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REPORTAGEM

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A triste saga do teatro romano na Líbia cotado para a despedida dos Beatles

Anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto
Anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

24/04/2022 04h00

32º48'N, 12º29'L
Anfiteatro de Sabratha
Sabratha, Zawiya, Líbia

Quando terminei de assistir à minissérie "Get Back", fiquei com um grande "e se?" na cabeça. E se os Beatles não tivessem tocado no terraço do prédio de sua gravadora? E se tivessem seguido uma das ideias levantadas — a mais ousada delas — a de se apresentar na Líbia?

Resumíssimo da obra para quem não acompanhou: lançado no fim do ano passado, "The Beatles: Get Back" é um documentário de Peter Jackson feito praticamente com material não usado para o filme "Let It Be", de Michael Lindsay-Hogg, que acompanhou o quarteto em 21 dias de gravação, às vésperas do hoje histórico show do terraço, em 1969. Jackson o definiu como um "documentário sobre um documentário". Está no Disney+ e tem três episódios, cada um do tamanhinho de um "Senhor dos Anéis".

Em dado momento das suas quase oito horas de duração, surgiu a ideia de se fazer um show em um anfiteatro romano localizado no sul do antigo império: em Sabratha, na atual Líbia. Os músicos embarcariam em um navio de cruzeiro e ensaiariam no caminho, acompanhados por algumas centenas de fãs sortudos.

John queria, Paul toparia, mas George achou uma ideia insana e cara, e ele provavelmente estava certo. Não queria ficar preso por duas semanas com um monte de gente no meio do mar. O plano acabou engavetado e não se falou mais nele.

Casa de shows milenar

Vista panorâmica do anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista panorâmica do anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Os fenícios fundaram Sabratha por volta de 500 a.C. A cidade servia como entreposto comercial para os produtos do interior da África. Ela esteve sob controle da poderosa Cartago e, brevemente, da Numídia (outro reino da África do Norte) até ser anexada pela República Romana no século 1º a.C. Sabratha foi remodelada pelos 200 anos seguintes à maneira de Roma, bem como as cidades vizinhas de Oea e Leptis Magna.

Juntas, elas formavam uma área cosmopolita e dinâmica conhecida como Três Cidades. Ou, como os romanos diziam, "Tripolis".

Nada como um político importante nascido na região para tentar trazer prosperidade e obras públicas. No caso, a Tripolis tinha Septímio Severo, nascido em Leptis Magna e que chegou a ser nada menos que imperador romano entre 193 d.C. e 211 d.C.

No governo de Severo, Leptis Magna e, em menor escala, Sabratha e Oea, viveram o auge. Sabratha ganhou templos dedicados a divindades romanas, gregas e egípcias, casas de banho ricamente decoradas com vista para o mar e um teatro de três andares - cujas ruínas entrariam no radar dos Beatles séculos mais tarde.

Mosaico romano em Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Mosaico romano em Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A banda acabou tocando metros acima de onde estava ensaiando, no prédio da Apple Corps. Muito mais simples e prático.

Nada contra Savile Row, pelo contrário. A rua londrina é famosa também pelos endereços dos alfaiates desde o século 19 (o smoking teria sido criado lá) e pela sede da Sociedade Geográfica Real, na virada do século 20. E também pelos endereços fictícios: Phileas Fogg, herói de "A Volta ao Mundo em 80 Dias", morava lá.

Savile Row, em Londres - Getty Images - Getty Images
Savile Row, em Londres
Imagem: Getty Images

Mas vamos combinar que é difícil competir com um anfiteatro romano de quase 2 mil anos na beira do Mediterrâneo. De quebra, se os Beatles tivessem tocado lá, a polícia não apareceria para mandar abaixar o volume porque a vizinhança "reclamou 30 vezes em meia hora" — o que encerrou o último show da banda na história, após breves 42 minutos.

Eles não tocaram, esticando a longa decadência vivida por Sabratha. Um período que começou após o fim das quatro décadas da chamada dinastia severa, que teve, além de Septímio Severo, seu filho Caracala entre os imperadores. A Tripolis jamais seria a mesma.

Ladeira abaixo

Detalhe do anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Detalhe do anfiteatro romano em Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Terremotos detonaram a cidade no século 4º. O Reino Vândalo a conquistou no século 5º, mas não lhe deu muita atenção. Depois vieram os bizantinos e uma breve retomada, inclusive com a construção de basílica, igrejas e muralha.

Quando os árabes tomaram o Magreb, eles deram preferência a outros portos, e Sabratha virou um vilarejo esquecido. Somente na década de 1920 ela voltou a ter relevância, graças ao trabalho de arqueólogos italianos.

Naquela época, o território líbio, que havia pertencido ao Império Turco-Otomano por quase 400 anos, estava sob controle da Itália fascista, que ansiava por desenterrar as glórias romanas. Muitas vezes, literalmente.

