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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Surge uma esperança para o ser marinho mais ameaçado do mundo. Mas...

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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista de Nossa

14/05/2022 04h00

Um estudo científico assinado por especialistas e publicado na revista "Science", na semana passada, trouxe alguma esperança para o mais ameaçado animal marinho do planeta, a vaquita ("pequena vaca", em espanhol), um cetáceo de apenas um metro e meio de comprimento, que vive exclusivamente nas águas do Golfo da Califórnia, na costa oeste do México, cuja população restante na natureza é estimada em apenas dez — só dez! — exemplares.

Ou seja, todas as vaquitas que restam no mundo cabem nos dedos de apenas duas mãos!

Mãos estendidas - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Futuro garantido. Presente, não!

Segundo o estudo, que surpreendeu por ser o primeiro a apontar cientificamente uma esperança para a aflitiva situação das vaquitas, o risco de a espécie vir a ser extinta no futuro pelo cruzamento entre si dos pouquíssimos indivíduos que restam — o que favorece o surgimento de genes defeituosos —, parece pouco provável, pelo próprio histórico da espécie.

O estudo apontou que a população das vaquitas sempre foi numericamente reduzida (embora nunca tenha chegado à dramática situação atual), por conta do seu habitat, que é restrito apenas à parte norte do Golfo do Califórnia, também conhecido como Mar de Cortez.

Vaquitas - JAMES GILPATRICK/Sea Sheperd - JAMES GILPATRICK/Sea Sheperd
Vaquitas
Imagem: JAMES GILPATRICK/Sea Sheperd

Só restam 10 vaquitas

A notícia trouxe alguma esperança de que a espécie possa se recuperar a partir, apenas, dos dez indivíduos que restam vivos — desde que, claro, eles não morram tão cedo.

O estudo mostrou que, pelo menos geneticamente, ainda há esperanças para a sobrevivência das vaquitas.

Mas isso só acontecerá se os poucos animais que restam forem imediatamente preservados.

E nada indica que isso irá acontecer. Muito pelo contrário

Primeiro, precisam sobreviver

"Sob o ponto de vista genético, as vaquitas ainda têm potencial para recuperar a espécie, porque, historicamente, sempre procriaram entre poucos indivíduos e parecem imunes aos malefícios disso", concluiu o estudo, que, no entanto, reforçou o alerta de que, obviamente, isso só poderá acontecer se ainda restarem vaquitas vivas para se reproduzirem.

Os cientistas estimaram em apenas 6% o risco de a espécie vir a ser extinta nos próximos 50 anos, por razões genéticas — mas desde que as mortes cessem já.

Surge outra esperança: dois filhotes

Projeções matemáticas mostraram que, se estes dez indivíduos que restam na natureza (dois deles filhotes, avistados com muita festa, no mês passado) se mantiverem vivos, é possível chegar a 300 exemplares em 2070, o que diminuiria drasticamente o risco que paira sobre a espécie.

Se permitirmos que estas dez vaquitas sobrevivam, a natureza pode se encarregar do resto, em prol da espécie", afirma Jacqueline Robinson, geneticista evolutiva da Universidade da Califórnia, uma das coautoras do estudo.

Mas ela reforça:

"Ainda dá tempo de salvar as vaquitas. Mas, para isso, as mortes precisam cessar. A espécie não sobreviverá se não houver total proteção aos dez indivíduos que restam".

Mas o problema é que as vaquitas estão sendo dizimadas por conta de uma atividade criminosa: a captura de outro peixe, na região onde ela vive.

Foto do Museo de la Ballena - Sea Sheperd/Divulgação - Sea Sheperd/Divulgação
Foto do Museo de la Ballena
Imagem: Sea Sheperd/Divulgação

O que está matando a espécie?

Por trás da trágica situação das vaquitas, um simpático cetáceo que lembra os golfinhos, está, como sempre, a ação humana — embora elas não sejam capturadas pelos pescadores, nem façam parte do cardápio dos mexicanos.

As vaquitas estão morrendo de maneira acidental, por culpa das redes que são colocadas pelos pescadores em busca de outro ser marinho: a totoaba, um peixe também típico do Mar de Cortez,

A totoaba se tornou absurdamente valiosa depois que supostas propriedades medicinais de suas bexigas natatórias passaram a ser exaltadas pelos chineses, que hoje pagam verdadeiras fábulas por um exemplar vindo do México.

Com isso, a captura da totoaba explodiu na região, para infelicidade das vaquitas, que ficam presas nas redes e morrem afogadas, já que são cetáceos, que dependem do mesmo ar que respiramos.

No Mar de Cortez, as redes dos pescadores não têm o objetivo de capturar as vaquitas. Mas elas são as maiores vítimas. Por isso, só restam dez exemplares vivos.

Vaquita morta - Sea Sheperd/Divulgação - Sea Sheperd/Divulgação
Vaquita morta
Imagem: Sea Sheperd/Divulgação

Peixe de 50 mil reais

Os absurdos preços alcançados pelas bexigas natatórias das totoabas no mercado negro chinês (um exemplar pode chegar a valer o equivalente a R$ 50.000), fez com que o aumentasse barbaramente a sua captura no Mar de Cortez.

