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Astronauta esculpido em igreja de mais de 500 anos é "mistério" na Espanha

Astronauta esculpido na Catedral de Salamanca, na Espanha - Getty Images
Astronauta esculpido na Catedral de Salamanca, na Espanha
Imagem: Getty Images
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista do UOL

10/10/2021 04h00

40º57'N, 5º39'O
Catedral Nova de Salamanca
Salamanca, Castela e Leão, Espanha


A igreja poderia ter 15 mil anos, não interessa. O astronauta é uma intervenção contemporânea feita em 1992 -- resposta direta e sem enrolação porque esta coluna valoriza o dinheiro do assinante.

Obras do tipo não são uma exclusividade espanhola, mas a região de Castela e Leão se especializou no assunto. Naquele ano, quando Barcelona sediava sua célebre Olimpíada, Salamanca se preparava para receber a exposição "As Idades do Homem", uma famosa mostra de arte sacra espanhola.

Para um evento desse porte, uma restauração seria bem-vinda à Nova Catedral. "Nova" naquelas. Como acontece em outras cidades europeias, é uma pegadinha de relatividade: ela começou a ser construída em 1513, enquanto a outra catedral em Castelo e Leão foi erguida entre os séculos 12 e 14.

Considerada um dos melhores exemplos do gótico tardio espanhol, segundo Rolf Toman, Barbara Borngässer e Achim Bednorz no livro "Churches and Cathedrals", a Nova Catedral tem uma "estrutura esquelética que cria um exterior monumental com interiores de proporções generosas". Ela foi concluída em 1733.

Durante a restauração dos anos 1990, um artista chamado Miguel Romero, envolvido nas obras, decidiu deixar sua marca na lateral do templo. Era algo que, segundo o historiador Benjamín García-Hernández, em entrevista ao jornal espanhol "El Comercio", era corriqueiro na Idade Média.

Romero resolveu homenagear os avanços tecnológicos do século passado e tascou um astronauta em meio aos ramos. A ala ganhou também um dragão tomando sorvete.

Dragão esculpido na Catedral de Salamanca, na Espanha - Getty Images - Getty Images
Dragão esculpido na Catedral de Salamanca, na Espanha
Imagem: Getty Images

Apesar de ser uma história relativamente nova e bem documentada, ela alimenta uma série de especulações absurdas. Tanto que sites sérios, dedicados a derrubar esses mitos criados na internet, precisam gastar tempo com o assunto.

Mas não dá para negar. Toda essa mística de "Eram os Deuses Astronautas?" tem apelo, e o "astronauta de mármore" da Nova Catedral virou um dos pedacinhos mais procurados e fotografados da catedral. Em 2011, de acordo com o site "El Mundo", foi a vez de ele passar por uma restauração, após ter um braço vandalizado. Se a região espanhola não estivesse satisfeita com a intervenção/viagem no tempo de Romero, teriam removido o astronauta nessa oportunidade.

Catedral de Salamanca, na Espanha - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Catedral de Salamanca, na Espanha
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Outras intervenções

Algumas igrejas de Castela e Leão também guardam surpresas do tipo. Na Catedral de Palência, as gárgulas ganharam, no começo do século 20, a companhia de um fotógrafo. Depois, nos anos 1990, dois aliens foram parar na entrada. Não qualquer alienígena cabeçudo, mas os dos filmes da Sigourney Weaver.

Já em Villaverde de Sandoval, o Mosteiro de Santa Maria tem uma luta de boxe esculpida. Em outra igreja de Salamanca, Romero, o autor do astronauta, escondeu um tuno, tipo de estudante universitário que faz serenatas e toca instrumentos como alaúde.

Ainda que o astronauta tenha ficado famosinho nas redes sociais, o grande ícone à la "Onde Está Wally?" de Salamanca é o sapo. A universidade local, uma das mais antigas da Europa, fundada há mais de 800 anos, tem um sapo sobre uma caveira escondido em uma fachada repleta de detalhes ornamentais. Localizá-los é uma missão que entretém calouros e turistas.

O famoso sapo da Universidade de Salamanca, na Espanha - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
O famoso sapo da Universidade de Salamanca, na Espanha
Imagem: Getty Images/iStockphoto

O significado da imagem é outro motivo de especulação. Segundo García-Hernández, é uma mensagem com altas doses de ironia. A fachada é do século 16, de uma época em que a Universidade de Salamanca já era uma instituição de 300 anos e que estava passando das mãos do papado para as da monarquia.

A obra é uma homenagem a Fernando e Isabel, os "reis católicos", que unificaram o país e perderam três filhos antes de vê-la pronta. Por isso, três crânios simbolizam os falecidos príncipes.

Universidade de Salamanca, na Espanha - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Universidade de Salamanca, na Espanha
Imagem: Getty Images/iStockphoto

De um lado está a morte, do outro a ressurreição às vésperas do Juízo Final. Essa é a grande mensagem da fachada, um alento aos enlutados monarcas. O sapo simboliza um certo Doutor Parra, e a caveira sob ele é o príncipe Juan, o herdeiro do trono que esse médico tentou salvar mas que acabou morrendo antes dos 20 anos, em 1497.

Aí está a pegadinha do bicho. Segundo García-Hernández, a imagem remete a um antigo provérbio que dizia que o Juízo Final só chegará no dia em que os sapos ganharem pelos. Ou seja, o batráquio está lá para lembrar que o príncipe jamais ressuscitará. (Se quiser buscar mais conhecimento, é só ir atrás do livro do historiador, "El Desafío de la Rana de Salamanca - Cuando la Rana Críe Pelos").

Nas igrejas da Espanha, um astronauta pode viajar no tempo e um príncipe não tem direito à vida eterna. Templos também têm entrelinhas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL