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REPORTAGEM

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Guerra na Etiópia ameaça igreja que preserva a suposta Arca da Aliança

Igreja de Nossa Senhora de Sião, na Etiópia - Getty Images/iStockphoto
Igreja de Nossa Senhora de Sião, na Etiópia
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

17/10/2021 04h00

14º07'N, 38º43'L
Igreja de Nossa Senhora de Sião
Axum, Tigré, Etiópia

Na já longa lista de premiações controversas do Nobel da Paz, poucas ocasiões devem ter feito os membros do comitê que elege o ganhador repensarem sua decisão tão rapidamente como o vencedor de 2019, Abiy Ahmed. Recém-eleito primeiro-ministro etíope, ele montou um gabinete dividido meio a meio entre homens e mulheres, soltou presos políticos e encerrou um longo conflito com a vizinha Eritreia. Um prêmio que parecia justo a um jovem político que parecia promissor.

Aí, meses depois, tropas do governo atacaram a Frente de Libertação do Povo do Tigré (FLPT), grupo político e paramilitar que comandou o país por quase 30 anos. O motivo seria a desestabilização que a FLPT vinha causando no país.

Abiy Ahmed é oromo, grupo étnico majoritário da Etiópia e que abarca diversas denominações cristãs, muçulmanas e de religiões africanas. Já os tigrinas são cristãos ortodoxos com um modo de vida bem específico. Eles seguem a religião predominante, o cristianismo, mas são uma minoria étnica no país.

Com os agora aliados eritreus, Abiy levou a guerra ao Tigré. Ou seja, ele encerrou um longo conflito com o país vizinho, mas entrou em outro, civil.

Logo nos primeiros dias, houve assassinatos em massa. Em novembro de 2020, algo entre 300 e 800 pessoas foram massacradas em Axum (ou Aksum). A carnificina chamou a atenção tanto pela crise humanitária como pela ameaça à rica cultura do Tigré, cujos manuscritos e outros tesouros arqueológicos podem ser destruídos ou acabar em mercados ilícitos. É em Axum que fica, por exemplo, a igreja que, segundo a tradição local, guarda a Arca da Aliança.

Livro escrito à mão, aproximadamente do século 13 ou 14, exposto na Igreja de Tewahedo - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Livro escrito à mão, aproximadamente do século 13 ou 14, exposto na Igreja de Nossa Senhora de Sião, na Etiópia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A Arca

Não se sabe se a Arca da Aliança existe ou já existiu de fato. A Bíblia sugere que ela desapareceu durante a invasão de Jerusalém ordenada pelo rei da Babilônia Nabucodonosor 2º, em 586 a.C.. Desde então, a arca, que conteria as tábuas dos Dez Mandamentos, virou objeto de especulação, lenda e filme do Indiana Jones.

Desde a Idade Média circula uma versão na Igreja Ortodoxa Etíope que diz que a Arca da Aliança não estava no Templo de Salomão quando os babilônios chegaram. Menelik, filho do rei Salomão, de Israel, com Makeda, a rainha de Sabá, teria migrado a Jerusalém, estudado com o pai e roubado o artefato, antes da invasão babilônia. Segundo a tradição, Menelik, o primeiro rei etíope, levou a Arca a seu país, de onde ela nunca mais saiu: hoje, ela estaria preservada na Igreja de Nossa Senhora de Sião, em Axum.

Ninguém jamais confirmou isso porque, diferentemente de outros artefatos religiosos e arqueológicos importantes, que ficam mais ou menos disponíveis a cientistas e turistas, o objeto estaria preservado por guardas treinados para matar com as próprias mãos. Somente uma pessoa, o guardião da Arca, tem acesso a ela.

Vista das montanhas Simien, na Etiópia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista das montanhas Simien, na Etiópia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ao longo de sua história, a Etiópia instiga os estrangeiros. Para egípcios, era a misteriosa terra de onde o Nilo brota de fontes e serpenteia montanhas. Para europeus, um lugar habitado por unicórnios e dragões. É o lar de um cristianismo antigo e único, religião oficial desde que Ezana, rei de Axum, se converteu no século 4.

O país resistiu aos árabes no século 7, aos portugueses mil anos depois e aos italianos no século 19. Foi um dos únicos países africanos que escaparam da colonização europeia. Até que a Itália de Mussolini retornou, em 1935, e conquistou o país.

O Reino Unido deu asilo a Haile Selassie, homem que era imperador na Etiópia e deus na Jamaica: a história única de resistência do país do Chifre da África inspirou o surgimento do rastafarianismo na ilha caribenha — assunto para outro post do Terra à Vista, pode me cobrar.

Mas a invasão fascista não durou muito. Em 1941, os britânicos expulsaram os italianos e Selassie voltou ao trono.

Um jovem oficial inglês chamado Edward Ullendorff participou da operação, que muito lhe interessava. Ele era pesquisador da história e dos idiomas etíopes, então aproveitou a oportunidade para investigar o mistério da Arca da Aliança.

Padres etíopes em cerimônia de ano novo local, na cidade de Axum - Getty Images - Getty Images
Padres etíopes em cerimônia de ano novo local, na cidade de Axum
Imagem: Getty Images

Ullendorff bateu à porta da Igreja de Nossa Senhora de Sião ao lado de dois soldados. Falou com os guardas em amárico, a principal língua da Etiópia (não confundir com aramaico). Pediu para ver a Arca, ouviu que não podia, que o lugar é sagrado, coisa e tal. Mas ele mostrou que não era um fanfarrão qualquer, entendia a língua deles e respeitaria sua fé. Não menos importante, a Etiópia tinha problemas mais urgentes para enfrentar: o país estava se reestruturando após a invasão italiana, e a "privacidade" da Arca era algo menos importante.

Então, Ullendorff, que se tornaria professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, entrou na igreja. Em uma entrevista de 1992 concedida ao jornal "Los Angeles Times" ele relembrou a história. De fato, a Arca da Aliança está lá dentro.

Ou melhor, uma arca, feita provavelmente na Idade Média (quando elas eram fabricadas aos montes). Não tinha nada de especial. Toda igreja do cristianismo etíope tem uma réplica da Arca.

Ullendorff, que morreu em 2011, não criou caso em cima disso porque sabia que feriria os sentimentos dos fiéis caso anunciasse ao mundo que a Arca da Aliança original não estava em Axum. Isso só confirmaria algo que pesquisadores sérios sabiam e, pior ainda, traria problemas para seu trabalho. Em vez disso, ele deixou quieto e virou um grande especialista em Etiópia. Segundo seu ex-colega Tudor Parfitt contou ao site "Live Science", Ullendorff se tornou até amigo do imperador.

A existência da Arca pode ser questão de fé. Mas a ameaça à riqueza cultural preservada nas montanhas etíopes é real.

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