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REPORTAGEM

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"Faraônico", maior prédio do mundo será construído na nova capital do Egito

Oblisco Capitale - Ziad Rashad
Oblisco Capitale Imagem: Ziad Rashad
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

13/02/2022 04h00Atualizada em 13/02/2022 19h45

No século 14 a.C., o faraó Amenófis IV assumiu um novo nome, Akenaton, e instituiu o culto ao deus-sol. Para marcar essa era que se iniciava, ele ordenou a construção de uma nova capital, em Tell al Amarna, chamada Akhetaton. A cidade foi inaugurada em 1346 a.C.

A civilização egípcia teve uma série de capitais, mas Akhetaton se destacava por ser planejada. Hoje, mais de 3,3 mil anos depois, o Egito está construindo uma nova capital, planejada e anunciada como parte de um ousado projeto que almeja reestruturar o país em três eixos principais, econômico, social e ambiental. Tudo isso até 2030.

Ainda sem nome definido, ela vem sendo chamada provisoriamente de Nova Capital Administrativa. Sem graça? Um ministro declarou, ano passado, que ela pode se chamar "Egito". É, não melhorou muito.

O projeto, por sua vez, é puro esbanjamento. Vai ter um bairro inspirado nos subúrbios americanos e outro com mansões afrancesadas. Até aí, a intrépida leitora diria, qualquer condomínio de interior no Brasil tem igual.

Só que a nova capital vai ter abrigar toda a estrutura estatal egípcia, com direito a um ministério da defesa mais porreta que o Pentágono, com o sugestivo nome de Octógono.

Outros ministérios, embaixadas, banco central, os prédios do Parlamento, o palácio presidencial: vai tudo para lá, e alguns já estão sendo transferidos. Em dezembro, a mudança começou.

Um parque ao longo de um rio artificial que emulará o traçado do Nilo vai percorrer o centro da cidade. Vai ter centro de tecnologia e inovação, universidades, mesquitas e igrejas, incluindo a maior catedral do Oriente Médio, já inaugurada — uma clara mensagem de tolerância de um país em que não são raras as notícias de perseguição à minoria copta.

Vai ter estádio olímpico, parque de diversões, aeroporto, fazendas de energia solar e linhas de trem e metrô suficientes para convencer todo mundo a deixar o carro em casa (automóveis não serão proibidos, diferentemente da cidade modernosa que os árabes estão construindo).

A nova capital foi projetada para ser uma cidade sustentável, cosmopolita e moderna. E simbólica.

A praça do Povo terá o maior mastro do mundo, além de um monumento ao soldado desconhecido, onde haverá desfiles militares (algo importante, já que o país vive uma ditadura militar desde 2013). O desenho da praça tem forte inspiração no tempo dos faraós, com direito a um enorme ankh, o símbolo da vida no Egito antigo, no piso do monumento.

A representação mais faraônica, em todos os sentidos, é o Oblisco Capitale, um hiper-arranha-céu em forma de obelisco que terá a escandalosa altura de 1.000 metros, surrupiando do Burj Khalifa o cetro de prédio mais alto do mundo.

As obras ainda não saíram do papel, diferentemente das da Iconic Tower, que terá 385 metros. Bem mais baixa, mas ainda assim o suficiente para ser a mais alta da África (e um tanto maior do que qualquer arranha-céu da América do Sul).

Tudo isso pra quê?

Um dos motivos alegados pelo governo para a criação da nova cidade é que Cairo, em poucas palavras, não dá mais. A região metropolitana tem 20 milhões de habitantes, pouco menos que a Grande São Paulo, o que faz dela a sexta maior do planeta, a maior da África e a maior do mundo árabe.

Além dos problemas de metrópole bem conhecidos deste lado de Greenwich, como poluição e trânsito, Cairo tem um problema estrutural na organização logística do governo: os prédios ficam afastados uns dos outros, espalhados nas duas margens do Nilo. Mesmo aqueles que ficam em áreas centrais, próximos à Praça Tahrir (que ficou famosa pelos protestos da Primavera Árabe), sofrem um bocado. Eles até podem ficar mais perto um dos outros, mas estão no meio da bagunça e do tráfego do centro.

A nova capital pretende aglutinar essas estruturas do governo em zonas específicas. Ou seja, é um movimento parecido, em diversos aspectos, com o que o Brasil fez ao mudar a capital do Rio de Janeiro para uma nova e planejada, Brasília, com ministérios enfileirados e zonas residenciais pré-estabelecidas.

Uma diferença importante é a distância. A nova capital fica a 45 quilômetros a leste do Cairo. Do Rio a Brasília é um voo de 933 quilômetros.

Vai rolar?

As autoridades egípcias ouviram a experiência de outro país, que também passou por isso, e há bem menos tempo que o Brasil. Em 1997, o Cazaquistão transferiu a capital de Almaty para Astana.

Em 2019, Astana ganhou um novo nome, Nur-Sultan, nada discreta homenagem a Nursultan Nazarbayev, que comandou o país por 29 anos, desde 1990, quando ainda era uma república soviética. O projeto egípcio pode ser menos personalista no nome do que o cazaque (apesar de o nome ainda não estar definido), mas não muito no papel.

A nova capital é fruto do governo de Abdel Fattah el-Sisi. Em 2015, dois anos após o golpe que derrubou Mohamed Morsi, ele anunciou a proposta da metrópole como o "nascimento de um novo Estado" que pode se tornar, além de sede política, o polo econômico e tecnológico do Oriente Médio.

Vista da cidade do Cairo, no Egito, com as pirâmides ao fundo - Getty Images - Getty Images
Vista da cidade do Cairo, no Egito, com as pirâmides ao fundo
Imagem: Getty Images

Para os críticos, é só um projeto em nome da vaidade de Sisi. Eles argumentam que a nova capital pode se tornar um oásis de prosperidade em um deserto de pobreza, acelerando a favelização do Cairo. Outros dizem ainda que uma coisa é transferir o governo e sua estrutura, algo que vem de cima para baixo, outra é atrair empresas e talentos profissionais.

Afinal, apesar de todos os problemas, o Cairo é uma metrópole cativante, histórica, com vida cultural efervescente e belezas na beira do Nilo. Não é fácil abrir mão disso por um alphaville da vida no meio do nada.

Desde os anos 1970 o Egito tem construído novas cidades nas cercanias do Cairo a fim de tentar desafogar a capital. A maior delas é Novo Cairo, inaugurada em 2000. Sem esquecer Sadat, batizada em homenagem a Anwar Sadat, presidente que assumiu em 1970 e governou o país até ser assassinado, em 1981, antes de ver a nova cidade ser convertida em capital, o que jamais aconteceu.

Muitos críticos no Egito lembram que o país tem questões bem mais urgentes. Voltar a planejar uma nova capital, ainda mais a um custo multibilionário, não é o ideal.

Se é que algum dia ela vai ficar pronta do jeito que foi apresentada. Sadat, há algumas décadas, era para ser capital e não foi.

Quando o faraó Akenaton morreu, em 1332 a.C, o culto ao deus-sol foi logo abandonado. Tell al Amarna perdeu o posto de capital, que voltou a Tebas, na atual Luxor. Tell al Amarna, esquecida na areia, só foi redescoberta no século 18.

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