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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Relógio errado, janela anticurioso: por dentro do iate da Rainha Elizabeth

Histórias do Mar - Iate da Rainha - Divulgação/Marc Millar
Histórias do Mar - Iate da Rainha
Imagem: Divulgação/Marc Millar
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

09/10/2021 04h00

Desde que foi aposentado, em 1997, e transformado em museu flutuante, o Britannia, iate real da Marinha Inglesa que, durante 44 anos, foi usado pela Rainha Elizabeth como residência flutuante, local de descanso e embaixada móvel do Reino Unido, virou atração turística de primeira grandeza na cidade de Edimburgo, na Escócia.

Ali ele passou a ficar permanentemente atracado — mas, até hoje, em perfeitíssimo estado e repleto de curiosidades sobre a vida da Família Real a bordo, como as que são reveladas pelos interessantes tours que revelam as peculiaridades de um dos barcos mais famosos do mundo na segunda metade do século passado.

Do mar para o museu

Histórias do Mar - Iate da Rainha - Divulgação/Marc Millar - Divulgação/Marc Millar
Imagem: Divulgação/Marc Millar

24 anos atrás, o Britannia, de 125 metros de comprimento, foi aposentado, mas não mais substituído por outro barco, quebrando assim a tradição de a realeza britânica ter a sua própria embarcação — algo que vinha acontecendo desde 1660. A pressão pelo fim da mordomia foi dos próprios súditos ingleses, que não viram — e continuam não vendo — a necessidade de a Rainha ter um iate. No ano seguinte, o barco virou museu e, desde então, passou a permitir deliciosas indiscrições nos hábitos e aposentos privativos da Família Real inglesa. Como estes aqui.

Suntuosa residência flutuante

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Construído em 1953 para ser uma combinação de embaixada móvel do Reino Unido e suntuosa residência flutuante da realeza, o Britannia sempre foi muito apreciado pela Rainha Elizabeth, que o considerava "o único lugar onde realmente conseguia relaxar". Ela passou diversas temporadas no seu "yacht real", muitas delas com parte da família.

Visitar, sim. Ficar, não

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Não foram poucas as autoridades mundiais convidadas pela Rainha e pelo Príncipe Philip que tiveram a honra de poder visitar o Britannia - como o então presidente americano Ronald Reegan e sua esposa, Nancy. Mas havia uma regra: apenas a família real podia se hospedar no barco.

Piano preso ao piso

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Todo o mobiliário e decoração original do Britannia foram mantidos. Além disso, chama a atenção dos visitantes o tamanho dos cômodos (como esta sala de estar, onde a Rainha recebia seus convidados), que mais parecem palácios e em nada lembram o interior de um barco. Detalhe curioso: por causa dos balanços do mar, o piano era preso ao assoalho por parafusos. Mas não o banquinho.

Uma cozinha só para a Rainha

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Uma gigantesca mesa de mogno, com quase 20 metros de comprimento e decorada com candelabros de prata, ocupa boa parte da sala de jantar. Hoje, tours privados de grupos fechados podem incluir refeições na mesma mesa onde o casal real recebia autoridades. O Britannia foi construído com três cozinhas. Uma delas, só para preparar as refeições da Rainha.

Janelas à prova de bisbilhoteiros

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Mesmo quando estavam a bordo, a Rainha e o Príncipe Philip dormiam em quartos separados — e com janelas propositalmente mais altas, para que nenhum tripulante conseguisse ver o que se passava dentro dos dois aposentos. O Britannia orgulha-se de ser o único local do mundo onde é possível espiar o quarto de uma rainha ainda viva. Mas, ainda assim, só através de um vidro.

Aqui é a Rainha, câmbio!

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Cada dormitório real tinha o seu próprio escritório, como este, onde a Rainha despachava. O mobiliário foi totalmente preservado. Até o gigantesco aparelho de telefone interno, que ela usava para se comunicar com seus criados e tripulantes — que, por sinal, eram obrigados a usar tênis bem macios, para não produzir ruídos que perturbassem o sossego da Rainha. Também para garantir o silêncio a bordo, todas as ordens à tripulação eram passadas por meio de gestos e sinais, sem nenhuma voz.

Só eles dormiram juntos a bordo

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Foi a bordo do Britannia que a Princesa Diana e o Príncipe Charles passaram boa parte da sua lua de mel, em 1981. Como não havia uma suíte de núpcias no barco, foi instalada uma cama de casal em um dos camarotes — a única do gênero em todo o iate.