Em 1926, o próprio Benito Mussolini visitou as ruínas. Era uma comitiva cheia de pompa, escoltada por ágeis cavaleiros árabes trajados de vermelho. "Ele caminhou vigorosamente por um fórum de mosaicos cheio de pilares de mármore branco até uma estátua de Júpiter, quase perfeitamente preservada", informava o "New York Times", que dizia que o Duce parecia impressionado com o rosto do deus "que tipificava o poder e a supremacia para os romanos". Em seguida, ele inspecionou o "teatro cuja arena é quase tão grande quando o Coliseu de Roma".

Ruínas romanas de Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Ruínas romanas de Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A Itália começou a colonização efetiva da Líbia somente em 1934. Mas o fascismo já tinha seus simpatizantes na década anterior:

"Toda cidade dava as boas-vindas ao conquistador, as ruas estavam cheias de figuras de branco, braços erguidos na saudação fascista, vozes subiam e desciam em cadência, 'rai, rai, rai, Mussolini'. Embora aqui e ali os chefes podiam ser vistos ordenando mais saudações, era evidente que parte das demonstrações era genuína.".

Na Segunda Guerra, com os fascistas derrotados, franceses e britânicos dividiram a Líbia. O país só conquistou a independência em 1951.

Muammar Kadafi  - Stevan Kragujevi?/Commons - Stevan Kragujevi?/Commons
Muammar Kadafi
Imagem: Stevan Kragujevi?/Commons

Na maior parte desse tempo desde então — mais precisamente entre o golpe que derrubou a monarquia, em 1969, e uma morte brutal e humilhante, em 2011 —, a Líbia foi governada por um revolucionário excêntrico, ditatorial e nacionalista, que teve até uma fase de galã, pelo menos para certo público (como o romance "Liberdade", de Jonathan Franzen, mostrou). Muammar Kadafi era o nome dele.

Kadafi mandou na Líbia com mão de ferro. Seu último ato no poder foi a repressão violenta aos protestos da Primavera Árabe, em 2011. Cerca de 6 mil pessoas morreram e 200 mil fugiram do país.

Oito meses depois, ele foi sumariamente executado, mas a situação não melhorou no país. A Líbia virou aquilo que especialistas em grandes calamidades chamam de "país inviável".

Ruínas romanas de Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Ruínas romanas de Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ficou pior ainda

Ao longo de toda a última década, mergulhada em guerras civis e em uma disputa de facções que fragmentou um país maior que o Amazonas, a Líbia deu pouca atenção a seus tesouros culturais, é claro. As ruínas de Sabratha e Leptis Magna foram saqueadas.

E Oea? Ela não viveu os séculos de decadência, pois acabou se tornando a própria Trípoli, capital da Líbia moderna. Seu nome é uma referência às antigas cidades romanas.

Em 2016, a Unesco colocou Sabratha e Leptis Magna, ambas patrimônios culturais da humanidade, em sua triste lista de locais ameaçados. Elas vinham sofrendo com saques de artefatos, pichações e ocupações irregulares, além da erosão costeira.

Com a crise de refugiados, a moderna Sabratha, que nos anos 2000 tinha cerca de 100 mil habitantes, passou a concentrar as pessoas que queriam desesperadamente chegar à Europa. A ação das milícias, algumas apoiadas pela Itália, que queria acabar com o fluxo de imigração ilegal, chamou a atenção do diretor-geral da Unesco, que pediu o fim da violência.

Estátuas romanas de Sabratha, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Estátuas romanas de Sabratha, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Mas pouca gente deu bola. Naquela época, a imprensa preferia falar mais da Síria e da ameaça cultural que o grupo Estado Islâmico representava a Palmyra e à riqueza daquele país.

O que nos leva à pergunta com que comecei o texto da semana. E se tivesse rolado o show dos Beatles? O site americano "Daily Beast" especulou que a banda teria deixado as ruínas mais conhecidas no resto do mundo e, portanto, elas não ficariam largadas à própria sorte.

Barack Obama chegou a declarar que não ter se preparado para uma Líbia pós-Kadafi foi o maior erro de seu mandato como presidente dos Estados Unidos. Poderia ser diferente.

Se o último show da maior banda da história do rock tivesse sido um espetáculo filmado em ruínas impressionantes em um país pouco explorado turisticamente, como esses locais estariam hoje? A situação deles nos anos 2010, durante o deprimente Inverno Árabe, seria outra?

Sobram conjecturas, mas também tem novidade. Este ano, o teatro de Sabratha foi reinaugurado, após um processo de cinco anos de restauração patrocinado pela União Europeia.

A expectativa é de que Sabratha passe a atrair 500 mil visitantes ao ano e gere empregos e renda a uma região que precisa, e muito. "Get back to where you once belonged."

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