E as mortes acidentais das vaquitas nas redes dispararam também, gerando um morticínio na espécie.

Em 1998, antes que começassem o boom chinês pelo consumo da totoaba, a população de vaquitas no Mar de Cortez era estimada em cerca de 600 exemplares.

Hoje, pouco mais de duas décadas depois, a estimativa é que restem apenas dez indivíduos, incluindo os dois filhotes avistados no mês passado.

É uma situação mais que crítica.

Prestes a ser extinta

Atualmente, as vaquitas são consideradas o ser marinho mais vulnerável do mundo, prestes a ser extinto para sempre - até porque não existem exemplares em cativeiro, que possam garantir a continuidade da espécie.

E o que é pior: por trás disso tudo está o crime organizado.

Peixe em vez de drogas

Atraídos pelos exorbitantes valores atingidos pelas totoabas na China, os cartéis de traficantes mexicanos decidiram passar a financiar a captura ilegal do peixe no Mar de Cortez, e a explorar o comércio das bexigas natatórias com os chineses.

Para isso, contratam pescadores ilegais e subornam a Polícia, para que a fiscalização não aconteça.

E vem sendo assim nos últimos anos.

Cocaína do mar

A entrada do crime organizado no lucrativo negócio da captura da totoaba (que passou a ser chamada de "Cocaína do Mar", já que rende tanto ou mais do que as drogas), causou não apenas o acentuado declínio nos cardumes deste peixe no Mar de Cortez (a totoaba já é classificada como em "vulnerável", pela União Internacional para a Conservação da Natureza), como trouxe, como consequência nefasta, o fantasma da extinção que agora ronda as vaquitas: com mais redes no mar, mais vaquitas estão morrendo, levando à atual situação de pré-extinção da espécie.

Círculo vicioso

É um círculo vicioso e perverso.

Com mais redes financiadas pelos cartéis de traficantes, mais vaquitas passaram a morrer acidentalmente, embora, legalmente, exista um limite de peixes que podem ser capturados por cada pescador.

Mas a fiscalização pouco faz, porque os traficantes corrompem os policiais, uma vez que lucram milhões com as vendas das totoabas para os chineses.

Apesar das pressões de entidades ambientalistas e de governos estrangeiros (os Estados Unidos já ameaçaram intervir na fiscalização das redes em águas mexicanas), a situação persiste.

Para desgraça das vaquitas.

O projeto fracassou

Tempos atrás, em uma ação conjunta entre a Marinha Mexicana e a entidade preservacionista Sea Shepherd ("Pastor do Mar", em tradução literal), o governo do México tentou implantar um projeto de captura assistida das últimas vaquitas que restam, a fim de preservá-las para a manutenção da espécie.

Sea Sheperd - Sea Sheperd/Divulgação - Sea Sheperd/Divulgação
Imagem: Sea Sheperd/Divulgação

Mas o projeto fracassou e nenhuma vaquita foi levada para um criadouro.

E a lei manteve a pesca

Como se não bastasse, a "tolerância zero" que as autoridades mexicanas diziam ter para com os pescadores ilegais de totoabas (e, consequentemente, com os cartéis de traficantes) deu lugar a uma mudança na própria lei, que passou a permitir a pesca do peixe "dentro de cotas estabelecidas", a fim de "punir os traficantes, não os pescadores", como alegou o governo mexicano.

De nada adiantou: o tráfico continuou tão atuante quanto antes e a restrição legal na captura da totoaba ainda fez subir os preços do peixe no mercado chinês, atraindo, consequentemente, mais cartéis de traficantes para o lucrativo negócio.

Conflitos diários

Hoje, perseguições e conflitos entre barcos de traficantes e parte da Polícia ainda não corrompida são testemunhados rotineiramente nas águas da parte norte do Golfo da Califórnia.

Ali, o plácido Mar de Cortez virou palco de uma guerra, cuja principal vítima é um lindo cetáceo, que não faz parte do conflito.

Apesar do alentador estudo científico publicado na semana passada, as vaquitas parecem condenadas a desaparecer de vez da natureza. E só restam 10 chances de isso não acontecer.

Guerra no mar também no Brasil

Esta não é a primeira vez que a captura intensiva de um ser marinho põe em risco a preservação de uma espécie e gera conflitos - inclusive armados — entre captores e defensores.

No passado, até mesmo no Brasil, houve um caso semelhante.

Na década de 1960, a captura ilegal de lagosta no litoral do Nordeste brasileiro gerou uma séria crise diplomática entre Brasil e França, que quase culminou em ações bélicas entre os dois países, no que ficou conhecido como a Guerra da Lagosta - que, felizmente, se resumiu a simples ameaças, intimidações e até episódios absurdos, como pode ser conferido clicando aqui.

Já a batalha em favor das vaquitas nada tem de folclórica e exige celeridade.

O objetivo é salvar as últimas dez que restam.

Mas, ao contrário do que diz o estudo, talvez já não haja mais tempo para isso.