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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Atração no Rio, veleiro famoso já ficou preso no gelo e foi cena de crime

Fondation Tara Océan
Imagem: Fondation Tara Océan
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

06/11/2021 04h00

Um dos mais famosos barcos de pesquisas marítimas do mundo, o veleiro Tara, da fundação francesa Tara Océane, está em exibição no Rio de Janeiro desde a última quinta-feira, e assim ficará até o dia 11, quando seguirá adiante na longa viagem que vem fazendo pelo Oceano Atlântico há mais de um ano.

Para os interessados em questões como biodiversidade marinha, poluição das águas, dramática situação do lixo plástico no mar e a preservação geral dos oceanos, é uma oportunidade e tanto, já que, ao contrário de outras exibições do gênero, as apresentações que as equipes do Tara fazem nos portos por onde o barco passa não são voltadas apenas a biólogos, cientistas ou iniciados no tema, mas sim a qualquer pessoa, de qualquer idade — sobretudo crianças e estudantes.

A linguagem das apresentações das pesquisas que o barco executa (neste momento, dedicada aos seres microscópicos e invisíveis que habitam os mares) é acessível, as explicações são claras e as demonstrações surpreendentes, porque mostram o que os olhos não conseguem ver na água do mar.

Atividades gratuitas

Durante sua permanência no Rio de Janeiro, onde chegou na semana passada, após realizar pesquisas nos rios amazônicos, fazer apresentações em Belém e Salvador e navegar sobre a cordilheira submarina existente entre a costa do Espirito Santo e a Ilha de Trindade, ponto mais avançado do Brasil no oceano Atlântico, a equipe do Tara promoverá uma série de atividades educacionais e de conscientização sobre o meio ambiente marinho, como palestras, conferências, painéis e brincadeiras interativas com as crianças.

Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan
Imagem: Fondation Tara Océan

As atividades são gratuitas e acontecerão, primeiramente, no Museu do Amanhã, até este domingo, e depois na quase vizinha Marina da Glória, onde o barco também estará atracado — mas ele só poderá ser visitado externamente, porque as autoridades brasileiras de saúde não autorizaram o ingresso de visitantes no veleiro, por conta da pandemia.

É uma pena que os brasileiros não possam conhecer o barco por dentro, mas compensamos isso com visitas virtuais, por meio de vídeos, que mostram o que há a bordo e como funcionam os laboratórios que existem dentro do Tara"

Um veleiro-laboratório

Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan
Imagem: Fondation Tara Océan

O Tara é um grande barco à vela de dois mastros e casco de alumínio de 36 metros de comprimento, que, no passado, antes de pertencer a Fundação Tara Ócean, era chamado de Antartida e Sea Master.

E, embora seja um veleiro, possui um completo laboratório de análises marinhas a bordo, com super microscópios capazes de analisar, na hora, os microrganismos que são capturados nas profundezas do mar.

No próprio barco, é possível até fazer o sequenciamento de genomas das espécies colhidas, já que boa parte dos seus 14 tripulantes são cientistas.

Entre outros equipamentos, o barco possui cilindros especiais que coletam amostras da água do mar (e os micro seres contidos nela) a até 1000 metros de profundidade. Veja o vídeo:

Seres invisíveis do oceano

Na sua atual expedição, batizada de Missão Microbioma, a equipe do Tara está especialmente dedicada a dois temas: a questão dos microplásticos no mar, um problema que já aflige todos os oceanos, e o estudo dos organismos marinhos praticamente invisíveis, como vírus e bactérias, que também estão sendo exibidas no Rio de Janeiro, através de telas que ampliam as imagens dos microscópios.

Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan
Imagem: Fondation Tara Océan

"Os microrganismos marinhos são fundamentais para a saúde do planeta", garante o francês Romain Troublé, diretor executivo da Tara Océan.

"Assim como não poderíamos viver sem os bilhões de micróbios 'amigáveis' que habitam nossos corpos, nosso planeta não seria viável sem os seres do microbioma do mar, que absorvem parte significativa do gás carbônico emitido pelos seres humanos. Eles são o primeiro elo de uma gigantesca cadeia que regula a saúde do planeta. Mas foram pouco estudados até hoje".

Por onde ele ainda irá passar

No Rio, a programação do veleiro-laboratório inclui também palestras com especialistas em meio ambiente marinho, coleta diária de plânctons para exibi-los aos visitantes (que, muito possivelmente, jamais viram um plâncton, muito menos na poluída Baía de Guanabara), exposição didática sobre a questão dos microplásticos no mar, uma conferência científica (na terça-feira) sobre os impactos das mudanças climáticas no oceano que banha o Brasil, e atividades lúdicas e divertidas para as crianças, todos os dias.

Do Rio de Janeiro, o barco seguirá para Santos, depois Itajaí (onde haverá outra exibição, bem mais curta) e continuará descendo o continente, até o extremo sul da América do Sul.

Em janeiro do ano que vem, o Tara chegará a Antártica, para uma missão curiosa: seguir o lento deslocamento de um gigantesco bloco de gelo até que ele derreta parcialmente, a fim de avaliar os impactos e mutações que isso causa no micro seres marinhos do seu entorno.

Um barco cheio de histórias

Não será, porém, a primeira vez que o Tara entrará numa fria, em nome da ciência.

Tempos atrás, ele passou um ano e meio preso ao gelo do Ártico, sem poder se movimentar, para que seus ocupantes pudessem estudar a movimentação da calota polar.

Com isso, tornou-se o veleiro que chegou mais perto do Polo Norte até hoje.

Ou seja, é um barco com muitas histórias.

Mas nenhuma tão chocante quanto a que aconteceu a bordo dele 20 anos atrás, aqui mesmo, no Brasil.

Assassinato a bordo

Te Ara Encyclopedia - Fondation Tara Océan - Fondation Tara Océan
Te Ara Encyclopedia
Imagem: Fondation Tara Océan

Em 7 de dezembro de 2001, quando fazia uma expedição ecológica pelos rios da Amazônia, este mesmo barco, na época chamado Sea Master, foi invadido por bandidos armados quando estava ancorado no litoral do Amapá e o resultado foi a trágica morte do seu então dono, o lendário velejador neozelandês Peter Blake, um dos maiores nomes da vela mundial e principal ídolo esportivo da Nova Zelândia — onde era uma espécie de Ayrton Senna.

Blake, que havia abandonado as regatas para se dedicar às pesquisas ecológicas nos mares do planeta, reagiu ao assalto e foi morto por um dos bandidos, dentro do próprio barco.

A morte absurda de Peter Blake chocou o mundo e gerou enormes constrangimentos ao governo brasileiro (clique aqui para conhecer esta vergonhosa história).

Vocação de ajudar o mundo

Após a tragédia, a viúva de Blake vendeu o veleiro à Fundação Tara Océan, que, também como forma de tributo a memória de Peter Blake, decidiu manter "a mesma vocação de ajudar o mundo" no barco que hoje é um dos mais representativos das pesquisas marinhas no mundo.

E que os cariocas poderão conhecer, até a próxima quinta-feira.