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O fotógrafo que realizou seu sonho de nadar com ursos polares

Foram necessários 15 anos de espera e muito dinheiro para conseguir esta foto perfeita - Amos Nachoum/BBC
Foram necessários 15 anos de espera e muito dinheiro para conseguir esta foto perfeita Imagem: Amos Nachoum/BBC

24/05/2021 22h08

Amos Nachoum estabeleceu um novo padrão na fotografia subaquática ao correr riscos enormes mergulhando sem gaiola de segurança para capturar imagens de predadores.

"O medo me deixa alerta, não me impede de fazer nada", diz Amos Nachoum, fotógrafo de vida selvagem conhecido internacionalmente por suas imagens subaquáticas.

Da Antártida ao Alto Ártico, ele mergulhou em ambientes extremos para captar alguns dos predadores mais magníficos e evasivos que vivem debaixo d'água.

Entre as diversas criaturas que ele fotografou, estão baleias-azuis, orcas, anacondas, crocodilos-do-nilo e, claro, tubarões.

Mas, ao contrário da maioria dos fotógrafos, Amos não usa uma gaiola de segurança quando está na água.

Amos Nachoum não usa gaiola de segurança quando tira suas fotos - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Amos Nachoum não usa gaiola de segurança quando tira suas fotos
Imagem: Amos Nachoum/BBC

"Queria mostrar em uma foto o que é preciso para lidar com o tubarão-branco", disse ele em entrevista ao programa de rádio Outlook, da BBC.

"Se não provocarmos, se não irritarmos ele, podemos estar junto dele em paz."

Sem demônios

Na verdade, ele estava a apenas um metro de distância quando fotografou um enorme tubarão-branco.

Estamos acostumados a ver as mandíbulas de um tubarão como um símbolo de terror.

O fotógrafo quer mostrar a beleza dos predadores subaquáticos - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
O fotógrafo quer mostrar a beleza dos predadores subaquáticos
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Mas o fotógrafo israelense vê elegância, poder e beleza no animal.

Nos últimos 45 anos, ele diz que tem se esforçado para mudar a concepção errônea habitual de que certas espécies, como o tubarão-branco, são apenas máquinas de matar implacáveis.

Não há demônios no mar", ele costuma dizer.

Considerado um dos melhores fotógrafos em sua área e colecionador de vários prêmios, Amos Nachoum teve seu primeiro contato com uma câmera fotográfica na adolescência, quando encontrou uma no depósito do pai aos 12 anos.

Ele estava morando em Tel Aviv com os pais, um casal judeu que havia fugido da Líbia.

Nas águas geladas da Antártida, Amos Nachoum fotografou uma foca-leopardo caçando um pinguim - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Nas águas geladas da Antártida, Amos Nachoum fotografou uma foca-leopardo caçando um pinguim
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Amos aprendeu a usar a câmera antiga e começou a tirar fotos.

Percebi que a fotografia me dava uma chance de me expressar"

Seu relacionamento com o pai, que ele descreve como um disciplinador rígido, era difícil.

Ele saiu de casa aos 14 anos para viver e trabalhar com os pescadores locais, que ensinaram a ele uma habilidade muito importante: mergulhar.

Saindo de Israel

Mais tarde, quando já era um rapaz, ele cumpriu o serviço militar, obrigatório em Israel, e lutou na guerra árabe-israelense de 1973.

Uma baleia-branca olhando para a câmera - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Uma baleia-branca olhando para a câmera
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Amos diz que ficou traumatizado com a violência e deixou Israel para começar uma vida nova nos Estados Unidos.

Ele dirigia táxis em Nova York e ganhava a vida fazendo bicos, antes de encontrar seu lugar na água — como instrutor de mergulho.

Enquanto acompanhava um grupo de turistas em uma viagem de mergulho, ele teve uma ideia ao observar um idoso americano tirando fotos com uma câmera subaquática.

Ele também podia fazer isso.

Amos Nachoum combinou suas duas paixões: mergulho e fotografia - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Amos Nachoum combinou suas duas paixões: mergulho e fotografia
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Ao combinar mergulho com fotografia, ele decidiu oferecer um novo olhar sobre as enormes criaturas que se escondem no fundo do mar.

"A relação com os grandes animais, com os tubarões e as baleias, era muito negativa", lembra, "mas a minha relação era muito positiva".

O grande sonho

Amos tinha um sonho em particular que gostaria de realizar, se tornar a primeira pessoa a fotografar um urso polar — na água.

A baleia-azul é o maior animal da Terra - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
A baleia-azul é o maior animal da Terra
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Ele se lembra do pai ter dito que era uma "missão suicida" quando soube dos seus planos.

"Havia uma desconexão total", diz Amos sobre o pai, que preferia vê-lo sossegado e casado.

Ele desistiu de mim. Não conseguia se conectar com o que eu fazia"

Determinado, Amos seguiu para o norte, em direção ao Ártico, na primavera de 2000.

