar a fronteira com a Áustria e de lá para a Alemanha Ocidental.

Os guardas húngaros se recusaram a atirar e, nas semanas seguintes, milhares de pessoas cruzaram a fronteira.

Três meses depois, o muro de Berlim foi derrubado. O caminho para o fim do comunismo na Europa e a unificação do continente se tornou irreversível.

1984

Muitos grandes autores aproveitaram a atmosfera descontraída dos piqueniques para emoldurar cenas memoráveis.

George Orwell é conhecido por ter escrito um dos piqueniques menos suntuosos da literatura: em uma cena do livro 1984, a única coisa que os personagens Winston e Julia comem é uma "barra de chocolate" enquanto se esgueiravam por uma clareira na floresta para fugir do olhar atento do Grande Irmão.

O clássico 1984, de George Orwell, também tem uma cena de piquenique - Getty Images - Getty Images
O clássico 1984, de George Orwell, também tem uma cena de piquenique
Imagem: Getty Images

Mas o que falta em comida à cena é compensado em um doce encontro romântico: é um piquenique com cunho romântico e sexual mais do que qualquer outra coisa.

"O ar parecia beijar a pele", escreve Orwell. "Do coração da floresta vinha o barulho das pombas."

E o chocolate?

"Ela partiu ao meio e deu um dos pedaços para Winston. Antes mesmo de pegá-lo, ele sabia pelo cheiro que era um chocolate muito incomum. Era escuro e brilhante, e estava embrulhado em papel prateado."

"O chocolate era geralmente uma coisa marrom opaca que se desintegrava com muita facilidade e, em termos de sabor, era como fumaça de borracha queimada."

"Mas em algum momento ele provou o chocolate que ela deu a ele. Seu cheiro trouxe de volta alguma memória que ele não conseguia definir, mas era algo poderoso e perturbador..."

"O primeiro pedaço de chocolate derreteu na língua de Winston. Estava delicioso."

Sexo é poderoso, mas o prazer não é definitivo. E o Big Brother estava de olho no casal.