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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Caso do casal de Angra: o que diz laudo da perícia sobre barco que afundou

Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e Leonardo Machado de Andrade, de 50 - Reprodução
Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e Leonardo Machado de Andrade, de 50 Imagem: Reprodução
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

15/10/2021 14h33

Embora o laudo da perícia realizada pela polícia no que restou do barco no qual estava o casal Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e Leonardo Machado de Andrade, de 50, mortos por afogamento na noite de 22 de agosto quando davam um passeio no mar na região de Angra dos Reis, ainda não tenha sido oficialmente entregue ao delegado Vilson de Almeida Silva, da 166ª Delegacia Policial de Angra dos Reis, encarregado do caso, já se sabe que o resultado da vistoria apontará o motivo do afundamento como "inconclusivo".

Ou seja, sem conclusão alguma.

"O barco estava tão deteriorado, tanto pelo tempo que passou debaixo d´água quanto pela dificuldade da própria operação de resgate dele do fundo do mar, que os técnicos não conseguiram chegar a uma conclusão sobre o que causou o naufrágio", explicou o delegado. "Com isso, será impossível saber o que causou o acidente que resultou na morte do casal".

Como foi o resgate do barco

barco angra perícia - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"Não dá mesmo pra saber", concorda o dono do barco (e amigo de uma das vítimas, Leonardo, a quem ele emprestara a embarcação após ter acabado de comprar do barco do próprio amigo), o pescador Paulo dos Santos, que também mora na Ilha Grande, onde Leonardo também vivia.

"A operação de retirada do barco foi bem complicada, porque a profundidade, que era de 38 metros, não deixava os mergulhadores trabalharem direito. Eles só podiam ficar oito minutos no fundo, por conta da profundidade, e não enxergavam nada, por causa da falta de visibilidade. Não dava para examinar o casco lá mesmo e ver se ele tinha algum rombo, nem fazer a operação de prender tambores no barco e enchê-los de ar, para que ele subisse sozinho, como é o certo nesses casos, porque os mergulhadores não podiam ficar muito tempo lá embaixo", explica Paulo.

"Daí, a única saída, foi usar um guindaste. Mas foi ainda mais difícil, porque o cabo arrebentou duas vezes, quando o barco já estava quase na superfície, e ele acabou despencando lá pra baixo mais duas vezes e ficou danificado. Depois, como era fundo demais para o guindaste puxar, o jeito foi arrastar o barco para uma parte mais rasa e trazê-lo para a superfície. Mas ao arrastar o barco, o casco estragou ainda mais e o que sobrou não permitiu chegar a conclusão alguma mesmo", diz o pescador, que ainda não sabe se valerá a pena recuperar o barco, que ele havia acabado de comprar, à duras penas.

"Acho que para recuperar o barco vai custar mais do que ele vale", avalia Paulo, que, como determina a Marinha, foi o responsável pela operação de resgate do barco para a perícia examiná-lo.

Foram três dias tentando tirar o barco do fundo e eu só consegui porque os amigos ajudaram e não cobraram pelo serviço", diz Paulo

Avarias impediram a perícia

"Quando o resgate começou, o barco estava só sem a parte de cima da cabine, que foi arrancada pela rede dos pescadores que encontraram o corpo do Leonardo, que devia estar preso dentro dela. Mas, quando ele finalmente foi retirado da água, estava bem destruído e isso deve ter ocultado o motivo do naufrágio. Se o barco bateu em algo ou foi atropelado por outro barco maior e afundou, o estrago pode ter sido no mesmo local que acabou destruído durante o resgate - um azar danado. Mas não tinha jeito de fazer o resgate do barco de outra forma", lamenta o pescador, que também gostaria de saber o que, afinal, aconteceu naquela noite com o casal Cristiane e Leonardo?

O que pode ter acontecido

barco angra histórias do mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Com a inconclusão do laudo dos peritos, restaram apenas especulações sobre o que pode ter causado o naufrágio do barco.

Uma delas é que o barco tenha batido o fundo do casco em uma grande pedra (uma "laje", como dizem os ilhéus) que existe há cerca de 200 metros do local onde ele afundou, a cerca de cinco quilômetros da praia do Provetá, na Ilha Grande.

Nas marés mais baixas, como acontece nesta época do ano, aquela grande pedra quase aflora à superfície e, à noite, torna-se praticamente invisível.

Outra hipótese é que o barco tenha sido atropelado por algum navio, já que o naufrágio ocorreu em uma área que dá acesso ao porto, embora nenhum comandante tenha reportado o acidente.

Já a terceira alternativa seria a de o barco ter virado, capotado e afundado instantaneamente, ao ser atingido por ondas, geradas, talvez, pela passagem de algum navio bem próximo, já que, naquela noite, o mar estava relativamente calmo.

Quando o navio passa muito perto, ele gera uma ondulação forte, que pode ter desestabilizado e virado o barco. Nessas horas, é preciso tomar muito cuidado", diz Paulo.

Um mistério para sempre

Todas as hipóteses, porém, explicariam por que o barco afundou tão rápido, a ponto de o casal não ter tido tempo sequer vestir coletes salva-vidas, como mostraram os seus corpos, ao serem resgatados.

Mas, agora, com a falta de conclusão do laudo, o motivo do naufrágio permanecerá ignorado, muito possivelmente para sempre.

Só o exame detalhado da embarcação poderia fornecer pistas do que ocorreu naquela noite", disse o delegado Vilson. "Mas nem isso foi possível", lamenta.

Outro caso sem solução

Não é a primeira vez que a morte de um ocupante de barco na região de Angra dos Reis torna-se um caso sem solução.

No passado, outros casos já aconteceram na região.

No mais famoso deles, o do capitão argentino Erwin Rosenthal, que navegava sozinho com um grande veleiro na mesma Ilha Grande, três anos e meio atrás, nem mesmo o fato de tanto o corpo dele quanto o barco terem sido encontrados (este, com um intrigante artefato, preparado para fazer explodir o barco — clique aqui para conhecer este misterioso caso em detalhes) fez com a polícia chegasse à alguma conclusão no inquérito, que segue, até hoje, sem uma resposta.

No caso do casal, também nem os corpos, nem o exame do barco, ajudaram a responder a mais intrigante das perguntas: o que aconteceu com o casal que morreu no mar de Angra dos Reis?