Mais austero e sem bordados

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Ao contrário da Rainha, o Príncipe Philip apreciava tons mais escuros na decoração dos seus aposentos. Como a madeira à mostra nas paredes. E exigia "travesseiros sem bordados", como contam os indiscretos guias no tour pelo barco.

Sempre no mesmo horário

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Não importa o que os astros digam, todos os relógios a bordo do Britannia exibem sempre o mesmo horário: 15h01m da tarde - hora em que o iate foi oficialmente aposentado, no dia 11 de dezembro de 1997.

Em vez do nome, apenas o brasão

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Ao contrário de todos os demais barcos do mundo, o Britannia nunca teve o seu nome escrito no casco. Apenas o brasão da Família Real na ponta da proa, que, aliás, foi construída propositalmente bem mais alta que o habitual, para proteger as saias da Rainha contra o vento.

Ela só navegava perto da costa

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Ao longo de sua história, o Britannia navegou o equivalente a uma volta ao mundo por ano e realizou 968 viagens oficiais para 153 países — inclusive para o Brasil. Mas a Rainha praticamente não se afastava da costa do mar do próprio Reino Unido.

Coroa em tudo

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Tudo no HM (iniciais de "Her Majesty", "Sua Majestade" em inglês) Yacht Britannia, nome oficial do barco, faz referência à Rainha. Até a bitácula (pedestal de sustentação da bússola), cujo formato é o de uma coroa.

Tripulação mais que numerosa

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Embora fosse um iate, o Britannia tinha a tripulação de um pequeno navio. Entre oficiais e marinheiros, eram mais de 20 pessoas, fora os acompanhantes habituais da Rainha, como ajudantes e camareiras, que somavam outras dezenas. No total, 220 membros fizeram parte da tripulação do barco — todas escolhidas a dedo.

Banda música própria

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Quando a Rainha estava a bordo, em visita oficial a algum local, a tripulação do Britannia aumentava ainda mais, por conta do cerimonial, que incluía até uma banda com 26 músicos, para saudar os desembarques da realeza britânica.

Mais que um simples ambulatório

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Como foi construído logo após a Segunda Guerra Mundial, o Britannia foi concebido para poder ser convertido em barco-hospital, caso necessário. Isso incluía até um completo centro médico a bordo, felizmente nunca usado. Nem pela tripulação, muito menos pela Família Real.

Misturas nem nas máquinas de lavar

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

O Britannia fabricava a própria água doce que usava, a partir da dessalinização do mar. E tinha uma lavanderia industrial a bordo, com capacidade de lavar 600 peças por dia. Mas nunca junto com as roupas da Rainha.

Descobriram que não cabia

Londres  Rolls Royce Phantom VI  - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Originalmente, o projeto do Britannia previa a existência de uma garagem, para transportar o veículo oficial da Rainha, um Rolls Royce, para ser usado nos desembarques. Mas o plano teve que ser abandonado, porque, ao ficar pronto, os engenheiros constataram que o carro real só caberia naquele cômodo se os seus para-choques fossem removidos. Com isso, a garagem virou depósito de comida e, hoje, loja de suvenir.

Tour em 30 idiomas diferentes

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Imagem: Divulgação/Marc Millar

Embora exista como museu há mais de duas décadas, o Britannia segue atraindo muitos visitantes, e, no ano passado, foi eleito um dos melhores programas turísticos da Escócia. O ingresso, que custa o equivalente a R$ 130, dá direito a um tour autoguiado, por meio de fones de ouvido, que narram as peculiaridades do barco em 30 diferentes idiomas. Inclusive, português.

Em perfeito estado, mas parado

Histórias do Mar - Iate da Rainha - Divulgação/Marc Millar - Divulgação/Marc Millar
Imagem: Divulgação/Marc Millar

Embora sem uso há bastante tempo, o Britannia é mantido impecável — e todo o dinheiro arrecadado com a venda de ingressos é usado na manutenção do próprio barco, que, no entanto, jamais voltará a ser usado. Foi o último iate da realeza inglesa, o que aumenta ainda mais a relevância deste glamoroso barco.

Outro barco repleto de histórias

Histórias do Mar - Iate da Rainha - Smithsonian American Art Museum - Smithsonian American Art Museum
Imagem: Smithsonian American Art Museum

A mesma sorte de ser transformado em um museu vivo não teve outro famoso iate do passado, o America, primeiro barco americano a vencer os próprios ingleses em uma competição, em 1851, quando eternizou a resposta dada a uma pergunta feita pela então Rainha Victoria, tataravó de Elizabeth, que acabaria definindo para sempre o espírito da mais importante regata do planeta — clique aqui para conhecer esta interessante história de outro barco lendário.