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Padre irlandês se impõe confinamento solitário em ilha sagrada

Ilha de Lough Derg, no norte da Irlanda - Reprodução/Facebook
Ilha de Lough Derg, no norte da Irlanda Imagem: Reprodução/Facebook

Da AFP

30/07/2020 10h48

Embora os irlandeses conheçam o confinamento há meses, poucos são aqueles para quem o isolamento foi tão extremo como o vivido por Laurence Flynn, um padre que cuida de uma ilha sagrada normalmente cheia de peregrinos.

Em meio ao confinamento, decretado no final de março devido à pandemia do coronavírus, o padre Flynn se tornou o único habitante do Purgatório de São Patrício em uma ilha de Lough Derg, lago situado no condado de Donegal (norte da Irlanda).

Este local sagrado do século V atrai os peregrinos católicos que passam três dias em jejum, fazem orações com os pés descalços e vigílias noturnas.

Mas a pandemia, que já causou mais de 1.700 mortes na Irlanda, fez as peregrinações serem canceladas pela primeira vez desde 1828.

"Escolhi vir aqui (...) por solidariedade com aqueles que não têm escolha entre ficar no mesmo lugar, ou se deslocar com mais liberdade", disse à AFP o padre de 69 anos, que tem uma barba branca e vive na ilha desde o dia primeiro de junho.

"Ao fazer a oração do caminho da cruz todos os dias, humildemente, mantenho vivo o ritmo da peregrinação", acrescentou.

Longas orações com os pés descalços

Padre Flynn - Paul Faith/AFP - Paul Faith/AFP
Padre Laurence Flynn dessa vez não está acompanhado das centenas de turistas que fazem a peregrinação
Imagem: Paul Faith/AFP

Em um verão normal, até 400 peregrinos chegam diariamente ao local.

Nessa peregrinação, tão exigente que é chamada de "homem de ferro" das peregrinações, em referência ao formato longo do trajeto, os fiéis só têm o direito de se alimentar com chá, café com leite, pão seco, ou tostado, ou bolos secos com aveia.

Provenientes do mundo inteiro, os peregrinos devem velar por 24 horas e fazer orações de nove horas com os pés descalços.

Este ano, porém, os dormitórios masculinos e femininos estão vazios. Todas as manhãs, o padre sai, tira as sandálias e retoma, descalço, o caminho da peregrinação percorrido por milhões de pessoas nos últimos 150 anos.

"Trago comigo as orações daqueles que me pedem e daqueles que queriam vir, mas não podem, ou sempre vêm, mas não puderam vir desta vez", afirma.

Com seu colarinho romano e seu capuz cor de vinho, o padre Flynn caminha pelos lugares em silêncio, uma silhueta solitária neste pedaço de terra sobre as águas sombrias do lago.

"Há poucos padres tão isolados quanto eu neste momento, mas não me sinto isolado", diz ele. "Nunca me senti sozinho desde que cheguei aqui", completa.

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