Com a ajuda de um guia inuit local, ele avistou um urso polar macho e mergulhou na água.

Você sempre precisa de um guia muito bom e de muita experiência antes de fazer algo assim, porque há o risco de haver um acidente"

O vento estava empurrando o barco deles para longe de Amos, enquanto o urso polar continuava se aproximando.

As imagens de Amos Nachoum são amplamente utilizadas por publicações no mundo todo - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
As imagens de Amos Nachoum são amplamente utilizadas por publicações no mundo todo
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Mas Amos tinha feito seu dever de casa antes. Ele havia lido que os ursos polares não são capazes de mergulhar além da profundidade de 10 metros.

O urso polar é muito pesado e tem muita gordura e pelo no corpo. Ele tem que se esforçar muito para descer"

Décadas de experiência o ensinaram a procurar sinais nos animais que pudessem indicar um ataque iminente.

Fuga dramática

Quando o urso chegou mais ou menos a seis metros dele, Amos mergulhou, e o urso foi atrás dele.

"Foi dramático", ele conta.

Os ursos polares não conseguem mergulhar até grandes profundidades - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Os ursos polares não conseguem mergulhar até grandes profundidades
Imagem: Amos Nachoum/BBC

"Eu estava a uns 15 a 17 metros, e ele continuava descendo. Só conseguia ver as patas dianteiras, nariz e focinho. Sinceramente, fiquei com medo".

Amos tinha pouca chance seja ao lutar ou fugir do animal carnívoro.

"Quando eu estava a cerca de 75 pés (mais ou menos 22 metros), olhei para cima. Em vez de estar de frente para mim na vertical, o urso estava mais horizontal e nadando ao nível da água."

Ele sobreviveu e, felizmente, quando voltou à superfície, o urso polar havia ido embora.

Uma viagem ao Ártico custa muito dinheiro e preparação, incluindo o aluguel de um avião fretado e a montagem de acampamento.

Amos estava determinado a tentar, pela segunda vez, tirar a fotografia dos seus sonhos.

Segunda tentativa

A oportunidade surgiu anos depois, quando seu aluno Yonatan Mir fez um documentário sobre ele, levando os dois para o deserto ártico em 2015.

Amos ficou assustado quando um urso polar mergulhou para persegui-lo - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Amos ficou assustado quando um urso polar mergulhou para persegui-lo
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Havia um orçamento de um milhão de dólares para o projeto, quantia que permitiria a eles ficar apenas cinco dias.

Eles procuraram os ursos polares por quatro dias sem sorte, até que chegou o momento tão esperado.

"Nós os vimos descendo a colina e entrando na água."

E, finalmente, avistaram uma mãe ursa com seus dois filhotes.

Seria a primeira vez que um urso polar com dois filhotes seria fotografado nessas circunstâncias.

Amos Nachoum explora os oceanos há mais de quatro décadas - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
Amos Nachoum explora os oceanos há mais de quatro décadas
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Desta vez, Amos tinha um parceiro de mergulho, Adam, que estava lá para filmar o evento.

"Eles (os ursos) se aproximavam cada vez mais e diretamente na nossa direção. Olhei para Adam, tirei o regulador da boca e sorri, coloquei o regulador de volta e desci", lembra Amos.

"Ela (o urso polar) veio por cima da nossa cabeça. Virei para tirar uma foto dela."

O pai de Amos Nachoum faleceu enquanto ele estava realizando o projeto dos seus sonhos: fotografar ursos polares na água - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
O pai de Amos Nachoum faleceu enquanto ele estava realizando o projeto dos seus sonhos: fotografar ursos polares na água
Imagem: Amos Nachoum/BBC

A imagem que ele capturou foi a silhueta de um urso, então ele teve que esperar para tirar a foto dos animais encarando ele.

"A mãe ursa estava inicialmente acima da água. Aí ela abaixou a cabeça. Fiquei clicando para tirar o maior número de fotos possível."

'Meu herói'

Enquanto Amos estava fotografando os ursos polares, os documentaristas conversavam com seu pai, que estava acamado, em Israel.

"Meu bom menino, meu filho louco e meu herói", foram suas palavras sobre Amos.

O fotógrafo comemorou seu aniversário de 70 anos em janeiro de 2021 - Amos Nachoum/BBC - Amos Nachoum/BBC
O fotógrafo comemorou seu aniversário de 70 anos em janeiro de 2021
Imagem: Amos Nachoum/BBC

Durante a maior parte de sua vida adulta, Amos conta que mal falou com o pai.

"Fiquei atordoado. Tive dificuldade de compreender o que saiu da boca dele e saber o que ele pensava de mim."

O pai de Amos faleceu antes que ele pudesse voltar a Israel.

Mas ao retornar, ele visitou o cemitério, levando consigo a foto emoldurada do urso polar para colocar no túmulo do pai.

Eu alcancei algo que ele não achava que eu conseguiria"

Mas o célebre fotógrafo também acrescenta.

"Ele me desafiou a ser o melhor que consigo ser."